A linha tênue entre o diabetes e as doenças cardiovasculares

Diabetes é um dos principais fatores de risco para infarto, AVC e entupimentos das artérias, especialmente das pernas e pés, além de formação de aneurisma

Redação

O desejo de uma vida longa é sinônimo de cuidados com a saúde, alimentação, corpo e alma. Esta é a receita saudável para evitar tendências à diabetes, uma doença sem cura que tem crescido consideravelmente nos últimos anos. Na maioria das vezes, a diabetes ocorre por conta do aumento do açúcar no corpo, causada pela produção insuficiente ou má absorção de insulina, o hormônio que regula a glicose no sangue e garante energia para o organismo.

Este mal podse tornar uma enfermidade mais séria e causar grandes problemas se não forem tratadas corretamente, como por exemplo infecções na pele, ossos e órgãos O presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), José Francisco Kerr Saraiva, explica que o diabetes pode evoluir para níveis bastante graves, causando cegueira, impotência sexual, mau funcionamento de órgãos vitais e crescente dificuldade de cicatrização de feridas e lesões, levando até mesmo à amputação de membros e à morte.

Além disso, é um dos principais fatores de risco para as doenças cardiovasculares, que estão entre as causas mais frequentes de morte no Brasil, por conta da ligação com o sistema circulatório, tendo como protagonistas as veias e artérias, que podem aumentar devido aos níveis de açúcar no sangue. Calcula-se que uma em cada duas mortes entre pessoas com diabetes no mundo seja atribuída a problemas como o infarto, acidentes vasculares cerebrais (AVC) e entupimentos das artérias, especialmente das pernas e pés, além de formação de aneurisma, que é a dilatação de um vaso sanguíneo.

É importante nos cuidarmos, pois esta doença não tem cura e desencadeia problemas vasculares, como a trombose,  obstrução das artérias, aneurisma da aorta, entupimento das veias, hipertensão, entre outras complicações”, explica Robert Guimaraes, especialista em cirurgia vascular, endovascular e angiorradiologia.

Segundo ele, isso acontece porque o descontrole dos níveis de açúcar no sangue, junto da incapacidade de produzir e usar insulina, gera um estado de inflamação e aumento da pressão dos vasos sanguíneos. “Esse quadro favorece o surgimento de gorduras, aumento do colesterol ruim e outras substâncias nas paredes das artérias, restringindo o fluxo sanguíneo”, completa Saraiva, que é professor titular da Faculdade de Medicina da PUC — Campinas e doutor pela Universidade de São Paulo.

Além de o paciente diabético ter mais risco de contrair doenças do coração, é necessário cuidado redobrado mesmo após o tratamento. Isso porque sempre haverá tendência de obstruções das artérias. É importante não procurar por ajuda apenas em momentos mais sérios de saúde, mas principalmente, para prevenção de patologias. Se as doenças não forem evitadas poderão trazer consequências muito mais sérias à saúde”, orienta o cardiologista e clínico geral do HCor, Abrão Cury.

Maioria é de mulheres

A literatura demonstra que o risco de um diabético sofrer um infarto chega a 40% a mais nos homens e 50% a mais nas mulheres. Quando a doença se instala, potencializa outras condições de risco, como a pressão alta e o colesterol elevado. “O diabetes é uma espécie de combustível perverso, difícil de ser removido e pronto para causar muitos problemas”, aponta o cardiologista do HCor.

Segundo ele, cerca de 30% dos diabéticos terão alguma doença cardiovascular, principalmente aquelas classificadas com o tipo 2. E por que elas são mais vulneráveis? “Além do próprio diabetes, há fatores de risco associados a esse paciente como obesidade, pressão alta, tabagismo, altos níveis de colesterol ou mesmo pré-disposição genética”, explica o médico.

O problema cardiovascular também está presente e se comporta dessa maneira em diabéticos do tipo 1, mas nesse grupo é comum o médico procurar por complicações de retina ou dos rins. “Assim, é importante que haja uma avaliação minuciosa e completa desse paciente, um verdadeiro atendimento multidisciplinar”, lembra Cury.

