Amamentar vai muito além de uma simples recomendação médica

Rosayne Macedo
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Semana do Aleitamento Materno incentiva a prática entre mulheres de todo o mundo.
Semana do Aleitamento Materno incentiva a prática entre mulheres de todo o mundo.

Só quem é mãe sabe. Amamentar é muito mais do que uma recomendação médica para garantir o desenvolvimento saudável da criança. É um gesto que cria um vínculo para sempre entre mãe e filho. Amamentei a Clarinha até os dois anos e vou confessar: desmamar foi mais difícil pra mim do que pra ela. Aquele sentimento que você nutre com a sua cria, de carinho, de ternura, de proteção… não tem explicação.

Sofri muito quando, logo nos primeiros dias após chegar da maternidade, minha bebê chorava compulsivamente e eu não conseguia amamentar direito. As mamas sangravam. A primeira pediatra a quem recorri na emergência me disse com todas as letras que meu leite não era suficiente e recomendou iniciar uma alimentação suplementar. Mas não desisti. Segui minha intuição, mesmo ‘mãerinheira’ de primeira viagem, e logo ela estava mamando normalmente. Foi uma grande felicidade!

Por isso, apoio integralmente o aleitamento materno, não apenas nos seis meses de vida do bebê, mas pelo tempo que cada um estabelece como seu. Conheço mães que, assim como eu, amamentaram muito mais do que o primeiro semestre recomendado. E, contrariando o que dizem por aí, amamentar não tem contraindicação. A criança pode perfeitamente continuar sendo amamentada e complementar a dieta alimentar com sopinhas, papinhas e frutas. Leites especiais, ou os comuns de caixinha ou em pó antes dos seis meses somente em último caso e com recomendação médica.

Em princípio, garantem especialistas, toda mãe é capaz sim de amamentar. Mas, para quem, por alguma complicação não possa ou não consiga amamentar, uma dica é buscar os bancos de leite materno – em todo o Brasil, são 213 BLHs e 131 postos de coleta. No Rio existem vários na rede pública (veja abaixo).

“É inquestionável o papel do aleitamento na prevenção de doenças, não só no período em que a criança está recebendo o leite materno, como em toda a sua vida. Isso porque reduz a chance de a pessoa vir a desenvolver algumas doenças crônicas, como sobrepeso, obesidade e diabetes”, confirma Elsa Giugliani, presidente do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

Promovida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) há mais de 20 anos, a Semana Mundial do Aleitamento Materno (Smam), de 1 a 7 de agosto, tem como tema “Aleitamento Materno: presente saudável, futuro sustentável”. No Rio, a semana foi aberta neste domingo (31) com um ato simbólico, o Mamaço Olímpico, reunindo centenas de mães amamentando simultaneamente os seus bebês em plena Praça Mauá.

Idealizada em 1992 pela Aliança Mundial para Ação em Aleitamento Materno (Waba, a sigla em inglês), a Smam ocorre em mais de 130 países. No Rio, é uma iniciativa da Rede Rio de Bancos de Leite Humano, que em 2015 prestou mais de 120 mil atendimentos a gestantes e mães em fase de amamentação, e conta com o apoio da Fiocruz e da Secretaria Municipal de Saúde (SMS).

Em adesão à SMAM, o Blog Vida & Ação ouviu as dicas e recomendações de especialistas sobre o tema e quer ouvir também as suas histórias sobre a importância da amamentação. Escreva pra gente – blogvidaeacao@gmail.com:
Alimento exclusivo – A amamentação é recomendada de forma exclusiva até o sexto mês de vida do bebê e, de forma complementar, até os 2 anos. “O leite humano contém todos os nutrientes que ele precisa para o seu crescimento, e durante essa fase, além de ser benéfica para a criança, a amamentação ajuda na prevenção contra o câncer de mama e ovários e no adiamento de uma nova gravidez”, afirma a fonoaudióloga Patrícia Mesquita especialista em amamentação da Clínica Dr. Família

Aumento da imunidade – O leite materno possui um importante papel na imunidade dos bebês, por conter células de defesa e fatores anti-infecciosos capazes de proteger o organismo do recém-nascido. As infecções comuns dos primeiros seis meses, como a otite, afetam menos as crianças que são amamentadas exclusivamente ao seio materno, destaca a especialista.

