As dores da longa quarentena: por que nosso corpo padece?

Ortopedista e fisioterapeuta apontam motivos para dores no corpo durante a quarentena. E dão dicas para evitar e combater o problema em nosso #PapodePandemia

dor-nas-costas Lombalgia é uma das três dores crônicas mais recorrentes. Mulheres são as principais vítimas (Foto: Reprodução de internet)

Sobrepeso? Sedentarismo? Home office? Não são poucas as explicações para as terríveis dores no corpo que muita gente passou a sentir desde que começou o isolamento social. Nunca a expressão “dor nas costas” foi tão buscada no Google Trends no Brasil como em abril de 2020. Pesquisas pelo termo “dor nas costas” aumentaram 22% entre 15 de março e 20 de junho.

E dá-lhe automedicação. O efeito das dores no corpo dos brasileiros trabalhando em casa há mais de 150 dias foi sentido nas farmácias: a consultoria Iqvia apontou alta de 62% nas vendas de analgésicos isentos de prescrição em março relação ao mesmo mês do ano passado. 

Para falar sobre isso e dar dicas de como evitar o problema, a jornalista Rosayne Macedo, editora do Portal ViDA & Ação, convidou para a 16ª edição do #PapodePandemia nesta quinta-feira (27/8), do Portal ViDA & Ação, o ortopedista Pedro Baches Jorge, cirurgião de joelho do Hospital Sírio Libanês e da Santa Casa de São Paulo e fundador da Clínica SO.U, e o fisioterapeuta Helder Montenegro,  gestor do Instituto de Tratamento da Coluna Vertebral (ITC).

Mais de metade relatam dores nas costas, pescoço e ombros

O isolamento social causado pela pandemia do coronavírus provocou uma mudança severa na rotina das pessoas. Sem poder sair de casa para realizar as atividades diárias, o brasileiro tem enfrentado alterações emocionais e físicas. A quarentena mudou a rotina de muita gente, já que o distanciamento social é tido pelos especialistas como a melhor forma de evitar o contágio em massa e preservar o sistema de saúde.

O home office surgiu então como alternativa de trabalho para a maioria das pessoas, mas, alguns não possuem local específico para o trabalho e acabam trabalhando com a postura inadequada. Especialistas em Ortopedia, Fisioterapia e Fisiatria notam entre seus pacientes o surgimento, com maior frequência, de dores musculares, articulares e até ósseas, que podem ser associadas a fatores, como sedentarismo, postura inadequada no home office ou até mesmo em exercícios realizados de forma errada.

De acordo com o Centro Global para Locais de Trabalho Saudáveis, 65,3% dos colaboradores em home office estão trabalhando mais e em horários mais irregulares. Mais de 50% relataram dores no pescoço, ombros e costas, além de problemas para dormir, fadiga e dor de cabeça. 84,2% declararam que não havia avaliação de saúde ou segurança em suas estações de trabalho em casa.

O problema também é sentido na Clínica SO.U, onde cerca de 65% dos pacientes foram diagnosticados com desgaste por conta da má postura causada pela falta de equipamentos adequados para garantir a ergonomia correta. Com foco no tratamentos de joelho, coluna, mão e punho, ombro e cotovelo, quadril, pé e tornozelo, medicina esportiva, ortopedia pediátrica e oncologia ortopédica – o espaço oferece fisioterapia e clínica médica.

As muitas semanas em home office também contribuem para as queixas, principalmente, relacionadas à hérnia de disco súbita ou piora do quadro existente. “Essas dores estão afetando mais aquelas pessoas que estão trabalhando de casa há muitas semanas, mas sem acesso ao equipamento adequado para preservar a ergonomia correta”, afirma o ortopedista Pedro Baches Jorge, da Clínica SO.U.

Rotina de home office mudou a vida de muitos profissionais (Foto: Pixabay)

Posturas inadequadas podem causar dores e lesões a longo prazo

Quem estava acostumado com o ambiente confortável do escritório, rapidamente teve que improvisar um lugar para trabalhar em casa. A maioria foi para a mesa de jantar da sala ou da cozinha, ou adaptou algum outro cômodo para desenvolver suas atividades profissionais. Nas primeiras semanas, funcionou, mas a longo prazo o novo hábito pode causar sérios problemas.

Christina Cepeda, professora-doutora de Fisioterapia da Universidade Positivo, explica que, em um primeiro momento, usar o computador na mesa de jantar, no sofá ou na cama pode até parecer confortável, mas, ao longo do dia, além de ser prejudicial à saúde, também pode reduzir a produtividade. “Posturas inadequadas para as atividades do dia a dia diminuem a concentração e podem causar dores e/ou até lesões no futuro”, alerta.

Atividades domésticas também podem ser um problema. “Para realizar a limpeza da casa, por exemplo, é necessário manter uma postura adequada e realizar períodos de pausas. Se a pessoa já possuía alguma dor ou problema físico antes deste período, as dores podem ser intensificadas”, explica Frederico Barreto, coordenador do curso de Fisioterapia da Anhanguera de Niterói.

