11,2% dos bebês nasceram antes da hora em 2020 no RJ

Número de bebês prematuros em 2020 foi 3% maior do que o registrado em 2019 no estado. Acompanhamento pré-natal é fundamental para reduzir o número de prematuros

Brasil é o décimo país do mundo no ranking da prematuridade (Foto Marcello Casal / Agência Brasil)
 

Após o parto, tudo o que uma mãe quer é cuidar do seu bebê em casa. Mas, infelizmente, alguns imprevistos podem fazer com que o bebê tenha que permanecer na maternidade por mais tempo. Mas nem nem sempre acontece isso. O Brasil é campeão em cirurgias cesáreas, boa parte agendadas sem indicação clínica, o que pode acarretar prematuridade.

Dados da Organização Pan-americana de Saúde (Opas) indicam que anualmente nascem mais de 1 milhão de bebês prematuros, pequenos e gravemente doentes, nas Américas. Conforme as informações do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MDH), o Brasil ocupa a 10ª posição entre as nações onde são registrados mais casos de nascimentos de prematuros.

No Estado do Rio de Janeiro, mesmo diante do cenário da pandemia da Covid-19, uma análise da Secretaria de Estado de Saúde (SES) apontou que o número de bebês prematuros em 2020 foi 3% maior do que o registrado em 2019.  No ano passado, foram 199.060 nascimentos e, desse total, 11,2% foram prematuros. Já em 2019, foram 208.211 nascidos vivos, sendo 10,9% de bebês prematuros. Os dados chamam atenção nesta quarta-feira (17), quando é celebrado o Dia Mundial da Prematuridade.

ANS alerta gestantes sobre prematuridade

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) faz um alerta sobre a importância do pré-natal e da escolha da melhor via de parto para prevenir esse quadro. Segundo dados divulgados pela Aliança Nacional para o Parto Seguro e Respeitoso, o Brasil registrou 300 mil nascimentos prematuros em 2019, sendo o 10º país no ranking mundial de prematuridade: 11,7% dos partos ocorrem antes das 37 semanas de gestação no país.

A Aliança reúne em torno de 52 entidades, incluindo a ANS, dispostas a atuar em prol da redução da mortalidade materna e neonatal e da garantia de direitos básicos para o parto e para o nascimento seguros no país. O bebê que nasce com menos de 37 semanas de gestação (36 semanas e 6 dias) é considerado prematuro, ou pré-termo.

No Brasil, o nascimento de bebês prematuros corresponde a 12,4% dos nascidos vivos, de acordo com dados do Sistema de Informações Sobre Nascidos Vivos (Sinasc) e do Ministério da Saúde.  Essa foi a principal causa de mortalidade infantil em todo o mundo, segundo a organização. 

A prematuridade aumenta a chance de internações dos bebês em UTI, pois é na fase final da gestação que o sistema cardiorrespiratório amadurece, sendo assim, bebês prematuros perdem a oportunidade de estarem mais preparados para lidar com a adaptação à vida fora do útero. Além disso, podem desenvolver outros problemas, tais como, asma e alergias.

O pré-natal é mais do que um exame, mas um ato de amor, porque ajuda a manter a integridade das condições de saúde da mãe e do bebê. E se faz necessário durante toda a gravidez. Através do acompanhamento à gestante e do respeito ao tempo certo de nascimento do bebê, muitos partos prematuros poderiam ser evitados, por isso é importante que se respeite o tempo do bebê, esperando pelo menos que o trabalho de se inicie e evitando o agendamento de cesáreas desnecessárias.

Rio tem programa Laços – Maternidade Segura

Em julho deste ano, o Governo do Estado do Rio de Janeiro lançou o programa Laços – Maternidade Segura. A iniciativa prevê o repasse de mais de R$ 150 milhões anuais para custeio nas unidades cadastradas.  Os valores referentes ao projeto são retroativos ao mês de janeiro e o apoio financeiro garante a qualidade do atendimento durante o parto. O investimento permite a abertura de novos leitos e a qualificação do serviço já existente, tanto para parto de risco habitual quanto para alto risco.

“Estamos trabalhando para melhorar cada vez mais a qualidade do atendimento à mulher e aos recém-nascidos no Estado do Rio. Este ano, lançamos o Programa Laços, um apoio financeiro para maternidades que cumprirem metas. Entre elas, estão o aumento do percentual de partos normais, a aplicação da vacina BCG ainda na maternidade, garantia à gestante de um ou uma acompanhante de livre escolha, registro civil do bebê, entre outras coisas”, diz o secretário de Estado de Saúde, Alexandre Chieppe.

Roberta Serra, assessora Neonatal da Coordenação Materno-Infantil da Superintendência de Unidades Próprias Hospitalares e Pré-Hospitalares, explica que ainda há muito o que fazer nessa área, mas os gestores estaduais e municipais estão atuando em conjunto para manter o incentivo ao pré-natal.