Introdução de alimentos – A partir dos seis meses, é preciso iniciar a introdução de alimentos já que o aleitamento materno prepara o paladar do bebê para receber outros alimentos, especialmente os ricos em ferro, como as carnes, na dieta da criança” Além disso, o leite previne a criança de doenças futuras como diabetes, hipertensão e obesidade”, afirma Patrícia.

Dificuldade para amamentar – A maioria das mulheres apresenta dificuldades no estabelecimento do aleitamento materno e hoje já se sabe da importância da ajuda prática e especializada durante o pré-natal. Quando isso não for possível, é imprescindível que receba ainda na maternidade ou nos primeiros dias de vida um profissional especializado que a auxilie no manejo da amamentação. “Todas as mulheres são capazes de amamentar, só precisam ser encorajadas e apoiadas”, diz a especialista.

Menos risco de morte por doenças – De acordo com estudo encomendado pela OMS e publicado na revista britânica ‘The Lancet’, que teve participação do brasileiro Cesar Victora, o leite materno, se praticado em níveis quase universais, poderia evitar a morte de 823 mil crianças menores de 5 anos e 40 mil óbitos de mulheres por câncer de mama a cada ano no mundo, além de um terço das infecções respiratórias e metade dos casos de diarreia em crianças nos países de média e baixa renda.

Menor índice de sobrepeso e obesidade – A amamentação previne não apenas as doenças comum na infância, como diarreia, infecções respiratórias e otites, mas também as crônicas. Segundo o mesmo estudo, os indivíduos amamentados ou amamentados por mais tempo têm chance 26% menor de apresentar sobrepeso e obesidade. As mulheres que amamentam por mais de 12 meses têm risco 26% menor de ter câncer de mama.

Facilita a aprendizagem – Os estudos mostram uma média maior de QI de 3,34 pontos entre as crianças amamentadas quando comparadas com as não amamentadas ou amamentadas por menos tempo, o que significa também ganho em escolaridade e renda aos 30 anos. Outra meta da ONU muito associada ao aleitamento materno é a quarta, que refere-se à educação de qualidade. “Como a amamentação está relacionada ao melhor desenvolvimento mental e cognitivo, favorece a aprendizagem”, ressalta Elsa Giugliani.

 

Mulheres de países pobres amamentam mais

Com a frase “Amamentação: faz bem para o seu filho, para você e para o planeta”, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e o Ministério da Saúde lançam no sábado, dia 6 de agosto, a campanha que marca a 25ª Semana Mundial da Amamentação (Smam). Este ano, o objetivo é chamar a atenção para a importância do aleitamento materno para que sejam alcançadas as 17 metas dos “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável” adotados pela Cúpula das Nações Unidas, em setembro do ano passado e que irão orientar as agendas nos próximos 15 anos.

A prática do aleitamento materno é um dos poucos comportamentos de saúde positivos que é mais frequente entre as mulheres dos países pobres, informou a série de estudos publicados na revista britânica ‘The Lancet’. Além de um direito da mulher e da criança, o aleitamento materno possui aspectos econômicos, sociais e ambientais que contribuem diretamente para o desenvolvimento sustentável.

De acordo com o estudo, as mulheres dos países pobres amamentam mais. A amamentação exclusiva nos primeiros 6 meses e continuada até dois anos ou mais ajuda a prevenir a fome e a subnutrição. Entre as crianças menores de 6 meses, 53% não estavam em aleitamento materno exclusivo nos países de baixa renda e 61 a 63% nos de média renda.

O estudo mostra a forte correlação entre aleitamento materno aos seis meses e Produto Interno Bruto per capita. Cada vez que o PIB duplicava, a frequência da amamentação aos 12 meses caía dez pontos percentuais. O Brasil recebeu destaque pelos notáveis avanços nos indicadores de amamentação, passando de uma duração de 2,5 meses na década de 70 para mais de 12 meses atualmente.