“A inflamação é um dos requisitos básicos para o surgimento das já citadas placas por trás do entupimento das artérias. Além disso, a resistência à insulina típica do diabete tipo 2 (quando o hormônio não consegue fazer a glicose ser aproveitada pelas células) atrapalha a dilatação dos vasos, além de estimular um aumento da pressão. Por isso, o diabetes é uma doença capaz de danificar as artérias do coração”, explica.

Complicações podem levar a amputação de membros

O cirurgião vascular Caio Focassio, membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular, explica que no caso do sistema circulatório, a diabetes provoca a aceleração do processo arteriosclerótico das artérias, levando a isquemia dos tecidos irrigados pelas mesmas, podendo gerar amputação de membros e outras complicações graves.

Envolvidas pela doença, as artérias coronárias podem causar isquemia do miocárdio que podem levar ao infarto cardíaco e as artérias renais, insuficiência renal grave e até mesmo a parada de funcionamento renal e também as artéria dos membros – principalmente os inferiores – levando a quadro de isquemia de pé e pernas, causando até gangrena e amputação”, alerta o médico.

Isso acontece porque a diabetes também lesa as pequenas artérias – é o que leva ao chamado pé diabético que é originado pela isquemia da microcirculação local afetada. Dr Caio conta que devido a essa lesão há uma perda de sensibilidade local e assim, o paciente começa a pressionar excessivamente a planta do pé ao andar – o que ocasiona ferimento de grave para ser tratado já que todos os tecidos estão comprometidos por essa isquemia.

“Uma isquemia pode evoluir até a artéria de grande calibre ocasionando grandes lesões – é o que chamamos de gangrena – responsável por grandes e mais complicadas amputações”, avisa o especialista.  Por isso que o controle da diabetes é essencial para que a doença não evolua a ponto de amputações e de complicações que podem ainda acometer o coração, olhos e rins.

Alguns sinais podem ajudar a manter o controle em mãos. “São eles: atenção para as possíveis dores ao caminhar, pés frios, feridas que não cicatrizam facilmente e até formigamento e fraqueza nos membros inferiores”, finaliza o cirurgião vascular.

Obesidade e diabetes tipo 2

Um estilo de vida saudável dificulta o aparecimento dos males que podem acometer as funções cardiovasculares. Segundo a endocrinologista do HCor, Laura Frontana, o diabetes tipo II oferece mais chances para o aparecimento de doenças cardiovasculares , por conta do processo inflamatório arterial causado pelos índices elevados de glicose no sangue. Portanto , além de uma alimentação balanceada e de atividade física regular, o acompanhamento médico adequado também é muito importante.

A relação entre obesidade e diabetes tipo II, de acordo com ela , ocorre com o acúmulo de gordura, principalmente, na região abdominal do corpo. “Combater a obesidade ainda é o melhor método preventivo para o diabetes. Manter um controle nutricional adequado e praticar exercícios físicos regularmente são capazes de reduzir em até 60% o risco de desenvolver a doença”, orienta.

De acordo com a endocrinologista do HCor, o diabetes é sabidamente uma doença crônica, mas com informação e algumas mudanças de hábitos, é possível controlá-la e ter mais qualidade de vida. Para isso, é importante adotar uma dieta equilibrada, rica em fibras, frutas frescas e proteínas, com diminuição de carboidratos e de gorduras.

“O controle do peso protege o pâncreas e, assim , não esgota precocemente a sua capacidade de produção de insulina. Embora o diabetes tipo I seja menos frequente e ocorra na infância ou na adolescência, a enfermidade está associada a um problema imunológico com perda da capacidade de produzir insulina pelo organismo. Este tipo de diabetes está menos associado a obesidade, porém quando os níveis glicêmicos não estão adequadamente controlados, ele também oferece riscos para o coração. O portador dessa categoria da doença precisa de insulina diariamente par a controlar a glicose no sangue”, esclarece.

Com Assessorias

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