Brasil ainda não começou a descer a ladeira da Covid-19

Com mais de 2 milhões de casos e quase 78 mil mortos, país está no platô, segundo a OMS. Ministério da Saúde estuda descartar uso de cloroquina para tratar Covid-19

Redação

Epicentro da epidemia crescente da América Latina, o Brasil superou nesta quinta-feira (16) os 2 milhões de infecções pelo vírus, patamar que levou apenas 27 dias para ser alcançado após o registro do primeiro milhão de casos. Com isso, continua ocupando a triste “vice-liderança” mundial no número de infecções e óbitos por Covid-19, atrás apenas dos Estados Unidos.

Apesar dos números elevados, nesta sexta-feira (17) a Organização Mundial da Saúde (OMS) destacou que o Brasil conseguiu deter o crescimento exponencial da doença e verificou uma estabilização na contagem de casos, o que indica um platô, mas ainda “não está descendo a montanha”, ou seja, reduzindo de maneira firme o número de casos.

Em meio à indignação generalizada – até mesmo por parte de muitos se seus eleitores – com a maneira como o presidente Jair Bolsonaro está lidando com a pandemia novo coronavírus, o país segue registrando 40.000 a 45.000 por dia e as mortes diárias estão em torno de 1.300. Cerca de 11% das infecções do país acontecem entre profissionais de saúde.

Não estamos vendo os aumentos diários que vimos nos meses de abril e maio. Nós vimos uma taxa muito elevada de crescimento, e em meados de junho e a partir de julho temos visto o platô ocorrendo”, disse o chefe do programa de emergências da OMS, Mike Ryan, em entrevista coletiva.

Por isso, o Brasil ainda está basicamente no meio da luta. O que ainda não está acontecendo é que a doença ainda não virou, e não está descendo a montanha. Desta perspectiva, os números se estabilizaram, mas o que eles não fizeram é começar a cair de uma maneira sistemática dia a dia”, disse ele em uma coletiva de imprensa.

A reprodução, ou “R” — o número de pessoas que cada pessoa infectada passa a infectar— agora parece estar entre 0,5 e 1,5 nos estados, disse Ryan. Há menos de duas semanas, o país passava de duas pessoas infectadas a cada um contaminado.

Existe uma oportunidade, assim que estes números tiverem se estabilizado, de impulsionar a transmissão para baixo. Acho que agora existe a oportunidade de o Brasil fazer isso. Mas será preciso uma ação muito coordenada e sustentada para isso ocorrer”, disse.

Enquanto não enxerga o começo da queda nos casos, o governo federal dá sinais de que pretende desistir da cloroquina e da hidroxicloroquina para tratar a Covid-19. O Ministério da Saúde afirmou nesta sexta-feira (dia 17) que avalia diariamente as novas evidências relativas aos possíveis tratamentos para a doença e reconheceu que provavelmente mudará suas orientações sobre o uso das duas substâncias, depois que a Sociedade Brasileira de Infectologia cobrou que os medicamentos sejam abandonados no tratamento de qualquer fase da doença.

Estamos vendo quais são as evidências mais novas publicadas na literatura universal, então já somamos mais de 1 mil evidências em quase 70 boletins de evidências científicas, esses boletins são atualizados diariamente. E se mudará as orientações? Provavelmente sim. A ciência, ela muda dia após dia”, disse Hélio Angotti Neto, secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos do ministério, em entrevista coletiva.

Ele não detalhou qual tipo de mudança de orientação pode ser feita pelo ministério. Atualmente, o Ministério da Saúde recomenda o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina para o tratamento da Covid-19 em todas as etapas da doença, apesar da falta de comprovação científica de eficácia.

Mais cedo, a Sociedade Brasileira de Infectologia divulgou um informe em que disse ser urgente e necessário que a hidroxicloroquina seja abandonada no tratamento de qualquer fase da Covid-19, citando dois estudos internacionais divulgados nesta semana que se somaram a outros afirmando que o medicamento não é eficaz contra a Covid-19 e pode provocar efeitos colaterais.

Nenhuma organização, entidade de especialistas ou publicação científica recomendou até hoje o tratamento com hidroxicloroquina para a Covid-19. Há países como os Estados Unidos, inclusive, que antes defendiam o uso da droga, mas passaram a não recomendá-la .

Desde que contraiu o novo coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), tem defendido o uso da hidroxicloroquina,  tomando comprimidos inclusive durante as transmissões ao vivo que ele tem feito nas redes sociais durante seu isolamento.

São Paulo, Ceará e Rio de Janeiro concentram mais casos

São Paulo segue como o Estado brasileiro mais afetado pela doença, atingindo as marcas de 407.415 casos e 19.377 óbitos. O governo paulista estima que o Estado chegará ao final de julho com entre 510 mil e 600 mil casos, enquanto o número total de mortes no fim do mês é projetado entre 21 mil e 26 mil.

Ceará e Rio de Janeiro dividem o segundo lugar da lista divulgada pelo Ministério da Saúde. Embora o Estado nordestino tenha mais casos (145.938 infecções, 7.165 mortes), o Rio possui maior número de óbitos (135.230 casos, 11.919 mortes).

O Pará —que está bem próximo do Rio de Janeiro em relação à quantidade de casos—, a Bahia e o Maranhão são os outros três Estados do país que possuem mais de 100 mil infecções confirmadas. O Brasil conta com 1.321.036 pacientes recuperados da Covid-19, além de 647.441 em acompanhamento, segundo o Ministério da Saúde. A taxa de letalidade da doença no país é de 3,8%.

1 milhão de casos em apenas 4 dias em todo o mundo

As infecções globais por coronavírus passaram de 14 milhões na sexta-feira, segundo contagem da Reuters, marcando a primeira vez em que houve um aumento de 1 milhão de casos em cerca de 100 horas. O primeiro caso foi relatado na China no início de janeiro e levou três meses para se atingir 1 milhão de casos. Foram necessários apenas quatro dias para subir de 13 milhões, no dia 13 de julho, para 14 milhões de casos agora.

Os Estados Unidos, com mais de 3,6 milhões de casos confirmados, ainda estão tendo enormes saltos diários em sua primeira onda de infecções por Covid-19. Os EUA registraram um recorde global diário de mais de 77.000 novas infecções na quinta-feira, enquanto a Suécia teve 77.281 casos no total desde o início da pandemia.

Fonte: Reuters, com Redação

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