Sedentarismo dos brasileiros é mais um agravante

Além de o brasileiro já não ser muito ativo –  cerca de 47% não pratica o mínimo de exercícios recomendável de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) -, o longo período com academias e parques fechados tem cobrado seu preço para as articulações de muita gente. Com isso, especialistas alertam para a falta de atividades físicas como um agravante.

Podemos afirmar que o nosso corpo é uma “máquina” feita para o movimento e, quanto mais parado fica, mais propício estará ao surgimento de dores. O movimento ajuda a melhorar a circulação sanguínea, nutre o organismo, reduz a pressão arterial, fortalece músculos e ossos, além de reduzir o estresse e a ansiedade”, afirma Dr Frederico.

Quem mais sobre com as dores são aqueles que não estavam acostumados a fazer atividades físicas e, durante o isolamento social, iniciaram de forma intensa. O resultado são lesões indesejadas.

Os exercícios devem ser realizados de forma orientada e gradual. Há diversas opções para auxiliar as dores físicas, como exercícios de alongamento, de fortalecimento e também respiratórios. O fisioterapeuta pode identificar e planejar exercícios segundo a necessidade de cada indivíduo, prescrever atividades físicas adequadas para cada indivíduo, além de orientar sobre a postura correta para a realização de cada tarefa”, afirma Dr. Frederico.

Dicas dos especialistas para evitar lesões na coluna e joelho

Para reduzir o mal-estar e evitar dores e problemas na coluna, o o ortopedista Pedro Baches Jorge e a fisioterapeuta Christina Cepeda dão algumas dicas simples de se fazer em casa.

  1. Mantenha o peso

Não é fácil manter a forma durante um período tão desafiador, mas o excesso de peso dá uma sobrecarga muito grande no joelho. Além disso, manter o equilíbrio muscular principalmente do glúteo e coxa é fundamental. “Estes músculos são responsáveis por fazer com que o eixo dinâmico do joelho mude, fazendo com que os agachamentos que fazemos ao longo do dia forcem mais a parte interna ou externa do joelho e, aos poucos, sobrecarregue os meniscos”, diz o ortopedista.

2. Faça exercícios

Para manter o fortalecimento do glúteo e da coxa, faça exercícios como agachamentos com avanço (caminhar com passos largos agachando a cada passo) e subida com uma perna (subir em degrau de escada ou outra superfície mais alta apenas com uma perna e mantendo as costas eretas).

Outra dica são exercícios aeróbicos uma vez ao dia que ajudarão no fortalecimento do tronco. “Exercícios básicos como polichinelo e caminhada na esteira ou até mesmo no próprio corredor de casa são exemplos simples que podem ajudar”, destaca o médico.

3. Atenção à postura no home office

O ideal seria que todos usassem uma cadeira ergonômica, que possui um encosto projetado para se adaptar melhor a curvatura da coluna. Mas para quem não tem cadeiras deste tipo em casa, é possível fazer adaptações para que a tela do computador esteja sempre na altura dos olhos e sempre que possível o corpo esteja em um ângulo de 90 graus (idealmente).

A regra é manter as costas retas, antebraços apoiados sobre o tampo, coxas em 90 graus em relação ao tronco, joelhos e pés também a 90 graus, assim como o ângulo entre o pescoço e o queixo. Os pés devem ainda ser bem apoiados no chão e, eventualmente, podem ser estendidos para a frente – nunca para trás. “Evite inclinar o pescoço e/ou aproximá-lo ao peito, pois essas posições podem gerar tensões nos ombros e nas costas”, orienta Christina.

4. Faça pausas

Ficar muito tempo na mesma posição prejudica não apenas a coluna, mas também a circulação. “Bastam cinco minutos de intervalo a cada 40 minutos sentado para driblar a sobrecarga na articulação”, afirma Christina. Dar uma volta, alongar-se e até mesmo deitar por um breve momento pode evitar dores e lesões, reduzindo a pressão nos discos vertebrais e as tensões na coluna. A especialista ressalta que a coluna é um dos pontos onde mais se sente dor, mas existem outras regiões que também merecem atenção, como ombros, punhos e panturrilhas. “Alongá-las ajuda muito a prevenir futuras dores”, sugere.

De acordo com o Dr Pedro, é muito importante evitar ficar mais de 1 hora sentado em frente à tela (isso vale também para o retorno ao escritório). “Pequenas pausas, mesmo de 5 minutos com alongamentos leves e uma caminhada no corredor, são suficientes para assegurar a nutrição dos discos vertebrais que são os amortecedores da coluna”, ressalta.

