Cancelamento: que cultura é essa que nos dá autoridade para julgar alguém?

Na estreia de sua coluna mensal no ViDA & Ação, doutora em Psicanálise Andrea Ladislau explica sentimentos do cancelado e do cancelador

Por Andrea Ladislau*

Eu cancelo, tu cancelas, eles nos cancelam… Ao pé da letra, a etimologia da palavra “cancelar” remete ao verbo inutilizar, banir. Mas o que significa cancelar nos dias de hoje? Cancelar é um verbo que define o ato de suspender um serviço, um dispositivo, uma ação ou qualquer outra questão. Já a “cultura do cancelamento” – da qual muito se tem falado ultimamente nas redes sociais – traz essa reflexão para questões muito mais amplas, que evidenciam a supressão da fala, reduzindo “a vítima” a um objeto ou uma coisa.

Mas a pergunta que não quer calar é: que cultura é essa atribui às pessoas uma suposta autoridade para acusar, julgar, apontar dedos, “cancelar” alguém? Quem nos dá esse direito? Onde está escrito que podemos inutilizar o outro? De alguma forma, estamos reduzindo a vítima a um objeto, suprimindo sua fala e expressão pessoal.

Não se pode negar que, com o fortalecimento das mídias sociais e o advento da internet, principalmente em tempos de pandemia, benefícios consideráveis foram ofertados ao indivíduo, propiciando uma maior interação tecnológica. Em uma velocidade de crescimento quase surreal, estamos cada vez mais próximos do outro, mesmo que seja pelas telas. Além disso, as informações do mundo inteiro, em tempo real e na velocidade da luz, estão a um clique.

Novos entretenimentos, milhares de cursos on-line, entre outras inúmeras possibilidades virtuais, fazem parte do dia a dia do ser humano. Mas nem tudo são flores. O excesso de exposição – aliado a uma latente necessidade de pertencimento, movimentado por uma explosão de temas sensíveis no que diz respeito ao cunho social – aqueceu esse caldeirão e promoveu a famosa cultura do cancelamento, ou o chamado linchamento virtual. 

Andrea Ladislau, doutora em Psicanálise, explica os transtornos que cancelamento pode causar (Foto: Divulgação)

A violência psicológica dos tempos modernos

A modernidade tecnológica incluiu essa consequência de cancelamento em momentos nos quais contrariamos as preferências e o posicionamento de uma maioria. Psicanaliticamente falando, é uma forma de justiça narcísica, feita a partir do intelecto de uma massa vingativa, acarretando consequências psíquicas relevantes na vida de uma pessoa – pois pode comprometer as construções mentais e interferir no “modus operandi” de suas relações interpessoais.  

Virtualmente, provocando essa exposição insana, podemos classificar a cultura do cancelamento como um tipo de violência psicológica dos tempos modernos, já que em função da intolerância e criticidade do assunto, o cancelado pode desenvolver sintomas psicológicos moderados ou graves, como: depressão, fobias, pânicos, baixa autoestima, complexo de inferioridade e, conforme a gravidade do fato, desejos suicidas. Questionar ou destruir a reputação de uma pessoa é muito sério. A mensagem passada com os ataques virtuais é, muitas das vezes, de que o outro é “desnecessário”, assim como uma senha ou uma assinatura de revista quando cancelada. 

Aprofundando nas interações das redes, o que se percebe é que estas se transformaram em um grande tribunal de julgamentos. Ninguém escapa da opinião e da vocalização pública, principalmente se o alvo é uma celebridade. Temas sensíveis como racismo, preconceitos, sexualidade e questões de gênero, política e ideologias, racismo reverso, entre outros, tornaram-se muito mais atrativos e atuais – e são utilizados como armas para ataques pessoais. São temas delicados servindo de pano de fundo para a condenação e exposição em massa da fala do outro.

Onde está o erro em pensar ou ser diferente de mim?

Essa espécie de linchamento público, de uma personalidade ou uma pessoa comum, dá ao opressor ares de superioridade moral, gerando a falsa impressão de que ele está sempre correto, que não erra nunca e que, por isso, tem total autoridade para classificar o outro como um ser irrelevante, negando sua pertinência e eliminando a sua força representativa no meio social em que vive.

Infelizmente, este novo comportamento traz à tona uma cultura na qual a real necessidade é erguer muros separatistas e tornar invisível aquele que é diferente de mim, seja nas ações ou nos pensamentos. E onde está o erro em alguém pensar ou ser diferente de mim? Todos precisam validar minhas idéias? Comprar minha ideologia? Só eu tenho razão?

