À espera da vacina: estamos preparados para encarar uma ‘segunda onda’?

27ª live do projeto #PapodePandemia traz infectologista e imunologista para discutir os desafios no enfrentamento da Covid-19

Redação

Em 24 horas, foram mais 698 mortes pela Covid-19 no Brasil, somando 171.497 desde o começo da pandemia (até quinta-feira à noite, dia 26/11). Foram registrados 37.672 novos casos, totalizando mais de 6,4 milhões de pessoas infectadas. Quando falamos em pandemia do novo coronavírus, quais são as principais perguntas que os imunologistas e os infectologistas têm que responder com mais frequência? Imunidade, reinfecção, sintomas, tratamentos? Há muitos mitos e inverdades também sobre as vacinas que estão sendo produzidas.

Para responder essas e outras questões a 27ª live do projeto #PapodePandemia, do Portal ViDA & Ação, realizada nesta sexta-feira (27/11), convidou duas das maiores autoridades do país no tema Covid-19: Edimilson Migowski, médico infectologista e professor de Doenças Infecciosas da UFRJ, e Lúcia Abel Awad, imunologista, biomédica, professora da Unisa e pesquisadora da USP e Unifesp.

Não estamos vivendo uma segunda onda. Na verdade, nunca saímos da primeira onda. Estamos observado é um número expressivo de casos e mortes, mas em decorrência do afrouxamento ou falta de cumprimento das normas de higienização, de uso de máscaras, de distanciamento social”, afirmou dra Lúcia, que foi infectada recentemente pela filha.

Segundo ela, só se poderia chamar de segunda onda se houvesse uma queda importante de número de casos e mortes, o que não chegou a ocorrer no Brasil. “O que a gente vê agora é o recrudescimento dessa onda, de maneira mais expressiva, em decorrência desse comportamento de não cumprimento, que está culminando nesse aumento de casos nos últimos dias”, ressalta a especialista.

Edimilson Migowski constata, em sua prática clínica, que o número de casos está realmente aumentando, devido à grande procura que vem tendo por parte de amigos e médicos nas últimas semanas, mas tem dúvidas se o que ocorreu na Europa pode se repetir aqui no Brasil.

Eu tenho muitos amigos que adoecem. Nunca tive tantos pacientes em acompanhamento, de amigos, médicos, como tive agora, não. Não sei se pode se definir como segunda onda ou não, já que não houve uma queda abrupta. Não sei se no Brasil vamos ter o mesmo comportamento da Europa, muda clima, muda a população, e o vírus é muito novo. Até acho que estamos vivendo uma segunda onda, mas isso é um detalhe”, afirma o infectologista.

Para ele, três coisas são necessárias para enfrentar a doença: distanciamento social e medidas de higiene; diagnóstico precoce e tratamento precoce. “A doença é simples, desde que tratada precocemente”, ressalta, ao garantir bons resultados em uma conduta clínica na cidade de Volta Redonda (RJ) com o uso de um vermífugo em pacientes com sinais e sintomas da doença (veja mais aqui). “Eu não assinei atestado de óbito nenhum. Eu devo ser um sortudo”, afirma.

Os especialistas convidados divergem em relação às medidas de distanciamento social. Enquanto Dra Lúcia é favorável a um novo lockdown, Dr Migowski cita o caso de Volta Redonda, que flexibilizou o distanciamento social, mas o número de casos e internações caiu por conta justamente do diagnóstico e tratamento precoces.

O que preocupa não é o aumento do número de casos em si, mas o esgotamento das vagas nos hospitais, o colapso no sistema de saúde. Se flexibilizar, sem nenhuma medida de contingenciamento, aí vai ter problema”, disse, ao defender a expansão da conduta clínica adotada no município por parte de estados e municípios. No início fui a favor do lockdown, mas hoje sou favorável à abertura, mas se governos estaduais e municipais não produzirem nenhuma terapêutica precoce, aí vai ser um colapso sim”, afirma.

Herança’ de filhos para os pais

Para Dra Lúcia, o que está acontecendo na Europa e que está se repetindo aqui é fruto do comportamento dos jovens, que estão desrespeitando as normas, acarretando um número maior de casos e óbitos. Ela contou que foi contaminada pela Covid-19 justamente dentro de casa, pela filha, jovem, que resolveu sair sem seguir à risca as recomendações sanitárias, aproveitando a flexibilização.

Minha filha é jovem, tem amigas e amigos, final de semana ela quer sair, não vou prendê-la em casa. Oriento, falo para usar máscara, manter distanciamento, evitar locais de aglomeração, mas não tenho controle da situação. Ela pegou Covid, chegou a ficar gripada, teve febre, mas foi bem leve. Fiquei com medo, até porque não sou muito novinha assim, mas não tenho doença de base nem sou grupo de risco. Eu acabei pegando dela, por conta , que é completamente legítimo. Como trancar os jovens em casa? Mas a gente observa que eles acham que não vai acontecer com eles. A gente vê jovens participando de bailes funk, praias lotadas, todo mundo nos barzinhos, sem máscara, sem distanciamento. Como controlar”, comenta.

