Volta às aulas: o medo da cobrança excessiva dos pais

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Pode ser a primeira escola, pode ser uma troca de escola. São muitas as questões que a família tem de prestar atenção na volta às aulas. O medo do novo, o medo da mudança, o excesso de expectativa (geralmente da família) com o desempenho e futuro da criança… Tem criança iniciando nas primeiras séries do ensino fundamental com a família já preocupada com Enem.  A psicanalista Ana Sabrosa responde a uma lista das principais dúvidas e como lidar com elas para o Blog Vida & Ação. Ana é diretora do Departamento Científico da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ), com formação em psicanálise de crianças e adolescentes. Confira:

 1  – Como pais ou responsáveis por crianças e jovens  devem se posicionar em relação à vida escolar de seus filhos? 

Pais mesmo amando muito seus filhos, não raras vezes, se atrapalham com os mesmos em brigas recorrentes, exigências que transcendem o que seria possível para a criança, agendas lotadas de compromissos, como se fossem pequenos adultos, num corpo infantil. Da parte dos filhos, tudo é questionado, e a visão de seus pais, desvalorizada. O respeito e a possibilidade de uma conversa honesta, produtiva, sucumbe. Num mundo altamente competitivo e pelo desejo dos pais de que seus filhos realizem aquilo que muitas vezes eles próprios não realizaram, os pais tendem a não aceitar que suas crias – “Sua majestade o bebê”- como disse Shakeaspeare – não sejam “crianças prodígio”.

2 – Como ser presente, incentivar o aprendizado/aproveitamento sem ser excessivamente preocupado / cobrador. 

É preciso estar atento ao próprio valor da criança, suas habilidades, sua criatividade, suas áreas de interesse, e isto tenderá a trazer uma parentalidade que poderá mostrar que os deveres, as regras existem e paralelamente podem ser assunto de diálogo. Sendo assim, a cobrança dos pais fará parte da educação, mas há que se pensar sobre as distorções que podem acontecer diante da impossibilidade de se escutarem mutuamente – pais e filhos.

3 – Como lidar, reagir quando os filhos não são os melhores da turma?  A cobrança excessiva, a comparação com colegas com melhor desempenho pode ser prejudicial? O contrário também? 

Enaltecer cegamente o filho, ou depreciá-lo mediante uma dificuldade que ele não consiga superar, são extremos que podem causar uma deformação na percepção da criança e do mundo que o cerca, trazendo consequências para seu desenvolvimento emocional.

4 – A mudança de escola ou início da vida escolar pode ser motivo de sofrimento e angústia para algumas crianças, como os pais, professores podem ajudá-las nesse aspecto? 

Mudança é uma situação que assusta a maioria de todos nós. Somos marcados pelo “desamparo”. Desde o nascimento precisamos do outro o tempo todo para existirmos. Quando há a mudança de escola, seja em função de mudança de cidade, de bairro, por questões financeiras,  por questões de escolhas familiares, e outras, é importante que não se tenham expectativas rígidas e pouco realistas quanto às vivências emocionais da criança. Escutar a criança é sempre a melhor conduta. Ter uma verdadeira capacidade empática com os sentimentos relatados pela criança, assegurá-la de que as dificuldades na adaptação, que podem surgir, serão acolhidas e que a escola e a família estarão prontas a ajudá-la, levará à possibilidade de confiança em relação à escolha dos pais e isto trará naturalmente uma maior chance de uma boa adaptação escolar.

5 – Mas e quando isso não ocorre, o que pode acontecer com a criança?

O perigo está quando as crianças com poucos recursos emocionais, sem o apoio familiar, começam a elaborar disfarces para os seus sentimentos, refugiando-se numa existência de inadequação. Sem conseguirem verbalizar o que sentem, podem começar a apresentar sintomas psicossomáticos, como dores de cabeça, problemas intestinais, doenças dermatológicas, problemas de autoestima. Mas, sabemos que desde os primeiros anos de vida há a construção da identidade psíquica e é desde então que vamos nos constituindo enquanto sujeitos.

6- No caso de crianças, como prepará-las para compreender situações de abuso sexual – e reagir?  

Primeiramente vou falar sobre o risco que cerca as crianças quando estas são expostas à sexualidade dos adultos. Isto é um assunto muito sério e merece muita atenção. A exposição à sexualidade precoce pode variar de uma manipulação excessiva do corpo da criança, à nudez que às vezes é tida como natural, e às próprias relações sexuais dos adultos. Pode acabar provocando uma erotização precoce, um sentimento de humilhação, pois é um estímulo que está “fora do lugar”. As crianças podem começar a ficar extremamente ansiosas, agressivas e até mesmo enfermas com esta exacerbação de estímulos.

O abuso direcionado à criança , como nos relatou o psicanalista Joshua Durban, em passagem pelo Rio de Janeiro em 2016, pode ser físico (espancamentos, queimaduras, etc), sexual (tocar nas partes íntimas, estupro, incesto), ou emocional (depreciar o menor, xingar). Todas as formas de abuso e negligências ao menor trazem consequências desastrosas não só para o que sofre o abuso, mas para toda uma sociedade. Representam um ataque contra a própria infância, como fonte de esperança, contra o próprio tecido da sociedade.

7- É possível, alguma abordagem nesse sentido? 

É importante sempre alertar a criança sobre a intimidade de seu corpo, incentivar um diálogo, onde exista a confiança nos pais ou nos cuidadores substitutos. O que acontece é que, em muitos casos relatados, há alguém próximo da família que é o próprio agente do abuso e nestes casos, a confiança, a crença na continuidade, na segurança são substituídas por violência, sofrimento, dor e desespero. A criança passa a não acreditar em limites, na lei, na continência, na possibilidade de estabelecer vínculos.

Em caso de estranhos, é importante que os pais possam orientar com quem a criança pode ficar, monitorar as idas e vindas das atividades de rotina diária, estar atento para as companhias de seus filhos, horários, ser um participante ativo da vida do dia a dia das crianças. Alertar as crianças que existem situações de risco e que dizer aos pais aonde vão, quando começam a andar sozinhas, não significa falta de liberdade, mas zelo e amor, é um bom começo.

– Em que situações é necessário procurar auxílio de um psicoterapeuta? 

De modo geral, quando é identificado algum sofrimento dos filhos, ou mesmo uma apatia, ou ainda algum sintoma que chame a atenção,  é importante que a família possa acolher esta criança ou este adolescente e oferecer apoio, escutando e tentando  conversar. Muitas vezes é necessária a  ajuda de um profissional e buscar o tratamento psicanalítico ou psicoterápico, poderá ajudar a criança, ou o adolescente que sofre  a reencontrar  um continente psíquico seguro e restabelecer o senso de confiança em si mesmo e no outro.

Mesmo quando acriança, aparentemente, não demonstrar um sintoma explícito, é crucial que ela seja ouvida. A análise irá instituir um espaço intrapessoal e interpessoal, onde o paciente poderá falar sobre o que aconteceu através de sua linguagem própria e sua singularidade será acolhida, suas memórias traumáticas ganham uma chance de recuperação, na possibilidade de encontro com o psicanalista.

Colaboração de Valéria Veríssimo

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