Ambiente tóxico de trabalho pode causar até síndrome do pânico

Na série sobre Saúde Organizacional, que ViDA & Ação abre hoje, trazemos a história de Maria (nome fictício), vítima de transtornos mentais causados pela pressão no trabalho

Maria (nome fictício), de 37 anos, que trabalha em uma indústria de alimentos, tem sobrevivido, aos trancos e barrancos, à crise econômica que vem se aprofundando desde 2015 no Brasil. A empresa onde trabalha como assistente administrativa realizou várias demissões em massa, restando cerca de um terço dos funcionários. E todos tendo que se desdobrar, com acúmulo de tarefas e funções, salários e 13º atrasados, sem reajuste salarial há três anos e congelamento ou corte de benefícios como tíquete refeição e plano de saúde, o que deixam qualquer trabalhador ainda mais tenso e assustado. Para piorar, veio a reforma trabalhista, que promete usurpar direitos conquistados ao longo de décadas de tantos brasileiros.

Desde que começaram as demissões na firma, Maria, que cria sozinha o filho de 10 anos, passou a sofrer de crises sucessivas de insônia, falta de ar e até sua pressão arterial, que sempre foi baixa, começou a subir. Não foram poucas as vezes em que foi parar na emergência, acreditando estar tendo um infarto ou coisa que  valha. Some-se a toda a já forte instabilidade emocional da crise da empresa as constantes pressões que Maria sofre todos os dias dos chefes, que por sua vez também temem ser dispensados e exigem cada vez mais dos subordinados.

“Mania de perseguição”, diriam alguns. “É só uma frescura. Ainda bem que você está empregada”, cravariam outros. “Ruim com ele, pior sem ele. Lá fora o desemprego está enorme”, atestam mais alguns, insensíveis ao drama particular de cada um e à forma como cada um enfrenta os seus monstros do dia a dia. Porque nem todo mundo é 100% forte o tempo todo, nem seguro o bastante para se considerar blindado a tantas pressões externas, nesses tempos de tanta incerteza. Maria foi diagnosticada com esgotamento físico e mental (síndrome de burnout) e transtorno de ansiedade generalizada, que culminou em síndrome do pânico.

Você se identificou com Maria? Pois boa parte dos brasileiros se encontra nesta situação. Quem perdeu o emprego, está sem esperança. E quem ainda está empregado, não sabe o dia de amanhã. “Todo dia vou para o trabalho como se fosse o último. Esta expectativa negativa acaba com a vida da gente”, conta Maria, desanimada, enquanto dribla o orçamento para tentar sobreviver e manter o filho numa escola particular – que aliás, teve que trocar este ano pela mais barata do bairro, além de promover várias outras alterações na rotina da família.

De fato, o país vive a maior crise econômica de sua história que vem refletindo diariamente no mercado de trabalho. E a situação do Rio de Janeiro, em especial, é desesperadora, por conta da crise do estado, que deixa milhares de servidores sem salários. Desemprego, instabilidade financeira e incertezas. Quem está sem emprego precisa lutar para sair dessa situação e quem está empregado, enfrenta todos os dias uma verdadeira batalha dentro da empresa. Uma disputa pela sobrevivência.

Não é por acaso que o número de pessoas doentes tem crescido. Em especial, as doenças mentais e psicológicas, como estresse, ansiedade, depressão e síndrome do pânico, lotando consultórios especializados. A psicóloga Marilene Kehdi explica que o ambiente de trabalho negativo ou tóxico pode ser responsável pelo quadro de depressão dos pacientes. “Com a economia no estado que estamos vendo, os funcionários lutam para manter o seu emprego e os empresários precisam manter a empresa ativa. Essa combinação pode ser muito perigosa. Gerando abuso da parte dominante e que detém o poder financeiro. E o empregado, muitas vezes, aceita comportamentos abusivos por medo de perder a estabilidade’, completa.

Existe luz no fim do túnel?

Especialista em doenças psicossomáticas e autora de sete livros, ela explica ainda que os ambientes negativos podem surgir também por má gestão. “Funcionários insatisfeitos e inseguros com relação ao futuro, fofocas nos corredores e o clima de pessimismo acabam contaminando todo um setor”, detalha Marilene.