5. Ajuste o local de trabalho

Como não é possível mudar a altura da mesa, Christina aconselha o uso de uma cadeira de altura regulável (ou uma almofada para adaptar a altura), com um bom apoio para os braços e toda a coluna. Deve-se deixar, no mínimo, 20 cm entre a mesa e o assento da cadeira. Pessoas de baixa estatura precisam, ainda, providenciar um apoio para os pés. A altura do monitor deve ser ajustada de forma que a porção superior da tela permaneça na altura da linha visual, possibilitando uma boa visão sem a necessidade de projetar o pescoço para frente. A distância da tela deve ser de 40 a 70 cm, já sentado. “A iluminação também é importantíssima, pois com uma luz fraca, a pessoa tende a se inclinar em relação à tela”, adverte a fisioterapeuta.

Prepare o corpo: movimente-se

Segundo a especialista, ao acordar, os músculos não estão preparados para movimentos, por isso, antes de tudo, ela aconselha respirar fundo, se espreguiçar e realizar alongamento da musculatura do tronco, dos braços e das pernas. “Com isso, ativamos os sistemas do nosso corpo, de forma gradativa”, explica.

Segundo a especialista, uma das melhores maneiras de preservar a coluna é ter uma boa estrutura muscular, ou seja, o equilíbrio de forças dos músculos que estabilizam a coluna vertebral minimiza a sobrecarga dessa região. “Os exercícios físicos regulares fortalecem a musculatura da coluna e melhoram a postura e podem ser feitos mais de uma vez por dia”, indica.

Em tempos de isolamento social, atividades como alongamentos, abdominais, prancha, mini-agachamento com apoio das costas na parede, flexões de  membros superiores com as mãos apoiadas na parede ou no chão utilizando o peso do próprio corpo, além de outros exercícios que podemos realizar de forma segura, sem a presença de equipamentos. 

O que fazer para aliviar a dor

Para quem já está sentindo dor ou com tensão nos músculos, Christina indica colocar uma bolsa de água quente enrolada em uma toalha na região cervical (parte posterior do pescoço) ou na região lombar (parte inferior da coluna vertebral), por até no máximo 20 minutos. “O calor auxilia na melhora da circulação local e no relaxamento dos músculos, aliviando a dor”, ensina. Porém, ela adverte que a utilização da bolsa de água quente é contra indicada para pessoas que apresentem qualquer tipo de alteração de sensibilidade na região da aplicação.

Se a dor lombar for persistente, Christina indica um posicionamento simples para relaxamento da região, por no mínimo 20 minutos: deitar-se, dobrando as pernas e colocando na região posterior dos joelhos e das pernas de dois a três travesseiros, deixando os tornozelos apoiados neles. Caso as dores persistam, deve-se buscar o atendimento médico profissional, preferencialmente virtual enquanto durar a pandemia.

Com fisioterapia online liberada, ITC oferece atendimento gratuito

O Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Coffito), por meio da Resolução nº 516, de 20 de março de 2020, permite o atendimento de fisioterapia não presencial por meio de telemedicina. Para ajudar os brasileiros que enfrentam o problema, o ITC resolveu abrir sua plataforma (www.sistemascal.com.br) para atendimento gratuito de fisioterapia a pessoas com dores musculoesqueléticas, como hérnia de disco lombar, hérnia de disco cervical, dor ciática, cervicalgia, joelho e quadril e lombalgia.

O Coffito determina que o fisioterapeuta tem autonomia para identificar quais pacientes podem ser atendidos ou acompanhados à distância. O profissional da saúde é indispensável para auxiliar na identificação dos sintomas de dor física relacionados ao isolamento social e a melhor forma para o tratamento.

No Rio, fisioterapia poderá ser incluída nas UPAs

O atendimento fisioterápico emergencial imediato poderá ser incluído nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). É o que prevê o projeto de lei 2.942/20, originalmente do deputado André Ceciliano (PT), que autoriza o Poder Executivo a implementar as Unidades de Pronta Resposta de Urgência em Fisioterapia (UPRUF). A medida foi aprovada em discussão única pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), na última quinta-feira (20/08). O projeto foi encaminhado ao governador Wilson Witzel, que terá até 15 dias úteis para sancioná-lo ou vetá-lo.

O texto obriga a presença de um fisioterapeuta 24 horas por dia nas unidades. O atendimento será destinado aos pacientes com quadro agudo de dor ou afecções cardiorrespiratórias solucionáveis por meio de fisioterapia manual e métodos e técnicas com uso de instrumental fisioterapêutico – como alergias, bronquites, crises asmáticas e quaisquer outras condições que necessitem do uso de respiradores. Com a sanção do governador, as unidades poderão ser implementadas em 2021.

A ideia do projeto é disponibilizar esse atendimento na mesma estrutura das UPAs, sempre precisar de uma estrutura física própria. Essa medida poderá trazer uma eventual redução de casos graves, de internações hospitalares e até mesmo dos custos de atendimento. Em Paracambi, onde fui prefeito, implementamos um projeto similar e vimos o impacto na vida das pessoas, muitas delas voltaram a andar e falar com os tratamentos. Fui procurado pelo Conselho de Fisioterapia e me comprometi novamente com essa pauta”, justificou Ceciliano.

Com Assessorias