Claro que um indivíduo que tenha cometido crimes, infringido a lei e as regras sociais, este deve pagar por seus erros pelas mãos do Estado Democrático e da justiça social, não pelas mãos da sociedade e de um ou outro indivíduo que vai utilizar o mundo virtual para promover linchamentos.

Se o “cancelado” é culpado ou não, isso não nos cabe aqui. O sentido da análise é a prática do cancelamento e suas consequências psicológicas na vida de um determinado personagem, esclarecendo de que forma isso poderá afetar suas construções mentais ou até mesmo, suas relações interpessoais.

A cultura do cancelamento, tão evidente nos últimos tempos, principalmente na internet, parte do princípio de que aquele indivíduo contraria as preferências e o posicionamento de uma maioria que, “por associação”, usa esse instrumento para eliminar o sujeito da vida digital e do coletivo.

Enfim, o linchamento virtual de um indivíduo, seja uma pessoa pública ou não, sedimenta a mentalidade de substituição e exclusão do ser, transformando o humano em um objeto que pode ser eliminado ou descartado de maneira muitas vezes implacável e cruel.

Quem é o cancelado e quem é o cancelador?

De forma mais clara, temos de um lado o “cancelador”, que ativa suas sensações de prazer inconsciente ao julgar com requintes de perversidade; e do outro, o “cancelado” – a qual amarga a desconstrução da própria imagem e da credibilidade através dos apontamentos, sendo banido da vitrine virtual, com grande repercussão na vida pessoal e profissional.

Analisando os envolvidos , em muitos casos temos a aplicação do prazer na ação do cancelador, uma vez que cancelar também pode ser uma forma de excluir a identificação com aquela determinada pessoa. E neste sentido, trazendo para o inconsciente, identificar é espelhar-se, e ao cancelar estamos dizendo que não nos espelhamos. Aqui entra uma sensação prazerosa de autenticidade, um reconhecimento de si mesmo.

O cancelador, em sua maioria, é um personagem extremamente crítico e intolerante. E cancelar neste sentido significa o mesmo que dizer “não preciso mais de você”, assim como cancelo uma senha ou uma assinatura de revista por não precisar mais.

Já o “cancelado” fica com a parte da desconstrução da imagem própria, o medo dos apontamentos e a sensação de ser banido do social, banido da vitrine virtual ou banido de suas relações. O maior risco é que venha a desenvolver transtornos e sintomas psicológicos irreversíveis em função do cancelamento sofrido.

A busca por perfeição passa a ser perseguida pelos cancelados. Uma busca insana que impede a pessoa de reconhecer e gerenciar seus defeitos. Uma luta interna que leva à frustração e que pode desencadear conflitos mentais importantes, afetando a saúde mental do indivíduo.

Em geral, o uso da prática de represália diz muito mais do “cancelador” do que do “cancelado”, pois a ação punitiva cerceia o diálogo e impõe amarras sociais que geram conflitos externos e internos (como a depressão e o isolamento), transformando a internet em um grande tribunal.

E definitivamente, a prática do cancelamento não é favorável para o cancelador, que se torna tolerante em demasia, egocêntrico, crítico em excesso e, em muitos casos, agressivo e com dificuldades para ouvir – perdendo a noção e o bom senso, já que cancelar o outro não é cancelar somente a atitude, mas é cancelar a pessoa.

As dores que o cancelamento traz

Desejamos sempre pertencer a algum grupo, alguma tribo ou a alguma situação que nos remeta a acolhimento e cuidado, no sentido de identificação. Isso é inerente ao ser humano, mas quando essa necessidade é afetada, principalmente pelos julgamentos, descortinamos o ser reprimido e depressivo atacado pelo ódio. Sentimos na pele o abandono e o desprezo. E não há nada de benéfico nisso.

Na prática, o cancelamento ou linchamento promove a destruição de reputações e instala uma atmosfera de julgamento coletivo que se soma a uma extorsão social capaz de dissolver, em pouquíssimo tempo, uma imagem construída. Dá inclusive aos ‘canceladores’ o poder opressor de instaurar uma pressão psicológica, fobia e hesitação dos julgamentos, além da baixa autoestima, do complexo de inferioridade e da aniquilação da fala e do diálogo.

O que se observa na prática é que a cultura do cancelamento alimenta o isolamento e pode provocar o crescimento das relações tóxicas e nocivas, sempre recheadas por mentes rancorosas, magoadas e ressentidas, cobertas por emoções negativas e desgastantes em detrimento ao amor, ao perdão e a empatia.

Portanto, não é exagero afirmar que o cancelamento impede o desenvolvimento saudável do outro, pois ceifa o amadurecimento tanto de quem cancela, quanto de quem é o cancelado. Ele ofusca a visão e remete a irrealidade e fantasia. Afinal: ninguém é 100% correto. A vida não é 100% feliz e perfeita.