Segundo ela, manter um ambiente equilibrado e blindado dessas incertezas é um desafio para empresários, gestores, coordenadores e também, funcionários. “Conversar sobre o momento atual, palestras motivacionais, identificar colegas de trabalho com quadros de depressão e oferecer ajuda, são algumas das possibilidades que podem desintoxicar o ambiente de trabalho”, destaca.

A depressão é a principal causa de problemas de saúde, afastamento do mercado de trabalho e incapacidade em todo o mundo. De acordo com dados e estimativas divulgadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 300 milhões de pessoas no mundo todo convivem com a depressão, um aumento de quase 20% entre os anos de 2005 e 2015.

A OMS tem como tema central de sua campanha anual de saúde a doença. Com o nome “Depressão: vamos conversar”, tem como objetivo geral abrir espaço para discussões, fazendo com que mais pessoas, diagnosticadas ou não, busquem e obtenham ajuda. As estimativas ainda preveem que até 2020, esta será a doença mais incapacitante do planeta e, por isso, precisa ser tratada com atenção.

  • Vida & Ação inicia hoje uma série de matérias sobre Saúde Organizacional. Tem uma história para compartilhar? Escreva para a gente ou envie um vídeo para o email contato@vidaeacao.com.br

 

 

Por Favor, Compartilhe!
4 Comments
  1. […] A pesquisa Desigualdade de gênero no jornalismo, feita em todo o País pelo Sindicato dos Jornalistas do DF em 2016, mostrou que das 535 jornalistas entrevistadas, 417 (77,9%) disseram ter sofrido algum tipo de assédio moral por parte de colegas ou de chefes diretos. Um número maior ainda, 78,5%, afirmam que já enfrentaram algum tipo de atitude machista durante entrevistas. E mais de 70% delas disseram que já deixaram de ser designadas para uma pauta pelo fato de serem mulheres. A pesquisa foi lançada em 8 de março de 2016, como parte do Coletivo de Mulheres Jornalistas, no Dia Internacional da Mulher. Foram entrevistadas mulheres de vários estados, entre março e maio, por meio de questionário na internet. O assédio moral não é exclusividade de redações e assessorias de imprensa. Profissionais de agências de comunicação e publicidade também sofrem, literalmente, na pele, especialmente as mulheres. A pesquisa “Hostilidade, silêncio e omissão: o retrato do assédio no mercado de comunicação de São Paulo”, divulgada no último dia 15 de novembro pelo Grupo de Planejamento de São Paulo, em parceria com a Qualibest, concluiu que 90% das mulheres já sofreram algum tipo de assédio nestes ambientes. O estudo ouviu 1.400 pessoas (homens e mulheres) que trabalham em empresas de comunicação da região metropolitana da capital paulista – em sua maioria, funcionários de agências de publicidade. Segundo informações do site PropMark, das pessoas que responderam a pesquisa, 100% declararam que existem casos de assédio nas empresas de comunicação. Entre as mulheres entrevistadas, 90% declararam já ter sofrido alguma situação de assédio moral ou sexual. Já entre os homens, o índice é de 76%. Para 62% das mulheres que foram vítimas de assédio sexual ou moral, os sintomas foram sentidos na saúde. As reações variam entre crises de choro, ansiedade, sensação de incapacidade e depressão. Entre os homens, o índice de sintomas físicos foi relatado por 51%. Em matéria publicada no Vida & Ação em agosto de 2017, falamos do exemplo de João (nome fictício), de 47 anos, diagnosticado com transtorno de ansiedade generalizado após passar por um processo de assédio moral na empresa onde trabalhava. A psicóloga Claudia Melo mostra que como é possível identificar que está sendo vítima de assédio moral, quais são os principais sinais e muitas outras informações. Mostramos também o que acontece quando a pessoa é vítima da Síndrome de Burnout, causada pelo esgotamento mental intenso causado por pressões no ambiente profissional. Em outra matéria da série sobre Saúde Organizacional, apresentamos o caso de Maria (nome fictício) que sofreu com síndrome de burnout e transtorno de ansiedade generalizada, que culminou em síndrome do pânico, causadas pelo ambiente tóxico de trabalho. […]

  2. […] Ambiente tóxico de trabalho pode causar ansiedade e até síndrome do pânico […]

  3. […] Ambiente tóxico de trabalho pode causar até síndrome do pânico […]

  4. […] Ambiente tóxico de trabalho pode causar até síndrome do pânico […]

Deixe um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.

In the news
Leia Mais