‘Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro’

Campanha que usa letra de canção famosa de Belchior chama a atenção para problema do suicídio, que pode estar mais perto do que a gente pensa

*Por Samanta Lopes

Um trabalho do Emicida que me marcou demais durante a pandemia, foi o documentário “AmarElo – É tudo para ontem”, na Netflix. Ouvir a música AmarElo, de Majur & Pabllo Vittar é impactante, vale conferir.  A letra forte resgatou a voz de Belchior, incluindo trechos da faixa “Sujeito de Sorte”, assinada pelo cantor, morto em abril de 2017. Uma parte da letra se torna mote do refrão “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro” e traz, na abertura, o depoimento emocionante de uma pessoa próxima ao rapper, que já tentou o suicídio.

A realidade na qual vivem Emicida – nascido na comunidade, negro, rapper, cantor, letrista, compositor brasileiro e referência no Hip Hop nacional –, Pabllo Vittar – cantor e drag queen brasileiro –, e Majur – cantora negra, compositora brasileira e pessoa trans não binária – tem como paralelos as dores em comum.  Os três nasceram em regiões de baixa mobilidade social, vida diária exposta à violência e ao risco de morte, foram alvos de preconceitos e conseguiram a superação através da arte e com forte resistência e enfrentamento ativo.

Em 2019, um estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS) chamado Suicídio em todo o mundo estimou que esse tipo de morte é uma das mais letais entre jovens, principalmente entre homens. Os óbitos por suicídio ultrapassam o número de pessoas que morrem por câncer de mama, HIV, e até mesmo homicídio em algumas localidades. O suicídio foi a quarta maior causa de morte de jovens entre 15 e 29 anos, precedido de mortes por acidentes de trânsito, tuberculose e violência interpessoal.

O que posso fazer?

O tema suicídio precisa ser abordado no ambiente corporativo, inclusive durante todo o ano, em ações de abertura para diálogos e trocas de afeto, porque as pessoas trazem consigo o que vivem em seu cotidiano, e somos reflexo da sociedade na qual vivemos. Uma pessoa pensando em suicídio pode estar mais próxima de nós do que imaginamos, independentemente de posição hierárquica, classe social, orientação sexual, raça, etnia ou deficiência.

É um desequilíbrio emocional que pode atingir qualquer um, gerando dores invisíveis, alimentando-se do medo e provocando, cada vez mais, o silenciamento de quem sofre com esta desordem. Nas empresas, muitas vezes, há receio de abrir espaço para pessoas ativistas nas equipes e lidar com as dores e manifestações, pois geralmente são mais extremistas e polarizadas, e preocupam a gestão com relação à forma como podem impactar a produtividade das equipes e o ambiente de trabalho.

Construir relações com ONGs, participar mentorando ou organizando eventos com foco em desenvolvimento de entidades educacionais, promover ações de formação colaborativa e inclusiva, ensinar e aprender durante o processo, bem como conhecer histórias, podem ser passos que rompem com os estereótipos. Criar oportunidades para todas as pessoas envolvidas nas quais possam conhecer diferentes realidades humaniza relações, permite vivenciar a pluralidade das visões e sensibiliza, protegendo a empresa frente à realidade que a cerca.

O diálogo e o afeto ajudam a reduzir o risco do suicídio, pois geralmente o maior peso de quem pensa nessa saída é não conseguir falar sobre como se sente. As trocas com outras pessoas podem ajudar a olhar por outra perspectiva a preciosidade da vida, além de construírem relações valiosas que serão suporte para um ambiente produtivo e acolhedor.

Abrir espaço para falar sobre este tema é um ato de resistência, um dos caminhos para salvar vidas. Então, RESISTA!

Por que Setembro Amarelo?

A campanha Setembro Amarelo surgiu após 1994, quando um jovem de 17 anos se suicidou nos Estados Unidos. Muito hábil, ele havia restaurado um Mustang Amarelo 1968 sozinho e até ganhou o apelido “Mustang Mike”, mas não conseguiu lidar com o término de um relacionamento.

Seus pais distribuíram cartões com uma fita amarela no velório, oferecendo ajuda para ouvir quem precisasse de apoio. Os cartões se espalharam e muita gente pediu ajuda. Assim, o movimento ganhou o mundo e o dia 10 de setembro virou um marco da conscientização quanto ao tema, tentando minimizar números, que infelizmente só crescem.

*Samanta Lopes é coordenadora MDI da um.a #DiversidadeCriativa, agência de live marketing – uma@nbpress.com

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