Elsa destaca que o aleitamento materno é muito relevante também para o alcance do terceiro objetivo sustentável, que diz respeito à boa saúde e ao bem-estar, por estar acessível a todas as camadas sociais, reduzindo os gastos da família com leites artificiais, mamadeiras, gás, doenças etc. “A amamentação perpassa todas as metas das Nações Unidas, com destaque para a de nº 10, que objetiva reduzir as desigualdades sociais”, afirma a especialista, que é professora titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e está entre os pesquisadores de estudos especialmente encomendados pela OMS.

Lei garante amamentação em público

Cercada de preconceitos, a amamentação em público ainda é absurdamente confundida como um ato libidinoso ou recriminada principalmente por pessoas sem acesso à informação. Por isso, deve ser incentivada pela sociedade em qualquer lugar e qualquer tipo de discriminação deve ser punido. Desde novembro de 2015, uma lei garante o direito das mães de amamentar seus filhos em estabelecimentos públicos no Estado do Rio de Janeiro.

Lojas, bares e restaurantes que proíbam as mulheres de amamentar seus bebês em público poderão ser multados em valores que vão de R$ 1.300 até R$ 2.700, em caso de reincidência. “Independentemente da existência de áreas segregadas para o aleitamento, a amamentação é ato livre e discricionário entre mãe e filho e poderá ocorrer em qualquer local, mesmo onde seja proibido o consumo de alimentos”, diz o texto da lei. Na cidade do Rio, a garantia já vem desde julho do ano passado, após lei similar aprovada na Câmara de Vereadores.

Programação da semana no Rio

Durante a semana, a SMS promove diversas atividades para marcar a data nas unidades de saúde, com o objetivo de chamar atenção sobre a importância da amamentação na saúde da mãe e do bebê e reforçar a importância da doação para os bancos de leite humano. A programação é marcada também por várias atividades nas unidades de saúde de todas as regiões da cidade, com atividades teatrais, dinâmicas de grupo, rodas de conversa e palestras, além de salas de espera e encontros sobre aleitamento.

O encerramento será na Segunda Caminhada do Aleitamento Materno, em Vigário Geral. A concentração será às 8h, no Centro Municipal de Saúde Nagib Jorge Farah, no Jardim América, e nas clínicas da família Iraci Lopes, em Vigário Geral, e Joãosinho Trinta, na Praça José da Matta. A caminhada partirá das unidades de saúde para a Rua Isidro Rocha, na Praça 2, em Vigário Geral. No local, estão previstas diversas ações, como apresentações de teatro, atividades com o Programa Academia Carioca e palestras sobre amamentação, além da divulgação do Posto de Recebimento de Leite Humano das unidades. Confira a programação completa no site www.rio.rj.gov.br/web/sms.

Bancos de leite humano

Os bancos de leite humano estão de portas abertas para apoiar, proteger e promover o aleitamento ainda na fase de gestação. O Rio sedia o Centro de Referência da Rede Global de Bancos de Leite Humano, localizado no Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz).

Esta rede realizou, entre 2009 e 2015, mais de 15 milhões de atendimentos assistenciais em aleitamento materno no Brasil, América Latina, Caribe Hispânico, Península Ibérica e África, totalizando 23 países. Confira as unidades que compõem a Rede Rio de Bancos de Leite Humano.

– Postos de recebimento: Hospital Maternidade Maria Amélia Buarque de Hollanda, Maternidade do Hospital Municipal Albert Schweitzer, Hospital da Mulher Mariska Ribeiro, CF Santa Marta, CF Aloysio Augusto Novis, CF Augusto Boal, CMS Hélio Smith, CMS Sylvio Brauner, CMS Flávio Couto, CF Ana Maria da Conceição dos Santos Correa (IPASE) e CF Antônio Gonçalves.

– Bancos de leite: maternidades Fernando Magalhães, Carmela Dutra, Herculano Pinheiro, Leila Diniz, Alexander Fleming e Rocha Faria.

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