A incrível história do homem que vive com três rins

Alcoolismo após bariátrica levou comerciante de Goiânia a quadro grave de cirrose e ao primeiro transplante duplo de fígado e rim do DF

Entre a vida e a morte. Foi assim que o comerciante de Goiânia Fernando Regis Alves Cavaleiro, de 48 anos, se viu em março de 2020, ao descobrir que perdera a função dos dois rins, após ser diagnosticado com um quadro grave de cirrose, causado pela dependência do álcool adquirida depois de uma cirurgia bariátrica. Nos primeiros dias de 2021, Fernando ganhou nova vida e fez história na capital do Brasil ao receber, na mesma cirurgia, dois órgãos: um rim e um fígado. Agora, ele vive com três rins.

O diagnóstico veio das mãos de um dos médicos que salvou sua vida. O cirurgião do aparelho digestivo André Watanabe, coordenador do programa de transplante de fígado do Hospital Brasília, disse que seria um tratamento complicado, mas possível. Fernando não desanimou e quis lutar pela vida. “Eu disse para ele que não podia desistir, eu queria viver”, conta Fernando, primeiro paciente de transplante duplo na instituição. Ele recebeu os órgãos de uma mulher de 31 anos, falecida no Mato Grosso.

“Fernando perdeu a função dos dois rins. Porém, para o transplante só é necessário um rim e é o suficiente para a vida dele. No caso do fígado, o Watanabe tirou o fígado doente e colocou outro no lugar. No rim não é necessário tirá-los, apenas implantar o novo em outro lugar próximo. A pessoa continua com os rins antigos mesmo não funcionando”, revela Dr Watanabe.

O nefrologista do Hospital Brasília Pedro Mendes Filho destaca que agora Fernando precisa continuar com acompanhamento com as duas especialidades, tomar remédios imunossupressores para evitar a rejeição dos órgãos e manter hábitos saudáveis: evitar bebidas alcoólicas, se alimentar bem, evitando dieta muito rica em sal.

Transplante duplo de rim e fígado é raridade

De acordo com a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), o transplante duplo, de rim e fígado, não é algo comum. Dados mais recentes da organização mostram que em 2019 só haviam sido feitos 16 transplantes duplos de rim e fígado no Brasil e nenhum deles em Brasília. Já no Hospital Brasília, o transplante de Fernando foi o primeiro da instituição, e o primeiro do ano na capital federal.

De acordo com Pedro Mendes, para que que o transplante duplo seja apontado como terapêutica é necessária uma combinação de doenças crônicas. “Ele tinha duas doenças ao mesmo tempo: era portador de cirrose que prejudicou o rim. Passados os 90 dias de hemodiálise, o paciente se tornou um renal crônico, sem rim e sem fígados funcionando”, esclarece.

No transplante duplo, as duas operações ocorrem no mesmo ato cirúrgico, porém de maneira sequencial como explica o especialista em fígado André Watanabe. De acordo com o médico, primeiro é colocado o fígado, pois o tempo de vida dele fora do organismo é menor. Logo depois troca-se a equipe e o rim é instalado.

“Esta é uma cirurgia que pode ser realizada em diferentes idades, mas depende da condição do paciente. Não é um procedimento incomum, mas acontece com baixa frequência. Por exemplo, em mais de 600 casos a gente fez no máximo 10, ou seja, foram menos de 2%. É uma cirurgia extensa, com mais de 10h, é complexa e mostra como o Hospital Brasília está habilitado”, destaca Watanabe.

Paciente descobriu cirrose no dia do aniversário

O comerciante goiano teve um mal estar no dia de seu aniversário, em 8 de março de 2020, quando foi ao hospital e descobriu que o fígado estava comprometido por uma cirrose.

“Fiz uma redução de estômago em 2015. É muito fácil uma pessoa que passa pela cirurgia bariátrica abusar do álcool. Quando cheguei ao hospital, foi questão de tempo até me dizerem que, além do fígado, os rins não funcionavam mais. Passei o natal e o ano novo numa angústia. Eu era o primeiro da fila, mas sentia muita angústia pois só passava muito mal.

Foi quando, em 9 de janeiro, minha esposa foi trabalhar, eu fiquei em casa e o telefone tocou. Era a enfermeira do Hospital Brasília me dizendo que os órgãos estavam disponíveis e que eu tinha que ir para Brasília imediatamente. Nem pude beber água, pois ia fazer o transplante no mesmo dia. Cheguei em Brasília e meia noite do mesmo dia eu estava no centro cirúrgico”, conta.

Fernando conta que a cirurgia foi um sucesso. Ficou poucos dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e logo foi para o quarto, onde já se exercitava com auxílio de fisioterapeuta, e podia caminhar pelo jardim do hospital. Após pouco mais de um mês, o comerciante goiano recebeu alta. “Graças a Deus deu tudo certo e eu só tenho a agradecer a esse hospital e a equipe daqui, pois salvaram minha vida”, finaliza.

 

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