“Mas o que faremos agora nessa fase? A gente volta ao isolamento social do início? Muito difícil segurar pessoas em casa. As pessoas se programaram para ficar no máximo 40 dias em confinamento”, questiona a jornalista Rosayne Macedo, editora do Portal ViDA & Ação. “É um desafio para todos nós, ficar mais em casa, evitar aglomerações, mas a única arma é o distanciamento social, é cumprir as medidas de higienização. No início todo mundo tinha respeito por esse vírus. Portanto, evitem aglomerações e se tiverem que sair, prefiram locais arejados”, recomendou a médica.

Alerta para reconhecer sintomas e sinais e tratar precocemente

Responsável por um convênio entre a Prefeitura de Volta Redonda e a UFRJ para uso da medicação nitazoximida (Anitta, no nome comercial) em pacientes com sintomas iniciais (até 72 horas), Dr Migowski aborda a estratégia de enfrentamento da Covid-19 sob três pilares. O primeiro pilar é o distanciamento social, uso de álcool 70, máscara, que, segundo ele, “não está se mostrando tão eficiente na contingenciamento da disseminação do vírus”. O segundo pilar é “instrumentalizar” a população, fornecendo mais informações sobre sinais e sintomas da Covid-19.

A própria leitura da temperatura na porta do shopping induz a população em geral a pensar em Covid só quando tiver febre, o que ocorre só em percentual pequeno dos casos, ou quando perde o olfato e o paladar, um sintoma não tão corriqueiro. É muito mais comum o que os antigos chamavam de febre interna, aquela sensação de febre sem ter aumento da temperatura”, afirma.

Segundo ele, a pessoa deve ficar alerta para uma gama enorme de manifestações clínicas e suspeitar de Covid-19, como dor nas costas, dor toráxica, dor abdominal, diarreia, vômito, dor de garganta, conjuntivite e alterações da pele, como urticária e sangue pisado. “Iniciados os sintomas, a pessoa reforça as medidas do primeiro pilar, mantendo o distanciamento mais ainda, não vai trabalhar, fica em casa para não disseminar”, orienta.

Tratamento precoce é fundamental, diz infectologista

Já o terceiro pilar – e ele alerta que não é consenso (entre os médicos) – , é o tratamento precoce, que ele recomenda com base na sua vivência clínica e experiência na saúde pública. “Em Volta Redonda, fizemos tudo isso: orientamos para as medidas a usar álcool 70, máscara e tudo mais, e a identificar os sinais e sintomas e a buscar o tratamento precoce. E o que aconteceu? O número de notificações (de casos suspeitos) aumentou em 70% porque as pessoas não ficavam em casa e iam mas ao contrário do que podia imaginar, reduziu em 70% os casos e internações por Covid-19”.

Segundo ele, hoje, segundo informações da prefeitura, a taxa de internação em enfermaria e CTI por Covid-19 é em torno de 5%. “O medo do prefeito de lá agora são os municípios do entorno que não cumprem as medidas de distanciamento e tratamento precoce. Até dia 23 de outubro, foram 469 pessoas, maioria com doenças de base, tratadas até o terceiro dia com sinais e sintomas, e tem zero internação e zero óbito”, afirma.

Dra Lúcia também é favorável ao tratamento precoce como alternativa para salvar vidas. “Sou super favorável ao tratamento precoce. É a solução enquanto não sai a vacina”, ressaltou. Ela mesma adotou uma conduta clínica, recomendada por um infectologista de São Paulo, que ainda não é comprovada por estudos clínicos: o uso de um medicamento até então prescrito para tratar pediculoses, como piolhos.

Tomei Ivermectina nos dois primeiros dias, quando comecei a sentir sintomas de gripe, dor no corpo e mal estar. Fiz uma série de exames e não tive nada. Tomei zinco, vitamina D – estudos mostram que é importante para restabelecimento. A Covid começa mesmo como uma gripezinha e você acha que é só um resfriadinho. Mas é importante ficar atento e medicar precocemente”, afirma ela. Ela ressaltando, no entanto, que não recomenda, nem receita a medicação, o que só pode ser feito pelo médico a ser consultado.

“A Covid é igual psicopata: chega de mansinho e lá pro quinto ou sexto dia mostra suas garras. Por isso, a medicação precoce faz toda a diferença! Eu não botei ninguém no tubo, nem assinei atestado de óbito nenhum”, ressalta o médico. E adverte: “Vamos conviver com a Covid-19 durante muitos meses ou muitos anos. A vacina é um grande alento, mas até que isso ocorra, tem que trabalhar nesses três pilares”, destaca.

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