Amor próprio, sexo na medida e afeto fazem bem

Livro ‘Seja o Amor da Sua Vida’ traz dicas contra relacionamentos abusivos e para fortalecer a autoestima. Em ‘Tão fútil e de tão mínima importância’ autor analisa obsessão pelo sexo à luz da Psicanálise

Cristina Sant´Anna

Neste domingo que abre a semana dedicada ao Dia dos Namorados, gostaria de comentar a respeito de dois livros: ‘Seja o amor da sua vida’, do youtuber e publicitário Guilherme Pintto, lançado neste sábado (9), na Livraria Saraiva do Shopping RioSul, e ‘Tão fútil e de tão mínima importância’, do psicanalista Tiago Franco,  lançado no dia 7 de junho, na Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ). 

As obras tratam de temas que sempre despertam nossa atenção porque estamos vivos e gostamos de amar, de trocar afeto, de sexo e erotismo, mas também precisamos de mais amor próprio e superação. Superação que entra aqui como resposta à violência: algo que nos assombra, assusta e que, por vezes, embora não queiramos sofrer, somos impotentes, não possuindo qualquer controle sobre o processo. Entretanto, quando a violência é vencida pelo amor próprio e se transforma em superação, nossa alma fica sossegada, satisfeita e esperançosa com o poder de transformação que, nós, seres humaníssimos, temos.

Vamos logo aos livros, então.

Seja o Amor da Sua Vida

Guilherme Pintto presenciou sua mãe sofrer todo tipo de violência física por parte do marido. O agressor – padrasto do garoto – não o deixou de fora do processo: torturou-lhe por intermédio de abusos psicológicos. Isso começou quando Guilherme tinha seis anos e seguiu até a então criança se tornar um adolescente e completar 14 anos.

Eram as palavras que lhe serviam de refúgio, afago e escapatória da crueldade do padrasto. Contrariamente ao que tinha em casa – e, talvez para aliviar a dor, talvez para sobreviver ao mal, talvez para se manter vivo e são – , Guilherme escolheu o amor universal e também o amor próprio, como temas preferidos e recorrentes de seus escritos que, então, só ele lia e relia.

O menino, então, cresceu e com altas doses de terapia e autoconhecimento, venceu a violência que o ‘dragão da maldade’ lhe imputara e à mãe. Aprendeu a importância de, primeiro, estar em paz consigo mesmo, antes de procurar refúgio e suporte em outras pessoas, para superar seus medos e inseguranças.

Eu tinha a esperança de que alguém iria me salvar e suprir tudo o que faltava em mim, salvando-me da torre da rejeição. Até que percebi que o amor do outro não nos salva. Somos nós os responsáveis pela nossa salvação diária”, conta.

Com mais de mais de 500 mil seguidores nas redes sociais, Guilherme decidiu compartilhar o que aprendeu a superar no livro que reúne crônicas bem-humoradas sobre relacionamentos, amor próprio e autoestima. Na obra, ele traça o caminho que o levou a encontrar o verdadeiro amor de sua vida: ele mesmo. “Convide-se para um encontro, aprenda a desfrutar da própria companhia e se sentir confortável dentro do próprio corpo”, recomenda. Vamos combinar que é uma ótima dica.

Dicas do autor: para anotar na porta da geladeira

Anote na geladeira que o amor nunca será garantia de nada. A promessa é o Rivotril do desespero, serve apenas para estabilizar o medo do inverso. Acredite mais nas ações e não dê muita bola para os discursos estruturados. Não procure um namorado, procure alguém disposto a viver histórias contigo. Construa a história antes de querer vivê-la, Namoro não é construção antes da decisão.

Somos agora meros desconhecidos que, lá atrás, dividiram a mesma escova. Espero que com o vazio do seu banco de carona você tenha aprendido que o essencial não é a velocidade do deslocamento, mas sim a intensidade da companhia, que torna as viagens mais duradouras. Amor, eu já fui. Tô lá. Tô sendo.

