Amigos do Coração: hospital ensina a fazer massagem cardíaca

Campanha da Casa de Saúde São José quer incentivar pessoas leigas a ajudarem a salvar vidas com procedimentos corretos

A advogada Eleonora Bergamo, de 34 anos, passeava tranquilamente com seu cachorro quando passou mal no meio da rua e acabou sendo salva por uma vizinha, que fez o atendimento inicial e a massagem cardíaca. Mas nem todo mundo tem essa sorte.

Anualmente, ocorre mais de 200 mil paradas cardiorrespiratórias no Brasil e metade dos casos acontece em ambientes extra-hospitalares, como ruas, shoppings e estádios. Apesar dos dados alarmantes, pessoas leigas (que não são da área da Saúde) desconhecem como proceder para salvar alguém que esteja em parada cardíaca.

Para se ter uma ideia, estudo realizado por médicos da Universidade Federal de Juiz de Fora com leigos mostrou que 59% desconhecem o suporte básico de vida (massagem cardíaca) e, dos 41% que sabem o que é a técnica, somente 5,8% se sentem preparados para realizá-la. A literatura internacional mostra que a ressuscitação cardiopulmonar feita por leigos treinados pode ser bem-sucedida entre 50% e 75% dos casos.

Foi pensando nesse cenário que a Casa de Saúde São José, hospital referência em Cardiologia no Humaitá, zona sul do Rio, desenvolveu a campanha Amigos pelo Coração. O projeto tem como objetivo conscientizar a população leiga sobre a importância da massagem cardíaca e de, consequentemente, salvar vidas.

Neste sábado (29), Dia Mundial do Coração,  a Casa de Saúde São José, vai realizar às 11 horas a primeira turma do treinamento presencial para ensinar a população a fazer a massagem cardíaca. Os interessados podem se inscrever pelo site www.amigospelocoracao.com.br.

Saiba mais sobre o conceito da campanha

Barão Vermelho regrava ‘Meus Bons Amigos’

Para chamar a atenção do público leigo e facilitar o aprendizado da técnica de massagem cardíaca, a campanha “Amigos pelo Coração” ganhou um parceiro de peso, a banda Barão Vermelho, que regravou o hit “Meus Bons Amigos” especialmente para o projeto. A canção tem o ritmo adequado (100 bpm) para garantir a taxa correta de compressões durante o procedimento, que deve ser entre 100 e 120 compressões torácicas por minuto. Com a música na cabeça, o socorrista tem mais chances de realizá-lo de forma correta e eficaz.

“Ficamos empolgados para participar quando conhecemos a proposta da campanha e soubemos que a nossa música poderá ajudar a salvar tantas vidas. ‘Meus bons amigos’ é uma das canções mais queridas do Barão Vermelho e foi uma feliz coincidência, já que o ritmo é ideal para ensinar a massagem cardíaca. Esperamos que todos embarquem nessa e que a gente possa contribuir para que mais pessoas aprendam as técnicas da massagem cardíaca”, destaca o guitarrista Fernando Magalhães, que é o autor da música.

Quem também abraçou a causa foi a atriz Giovanna Antonelli, quefaz a locução de um dos vídeos do projeto. “É um grande prazer participar de uma campanha tão importante e que pode ajudar a salvar muitas vidas. É fundamental ampliarmos o conhecimento da população sobre a massagem cardíaca e é isso que buscamos com essa iniciativa. Quanto mais gente aprender essa técnica, mais pessoas poderão ser salvas em casos de emergência. Com a música do Barão Vermelho então, tudo fica mais simples e fácil. Eu mesma quero aprender, afinal todos temos que estar preparados”, aponta a atriz.

Inspiração para a campanha veio de fora

 

A inspiração para esse movimento veio lá de fora. A American Heart Association e a British Heart Foundation, por exemplo, usaram a música Stayin’ Alive, dos Bee Gees, em campanha do gênero, que teve enorme repercussão. Aqui no Brasil, a iniciativa começou com a veiculação em ambiente digital de um vídeo com uma demonstração, bem didática, da massagem cardíaca sob o ritmo da música “Meus bons amigos”, retratando o compasso correto das compressões. A campanha ensina o passo a passo para o leigo socorrista.

“Precisamos tornar essa prática conhecida por todos e realizar treinamentos”, defende o cardiologista da Casa de Saúde José e idealizador do movimento, Gustavo Gouvêa (foto). Ele destaca que as estatísticas são preocupantes: 50% dos indivíduos com parada cardiorrespiratória morrem em 5 minutos e 10% morrem a cada minuto que passa.

“O suporte básico de vida consiste em uma sequência de manobras para promover a sustentação circulatória, enquanto o socorro médico não chega. Em países da Europa e nos Estados Unidos, essa massagem cardíaca é ensinada nas escolas. Aqui no Brasil, há cursos, mas a maioria é pago”, destaca o cardiologista.

“Em uma situação de emergência, o primeiro passo é chamar ajuda e ligar para 192. A pessoa deve reconhecer a situação de parada cardíaca, verificando se a vítima não respira e não reage. Em seguida, é preciso fazer a massagem cardíaca até o socorro chegar. É importante que a manobra seja feita no ritmo e com a força certa, por isso a ideia de usar uma música”, explica Gouvêa.

Casos reais motivaram a campanha

Histórias como a de Eleonora e outras pacientes da Cardiologia da Casa de Saúde São José motivaram a criação da campanha “Amigos pelo Coração”. Eleonora e a  farmacêutica do Corpo de Bombeiros Cátia Gonçalves – responsável por realizar os primeiros socorros nela quando passou mal na rua – participaram de um dos vídeos do projeto.

Eleonora conta que trabalhou normalmente, malhou e foi passear com o cachorro. “Na rua, conheci a Cátia, que também estava andando com o cachorro dela. Do nada eu desmaiei e ela me socorreu. Depois chegaram dois médicos que também prestaram os primeiros socorros”, conta.

Para ela, a campanha é fundamental. “Tive muita sorte por ter sido socorrida por pessoas técnicas. As pessoas leigas normalmente ficam assustadas e com medo de prestar socorro. Tive essa sorte e gostaria que todos pudessem ter também. Eu também quero aprender a fazer a massagem. É preciso criar essa consciência”, destaca Eleonora.

Cátia Gonçalves também ressaltou a importância dessa iniciativa e disse que espera que todos possam aprender as técnicas do suporte básico de vida. “Como já trabalhei com médico e enfermeiros, tive alguns cursos e tinha uma noção de como proceder. Comecei a massagem cardíaca e depois chegaram dois médicos, que assumiram o socorro até a ambulância chegar”, conta.

Prestar o atendimento a Eleonora chamou a atenção de Cátia para a importância de pessoas comuns aprenderem a fazer a massagem. “E se fosse o contrário, será que alguém saberia fazer em mim?”, refletiu. “Nós achamos que não vamos precisar nunca, mas podemos salvar vidas. A massagem é simples e isso vai fazer a diferença”, afirma Cátia.

Depois da recuperação da Eleonora, as duas acabaram se aproximando e ficaram muito amigas. “Um dia nos encontramos na rua e ela não se lembrava de nada. A mãe dela nos apresentou, aí descobrimos que éramos vizinhas, que malhávamos na mesma academia e fomos nos aproximando. Hoje, posso dizer que ficamos amigas mesmo. Também ficamos bem próximas dos médicos que a salvaram, somos todos amigos”, completa Cátia.

 

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