A hora da despedida: o que mudou na hora de dizer adeus

Velórios online permitem despedida final sem precisar sair de casa

O jardim bonito nem parece ser o cenário para o fim da vida. E em muitos casos, ela tem chegado cedo demais. Com o aumento no número de mortes por Covid-19, cemitérios e crematórios enfrentam uma rotina de intensa movimentação. Ali, no complexo do Caju, onde estão quatro cemitérios e três crematórios, o número de pessoas que acompanham os velórios é bem menor, exigência dos novos tempos. Mas o trabalho tem sido grande para quem trabalha no local.

“Estamos com enterros e cremações o dia todo, todos os dias. Só não abrimos à noite”, diz o vigilante na entrada do Cemitério e Crematório da Penitência. O velório, ao ar livre, sob uma tenda, não pode ter mais de 10 pessoas. Uma pia com sabonete líquido e álcool gel é instalada ao lado.

Antes de ser liberado para o velório, o corpo passa por vários locais (hospital, necrotério, funerária) que embora possam seguir normas exigentes de higiene, estão suscetíveis a contaminações. No caixão, o cadáver ainda pode ser contaminado pelo contato direto de mãos, lágrimas e secreção nasal das pessoas e até de flores.

Em Queimados, na Baixada Fluminense, o Jardim Envida Rio quadruplicou a quantidade de sepulturas nos primeiros meses do ano. O cemitério tinha 60 sepulturas livres antes da pandemia. A previsão é que, até o fim do mês, mais 235 fiquem prontas, além de 69 jazigos, cada um com capacidade para três corpos.

A Baixada só tem dois cemitérios privados. E os públicos podem não ser suficientes. A Associação Brasileira do Setor Funerário nos alertou, em fevereiro, que poderá haver dificuldade de se obter vagas por conta do coronavírus. Tomara que não seja preciso, mas estamos preparados”, disse o empresário Adriano Castilho.

Em tempos de pandemia, o grupo empresarial acompanha a tendência dos velórios online para permitir que as famílias possam se despedir dos seus entes queridos sem precisar sair de casa, seguindo as recomendações do Ministério da Saúde.

 

PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EMPRESAS E DIRETORES DO SETOR FUNERÁRIO ALERTA PARA COLAPSO EM MANAUS. ADMITE QUE PODE FALTAR URNA EM BREVE, FALA SOBRE PLANO DE CONTINGÊNCIA COM ESTOQUE DE 10 MIL CAIXÕES NO BRASIL E COBRA AJUDA DO GOVERNO PARA O SEGMENTO, ENTRE ELAS A DISPONIBILIZAÇÃO DE UM AVIÃO DE CARGAS PARA AGILIZAR O TRANSPORTE DE URNAS ENTRE OS ESTADOS EM CASOS DE EXTREMA NECESSIDADE.

Sensibilidade

Todos os protocolos, planos de gerenciamento e contingências, elaborados tanto pelo poder público como pelas entidades funerárias, são oportunos, necessários e corretos no seu propósito, contudo, todos eles partem de um princípio, que é uma situação emergencial calculada com bases que não são precisas nem totalmente conhecidas, de um cenário que ainda não estamos vivendo em todo território nacional, salvo em algumas localidades onde houve uma grande dessiminação do covid-19. Mas, mesmo assim, estamos aplicando quase que na plenitude, antecipadamente, praticamente todas as normas, mudanças e sanções estudadas. Como teste ótimo, mas temos que rever esta situação, uma vez que, estamos infringindo a universo enorme de famílias uma dor desnecessária. É preciso que todas famílias, indistintamente, tenham direito de finalizar o luto com uma cerimônia funerária digna.

Não existe hoje nenhuma razão consistente que justifique o sepultamento direto das vítimas de covid-19 ou dos suspeitos dela, nem do ponto de vista de saúde pública, nem do ponto de vista técnico operacional do setor funerário, aliás, o sepultamento direto causa um estrangulamento nos cemitérios, o ideal é que os corpos sejam levados para eles de forma ordenada e sequencial, de tal maneira que possibilite os sepultamentos sem os tumultos e aglomerações que os coletivamente tem causado.

Naquilo que cabe a saúde pública, que tem que ser prioridade, pode-se afirmar que não existe a menor possibilidade de um corpo, desde que observado protocolos no seu manuseio, bem como, o acondicionado do mesmo, em dois invólucros e depois em uma urna (todos selados e lacrados), de contaminarem quem quer que seja, durante todo trajeto que fizer ou durante uma cerimônia funerária.

Agora, incalculáveis são os danos psicológicos, que serão causados a milhares de pessoas que estão sendo impedidas de viverem e de finalizarem o luto. Estas tem levado seus familiares ao hospital, lá eles são colocados em isolamento, muitas vezes impedidos de receberem visitas, falecem, são removidos diretamente ao cemitério, sem direito a um mínimo de dignidade. Mesmo para aqueles que falecem, os rituais funerários são essenciais, é por meio deles que seus espiritos começam a ter consciência de sua nova condição. Já para as famílias, a situação que estão lhes sendo impostas é desumana, o sentimento que devem sentir é o equivalente ao de se levar um filho na escola e não voltar buscar nunca mais, ou ao de perder um ente querido em um naufrágio e ficar na praia esperando o corpo aparecer, por toda vida. É um vazio inexplicável.

A ABREDIF solicita que as autoridades revisem as aplicações de normas impostas ao setor funerário, de tal forma que as mesmas sejam aplicadas no tempo certo, conforme uma necessidade real. Que antes de tomarem novas medidas, que consultem o setor, conheçam nossa matriz, as opções, somos o BRASIL, não devemos nem podemos ficar copiando ações de países com culturas absolutamente diferentes das nossas. Respeitar a vida é dever de todos nós, não podemos perder a sensibilidade em nome de uma sobrevivência ameaçada, porque viver sem sentimentos, sem poder demonstrar o amor, não é viver.

Lourival Panhozzi
Diretor Funerário
Pres.ABREDIF/SEFESP

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