“Um dos cuidados mais importantes que temos que ter com as grávidas é garantir o atendimento adequado, em especial àquelas com Covid-19, para que tenham acesso a um leito adequado também. Também é importante que, mesmo diante da pandemia e com o distanciamento social, as mães continuem mantendo o acompanhamento pré-natal, fundamental para prevenir a prematuridade dos bebês”, ressaltou ela.

“A equipe do hospital chorou e torceu junto comigo’

A prematuridade, mesmo em período de pandemia, não atinge apenas aquelas com Covid-19. Silmara Senra Gonçalves tomou todos os cuidados e não foi infectada pelo coronavírus. Durante o acompanhamento médico, porém, a gestante descobriu que seu bebê apresentava restrição de crescimento.

“Eu fiz o acompanhamento e tomei os cuidados que meu médico me passou. Já estava tudo certo. Eu me cuidaria e teria meu bebê no Hospital de Laranjeiras. Mas, no dia 26, eu acordei com pressão alta e fui levada para o Hospital da Mulher, que é mais perto da minha casa. Eu acredito que tudo acontece por um propósito maior. Aqui, eu e o Lorenzo somos muito bem cuidados”, relata a mãe.

Hoje, Lorenzo está internado devido a uma displasia pulmonar e, apesar do susto que deu à mãe, já ganhou peso e apresenta melhora. “Eu tenho muita certeza de que logo ele receberá alta. Eu sou muito grata a toda equipe do hospital, que chorou e torceu junto comigo”, agradeceu Silmara.

‘Minha filha nasceu com 760 gramas’

Amora Dias, de 6 anos, que chegou ao mundo com apenas 27 semanas de gestação e 760 gramas. Enfrentou quase três meses de internação em UTI neonatal e uma série de desafios durante o período de internação hospitalar.

“Assim que ela nasceu, já foi para CTI neo e foram 111 dias de internação. Ela teve bastante intercorrência nesse tempo, como ritnopatia da prematuridade, hemorragia intracraniana, crises convulsivas, anemia e precisou de [transfusão de] sangue quatro vezes, foi muita coisa. Por conta da hemorragia, ela tem paralisia cerebral. As pessoas acham que prematuridade é só ganhar peso. Isso é um mito que tentamos combater porque, na verdade, a situação do prematuro é muito grave”, contou Agda Dias, mãe de Amora.

Segundo Agda, a possibilidade de acompanhar de perto e integralmente a recuperação da filha, por meio do método canguru, foi o que amenizou as dificuldades que enfrentava. A medida é indicada pelo Ministério da Saúde para que mães de bebês que nasceram prematuros possam ter contato pele a pele com o filho.

“Peguei a Amora no colo com um mês de internação, porque é muito arriscado pegar antes porque o bebê corre risco com essa manipulação e ali mudou muito a minha relação com ela porque senti o pertencimento, a falta que ela me fazia, de tê-la comigo e depois desse dia, todos os dias fizemos ‘canguru’, disse.

Agda alerta para os desafios e desinformações em torno da prematuridade. Segundo ela, é fundamental buscar psicológico e a troca de informações com mães que enfrentam situações semelhantes. Em virtude do nascimento prematuro, Amora tem paralisia cerebral e comprometimento motor.

“O que a gente lida com a prematuridade é pesadíssimo e a gente não dá conta. Buscar uma ajuda profissional psicológica e até mesmo um psiquiatra para ajudar com medicação, se for preciso, porque é pesado. E buscar compartilhar isso, buscar outras mães que já passaram por isso. A sensação que dá é que só o seu filho está passando por aquilo, a gente não conhece tantos prematuros assim”. Para ajudar pessoas que vivem os mesmos desafios, Agda mantém um perfil com vídeos e fotos das atividades da pequena Amora.

Pais e bebês juntos

Para oferecer às mulheres e aos bebês o cuidado adequado, a ANS, em parceria com o Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE) e o Institute for Healthcare Improvement (IHI), desenvolvem o Movimento #PartoAdequado, que valoriza o parto normal e busca reduzir o percentual de cesarianas que não têm indicação clínica na #saúdesuplementar.

Para alertar e informar sobre a prematuridade, a Rede Mundial de Prematuridade também realiza anualmente uma campanha de sensibilização. Em todo o mundo, monumentos e prédios públicos são iluminados de roxo para chamar a atenção para a causa, na chamada Global Illumination Initiative.

Neste ano, o foco é a separação zero entre mãe e bebê prematuro, ou seja, permitir que a mãe tenha condições de ficar internada para acompanhar o filho prematuro o tempo todo e que o pai também tenha livre acesso. Em virtude da pandemia de covid-19, o ambiente hospitalar precisou se readequar às normas de segurança, o que acabou separando os bebês de seus pais.