A proposta de maquiagem da vida real deturpa fatos e funciona como um balaio de desequilíbrios mentais que, se não tratados e eliminados, podem levar o indivíduo a graves oscilações de comportamento e a falha no gerenciamento emocional.

No entanto, a cultura do cancelamento, em resumo, evidencia relações humanas caracterizadas por pressões psicológicas violentas e sádicas, pressupondo a culpa imediata. Porém, essa caça às bruxas generalizada pode afetar a vida profissional e pessoal de uma pessoa, escalando sintomas psíquicos graves que precisam ser controlados com o objetivo de se evitar consequências desastrosas na saúde mental.

Ao ser desaprovado “injustamente” ou de forma exposta, podemos desenvolver transtornos depressivos severos e sintomas que precisam ser acolhidos por um profissional de saúde mental para nos auxiliar no resgate da fala e da autoestima. Somos seres com necessidades constantes de pertencimento.

A imposição do certo e errado oprime e julga. Condena e exclui. Discursos imaginários que trazem a imposição de um ponto de vista único tido como o correto, propagando intolerância a tudo o que diverge do que está sendo proposto, infantilizando a fala e reduzindo o outro a um mero “pecador”, “criminoso” ou “desviado”. E dentro deste massacre virtual, temos a exposição desse ser humano oprimido e julgado que se sente excluído e acuado. Sentimentos que, consequentemente, podem trazer sérios danos mentais.

Os transtornos e sintomas causados pelo cancelamento

Inevitavelmente, evidencia-se o surgimento de transtornos e sintomas psicológicos irreversíveis decorrentes deste cancelamento, pois dentro deste massacre virtual, temos a exposição desse ser humano oprimido e julgado que se sente excluído e acuado – e que ao ser desaprovado “injustamente” ou de forma exposta, pode desenvolver transtornos depressivos severos e sintomas que precisam ser acolhidos por um profissional de saúde mental para auxiliar no resgate da fala e da autoestima. 

A grande verdade é que, por sermos seres com necessidades constantes de pertencimento, estamos sempre em busca do acolhimento e cuidado, no sentido da identificação. Isso é inerente ao ser humano, mas quando essa necessidade é afetada, principalmente pelos julgamentos, descortinamos o ser reprimido e depressivo atacado pelo ódio. Sentimos na pele o abandono e o desprezo. E não há nada de benéfico nisso. Pelo contrário, essa busca insana por perfeição dificulta o gerenciamento de nossas emoções, potencializando a frustração através do ataque coletivo carregado pelo ego e pelo senso crítico. 

Enfim, relações tóxicas geradas por uma modernidade mal administrada, que não leva em conta o ser individualizado e não observa os limites de suas atuações. Mentes rancorosas, magoadas e ressentidas, cobertas por emoções negativas e desgastantes em detrimento ao amor, ao perdão e a empatia. Um solo fértil para o surgimento de doenças psíquicas, como transtornos de ansiedade generalizada, depressão, bipolaridades, transtornos de pânico e fobias diversas.

Um verdadeiro balaio de desequilíbrios mentais, afetando tanto quem cancela, quanto quem é cancelado, em meio ao tribunal da internet. Uma caça às bruxas generalizada que pode, como consequência, afetar desastrosamente a vida profissional e pessoal de uma pessoa, escalando sintomas psíquicos graves que precisam ser controlados com o objetivo de se evitar maiores danos ao psicológico.

Portanto, a ajuda de um profissional de saúde mental é imprescindível, uma vez que, através de ferramentas específicas, é possível ressignificar a frustração e os medos, blindando o indivíduo e elevando sua autoestima para que este consiga gerenciar os sentimentos de rejeição, as culpas, os julgamentos, além de favorecer a percepção real de que o mundo sempre irá apresentar desafios. Afinal, a vida fora da vitrine virtual não é um céu de brigadeiros.

*Andrea Ladislau é graduada em Letras e Administração de Empresas, pós-graduada em Administração Hospitalar e Psicanálise e doutora em Psicanálise Contemporânea. Possui especialização em Psicopedagogia e Inclusão Digital. É palestrante, membro da Academia Fluminense de Letras e escreve para diversos canais. Na pandemia, criou o grupo Reflexões Positivas. um canl no Whatsapp para apoio emocional a diferentes públicos. Confira seu perfil no Instagram aqui.

(NOTA DA REDAÇÃO – Andrea colabora para a seção Palavra de Especialista toda última quarta-feira do mês. palavradeespecialista@vidaeacao.com.br.

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