Dia do Trabalho: entre a necessidade de sobreviver e o medo de morrer

Alheio a mais de 6 mil mortes por Covid-19 e 91 mil casos já confirmados, Bolsonaro volta a defender fim do isolamento

Enfermeiras com máscaras de proteção seguram cruzes durante protesto simbólico e homenagem aos trabalhadores da saúde no Dia do Trabalho, em Brasília (Foto: Ueslei Marcelino/Reuters)

No Dia do Trabalho, os trabalhadores brasileiros não têm motivos para comemorar. Com previsão de bater a maior taxa de desemprego dos últimos tempos, o país se divide entre trabalhar ou garantir a própria vida, em meio à pandemia do novo coronavírus, que já atingiu 91.598 pessoas e matou outras 6.329 pela Covid-19, doença respiratória causada pelo Sars-Cov2. Enquanto isso, trabalhadores de serviços essenciais reclamam da falta de equipamentos de proteção individual (EPIs), principalmente na Saúde.

Apesar do crescimento acelerado da epidemia no Brasil, das projeções de chegar a 10 mil mortes no domingo e da falta crônica de leitos hospitalares com equipamentos e equipes médicas em várias regiões do país, o presidente da República, Jair Bolsonaro, voltou a defender o fim do isolamento social. No Dia do Trabalhador, comemorado nesta sexta-feira (1), disse que gostaria que todas as pessoas voltassem a trabalhar, mas ressaltou que a decisão não depende dele e sim de governadores e prefeitos.

Eu tenho certeza que, Deus acima de tudo, brevemente voltaremos à normalidade. Eu gostaria que todos voltassem a trabalhar, mas quem decide isso não sou eu. São os governadores e prefeitos”, afirmou a cerca de 20 agricultores, que estiveram com o presidente pela manhã no Palácio da Alvorada.

Na véspera, Bolsonaro lamentou que “grande parte da população” esteja proibida de trabalhar, por causa do isolamento social e do fechamento do comércio em função da pandemia da Covid-19. Ele voltou criticar a adoção dessas medidas e avaliou que elas não fizeram efeito na contenção da curva de contaminação.

Eu já disse, 70% da população vai ser infectada [pelo novo coronavírus]. Pelo que parece, pelo que estamos vendo agora, todo o empenho para achatar a curva praticamente foi inútil. Agora, efeito colateral disso: desemprego. O povo quer voltar a trabalhar. Todo mundo sabe que, quanto mais jovem, menos problemas tem de ter uma consequência danosa em sendo infectado pelo vírus”, afirmou Bolsonaro durante sua live semanal, transmitida pelo Facebook.

Profissionais de saúde fazem protesto em Brasília

Enquanto apoiadores de Bolsonaro tomavam algumas ruas de Curitiba com bandeiras do Brasil para defender o fim do isolamento, em Brasília enfermeiras com máscaras de proteção participaram de um  protesto simbólico em homenagem aos profissionais da saúde, em defesa do Sistema Único de Saúde (SUS) e pela manutenção do isolamento social. Usando jaleco e máscaras, os profissionais de saúde seguravam cruzes em referência aos mortos por coronavírus no país.

Estamos morrendo na luta contra a Covid-19. Estamos deixando de ser força de trabalho para virarmos pacientes do sistema de saúde. A gente precisa de mais do que palmas, precisamos de valorização, de respeito e isso passa pela manutenção do isolamento social”, disse a enfermeira Marcela Vilarim ao Portal G1.  Segundo o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), o país conta com 860 mil profissionais da saúde atuando em hospitais, clínicas, unidades básicas, fora o número de médicos.

Isolamento  é desrespeitado no feriado do trabalhador

Medidas de isolamento social, como fechamento de comércio não essencial, suspensão de aulas presenciais e aglomerações, estão entre as principais ações defendidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e adotadas por autoridades sanitárias de vários países, como forma de conter o avanço da covid-19. Mas no Brasil, o presidente da República desdenha da crise e estimula que as pessoas vão para as ruas, mesmo contrariando as recomendações do seu próprio Ministério da Saúde.

O alarmante crescimento do número de casos e mortes pelo novo coronavírus na cidade do Rio de Janeiro não parece assustar uma parcela de cariocas que aproveitou o ensolarado feriado do Dia do Trabalho para curtir praias e calçadões nas zonas Oeste e Sul. Em mais um dia de descanso, medidas como o isolamento social, estendido até 15 de maio na capital, a recomendação para evitar aglomerações e o uso de máscaras, obrigatório no município, são desrespeitadas.

No feriado do Dia do Trabalhador, a cidade de São Paulo atingiu isolamento de 55%. No entanto, desde quarta-feira (27), a taxa de isolamento não tinha passado dos 48%. O maior nível de isolamento na cidade foi 59% e ocorreu em apenas dois dias desde o início da pandemia: 29 de março e 5 de abril. Diante disso, a prefeitura anunciou que fará bloqueios de trânsito em avenidas da capital a partir da próxima segunda-feira (4).

A restrição ao fluxo de veículos tem o objetivo de colaborar para a ampliação da taxa de isolamento social na cidade, que está abaixo de 50%, de acordo com a prefeitura. A taxa ideal para combater a propagação do novo coronavírus, de acordo com as autoridades de saúde, é de 60% a 70%. Segundo a prefeitura, caso a adesão da população ao isolamento não aumente a partir de segunda-feira, os bloqueios em vias da cidade poderão ser planejados e realizados durante todo o dia, como tentativa de aumentar a restrição e desestimular as pessoas a saírem de casa.

Aumento de 7% no número de mortes em um dia

No Maranhão, a capital São Luiz e mais três cidades foram obrigadas pela Justiça a adotar o ‘lockdown’ (bloqueio total) para conter o avanço da doença, diante de 100% da ocupação dos leitos. À beira de  um colapso no sistema de saúde, estados como Rio e São Paulo também estudam a adoção da medida mais radical.

Ministério da Saúde divulgou nesta sexta-feira (1) que o número de mortes aumentou em 428 em 24 horas, um aumento de 7% em relação à quinta-feira (30), quando foram contabilizados 5.901 falecimentos. Só os casos confirmados por Covid-19 aumentaram em 6.209 em relação ao registrado na véspera, um aumento de 7% em relação ao total de notificações no dia 30, quando 85.380 pessoas testaram positivo para o vírus.

Em São Paulo, epicentro da pandemia no país, são 30.374 casos e 2.511 mortes. Segundo no ranking, o Rio de Janeiro tem  10.166 casos e 921 óbitos.  Com 7.334 casos, Pernambuco aparece em terceiro no número de óbitos, com 603. O Ceará tem 7.879 casos e 505 mortes e o Amazonas registra 5.723 caos e 476 óbitos.

Também foram registradas mortes no Pará (235), Maranhão (204), Bahia (117), Espírito Santo (96), Paraná (89), Minas Gerais (88), Paraíba (67), Rio Grande do Sul (58), Rio Grande do Sul (56), Alagoas (53), Santa Catarina (48), Amapá (37), Distrito Federal (30), Goiás (29), Piauí (24), Acre (19), Rondônia (18), Sergipe (14), Mato Grosso (11), Mato Grosso do Sul (9), Roraima (8) e Tocantins (3).

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