Para a enfermeira neonatal e vice-diretora executiva da ONG Prematuridade.com, Aline Hennemann, o contato direto entre mãe e bebê é fundamental para recuperação da criança.

“O nosso principal desafio hoje é mostrar para as pessoas que o prematuro não é um mini adulto, ele é um ser em formação. O lugar dele seria dentro do útero materno. Dentro das UTIs neonatais, a gente tenta reproduzir o útero materno, então os nossos desafios são levar atenção integral para esse bebê prematuro, para essa família, levar ambulatórios de segmentos que possam fazer o acompanhamento pós alta desse bebê prematuro e dessa família”, explica.

Anualmente, a ONG realiza atividades de sensibilização sobre o nascimento de bebês prematuros no Brasil. Em decorrência da pandemia, as atividades são realizadas de forma virtual este ano.

“Em virtude da pandemia de covid-19, a campanha tem sido restrita ao ambiente virtual por meio das redes sociais, com material de sensibilização sobre o assunto”, disse a enfermeira.

“Pai e mãe que passam por uma internação em UTI neonatal são comparados a soldados que participaram de uma guerra de tão traumática que é essa internação. E vão além das questões que a prematuridade provoca. Os impactos do nascimento de um bebê prematuro vão muito além do que as sequelas de saúde podem causar. Ela traz um trauma psicológico para as famílias”, afirmou.

O Novembro Roxo, mês da conscientização para os cuidados e prevenção da prematuridade, também alerta sobre o crescente número de partos prematuros, e como preveni-lo, além de informar sobre as consequências do nascimento antecipado para o bebê, para sua família e para a sociedade.

Hoje, no Brasil, 11,8% dos bebês nascidos vivos são prematuros. A prematuridade é a maior causa de morte infantil antes dos cinco anos. Poucos conhecem isso. A prematuridade causa 10 vezes mais de óbitos de crianças do que o câncer. Então, é muito representativo”, explicou Aline.

Método Canguru é importante para prematuros

Só no ano de 2021, mais de 150 altas de bebês de baixo peso e prematuros foram celebradas pelas equipes do Hospital e Maternidade Santa Lúcia, que faz parte da Rede Americas, no Rio de Janeiro. A unidade conta 80 leitos, entre eles o CTI adulto e o Cetrin, dedicado ao atendimento de recém-nascidos de alto risco ou prematuros que necessitam de cuidados especiais, 24 horas por dia.

Na semana marcada pelo Dia da Prematuridade (17 de novembro), a unidade chama atenção para estudos publicados na Biblioteca Cochrane (especializada em dados científicos) que ressaltam a importância do método canguru (Kanguru mother care no inglês) e o contato pele a pele para o desenvolvimento do bebê recém-nascido de baixo peso.

Nicole Gianini, coordenadora do Centro de Tratamento Intensivo Neonatal (Cetrin) do Santa Lúcia, fala um pouco mais sobre o tema. A especialista explica que, mesmo durante o auge da pandemia, houve uma organização estrutural para que os bebês ficassem o máximo de tempo junto de dos seus pais.

“Os dados científicos nos apontam que há todo um diferencial no processo de evolução clínica dos bebês, que recebem o contato do toque de seus pais. O não separar a família é uma estratégia que só traz benefícios, a exemplo de menores taxas de infecções, redução de ventilação mecânica, aumento da temperatura corporal e redução da dor”, observa a médica.

Com mais de 30 anos de experiência e defende a separação zero das mães e o total acesso dos pais, ela lembra que a campanha desse ano leva o tema ‘Separação Zero’ e visa garantir o resgate da proximidade entre bebês prematuros e a família, especialmente, no pós-pandemia, em que diversas maternidades reduziram as visitas.

Gianini reforça ainda que, dependendo da situação, é avaliada também uma outra visitação, que poderá ser de alguém da rede de apoio da criança, irmãos, entre outros. “O bebê, em muitas situações, já reconhece a voz dos seus familiares e, mesmo a mãe tendo o ingrediente que faz toda a diferença, que é o leite materno, a presença do pai fortalece ainda mais o vínculo familiar. Nenhum tratamento supera a presença das pessoas mais importantes na vida desses pequenos”, enfatiza.

De acordo com a especialista, trata-se de um modelo assistencial ao recém-nascido prematuro e a família, que permite o contato pele a pele o mais precoce possível. Nas fases iniciais, os pais tocam os filhos e, na sequência, as equipes de saúde orientam a posição canguru.

“É um processo gradativo e crescente. Os pais precisam ter estímulo para tocar no bebê e colocá-lo na posição Canguru, o quanto antes, pelo maior tempo possível”, observa.

Com Assessorias

 

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