O problema não é o amor, são as dores, as decepções que a gente vai vivendo ao longo do caminho. E o pior é que não tem outra opção a não ser ajeitá-las em algum canto sem deixar que desorganizem ainda mais mais o que supostamente deveria estar organizado.  O amor nunca foi o problema. O que mata a gente por dentro é  esse vai e vem, que mais vai do que vem.

Mate quem já te matou há tempos: antes de começar, será preciso terminar. Você terá que assassinar suas piores lembranças para voltar a ser ré primária, sem feridas abertas e resquícios de amores sujos. Será preciso esfaquear o ponto e a vírgula, tacar fogo nas malditas reticências e fazer as pazes com o ponto final.

‘Tão fútil e de tão mínima importância’

Vencedor do Prêmio Rio de Literatura 2016, na categoria Novo Autor Fluminense, o romance de Tiago Franco, ‘Tão fútil e de tão mínima importância: uma incursão pela alma humana’ mistura literatura com muita psicanálise. Temas de que Franco se serve com propriedade para a construção segura e impactante de sua narrativa. Um anti-herói de quem só conhecemos a inicial de seu nome: F. é quem protagoniza a história. O personagem vai manifestando sua angústia existencial no sexo e sua obsessão por tudo o que lhe parece erótico.

A narrativa trata de pessoas reais por meio de personagens fictícios. Baseado em um estranho processo psicanalítico, o livro eleva a prática terapêutica à condição de literatura. Paradoxal, intenso e humano até demais. F. segue convivendo com os demais personagens, dados a conhecer também somente pelas iniciais de seus nomes. Esta angústia sufocante de F. nos remete à angústia e à complexidade do protagonista de Kafka, cujo nome sabemos, mas cujo sobrenome ignoramos por completo, o Joseph K., em ‘Metamorfose’.

O F. de Tiago Franco se insere ainda numa notável linhagem de personagens literários cujos nomes se resumem a iniciais e partilha traços de uma experiência radical de solidão com duas referências da literatura brasileira: a enigmática G. H. de Clarice Lispector e a obscena senhora D. de Hilda Hilst, conforme analisa brilhantemente a professora de Literatura Brasileira da USP, Eliane Robert Moraes, na orelha do livro.

Não surpreende, pois, que o principal interlocutor deste romance seja a psicanálise, que comparece não só na figura do autor psicanalista, mas ainda por convocar conceitos, descrições e nomenclaturas que se tornaram correntes por meio de Freud e de Lacan. O que surpreende – a ponto de nos tirar o fôlego durante a leitura – é a misteriosa persona de um narrador que, do começo ao fim do romance, afirma e desmente os ensinamentos psicanalíticos para colocar em xeque toda e qualquer autoridade – e, no limite, toda e qualquer autoria”, ressalta Eliane.

Na noite de lançamento, o psicanalista e escritor Roberto Bittencourt Martins e a psicanalista Ana Sabrosa, diretora do Conselho Científico da SBPRJ, também comentaram sobre aspectos da psicanálise abordados no livro.

Sobre os autores

Gaúcho do interior do Rio Grande do Sul (Jaguarão-RS), Guilherme Pintto é publicitário e radialista apaixonado por histórias e por todos os começos que os cafés promovem. Já viajou do Sul ao Nordeste do país com apenas R$ 975 na carteira. Foi eleito o segundo melhor cronista no concurso literário nacional Felippe D’Oliveira na cidade de Santa Maria (RS). Há dois anos criou um canal no YouTube, para superar seus traumas e propagar amor na internet.

Tiago Franco é professor de psiquiatria e psicologia médica da UFRJ e membro provisório da, na Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ). É também autor do e-book ‘Por que os loucos escrevemos livros tão bons’, e do romance ‘Onde os paranoicos fracassam’.

Serviço:

Capa - Seja o amor de sua vida

Livro: Seja o amor da sua vida

Autor: Guilherme Pintto

Editora: Planeta

Páginas: 224

R$ 36,90

 

Capa - Tão fútil e de tão mínima importância
Livro: Tão fútil e de tão mínima importância

Autor: Tiago Franco

Editora: Garamond

Páginas: 112

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