Cannabis medicinal pode ser esperança para portadores de fibromialgia

Estudos mostram importante ação da substância na dor crônica. Preocupados com coronavírus, muitos pacientes crônicos deixam de buscar ajuda médica por medo de contaminação

Cannabis Cannabis sativa: planta que dá origem à maconha movimenta indústria e pesquisa científica (Foto: Flickr)
Mais de 150 milhões de pessoas sofrem de fibromialgia no mundo, entre dois e quatro por cento da população mundial. No Brasil, segundo o estudo A prevalência da Fibromialgia no Brasil* se estima que existam 4 milhões de pacientes. Destes, entre 75% e 90% dos afetados são mulheres. Fibromialgia é lembrada neste 12 de maio , dia mundial da doença.
Entre os principais sintomas da fibromialgia estão as dores intensas e incapacitantes, sem causa aparente e que frequentemente causam dificuldades na obtenção de um diagnóstico. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) , a doença causa dor crônica disseminada por vários pontos do corpo, especialmente tendões e articulações, além de fadiga, distúrbios de sono e alterações de humor.
fibromialgia é uma condição médica complexa que é normalmente tratada pela melhoria da qualidade do sono, diminuição da massa corpórea (por meio de exercício regular) e diminuição da dor. A cannabis pode ter um papel essencial no tratamento da fibromialgia porque atua no distúrbio do sono e no tratamento da dor crônica.
De acordo com o médico e diretor associado global da Spectrum Therapeutics, Wellington Briques, por causa da pandemia da Covid-19 muitos pacientes, incluindo os que sofrem de dores crônicas, pararam de buscar ajuda médica. “A epidemia faz com que muitos diagnósticos atrasem, pois as pessoas tem medo de buscar ajuda médica. Por isso é importante reforçar o conhecimento das doenças, como é o caso da fibromialgia“, afirma o especialista.
Entre os mais recentes estudos do combate à fibromialgia, os produtos medicinais à base de cannabis vêm se mostrando potenciais aliados no tratamento dos sintomas. “Há um estudo recente que eu utilizo como referência. Publicado este ano de 2020 pelo Clinical and Experimental Rheumatology , o estudo Adding medical cannabis to standard analgesic treatment for fibromyalgia conclui que a terapia com cannabis medicinal oferece uma possível vantagem clínica em pacientes com Fibromialgia, especialmente naqueles com disfunções do sono.
Embora na prática clínica se observem melhorias significativas nos sintomas da fibromialgia com o uso dos canabinóides, são necessários mais estudos para determinar o perfil e as dosagens adequadas do produto”, completa o especialista, que é diretor médico da divisão de medicina canabinóide da Canopy Growth, multinacional do setor de cannabis.
O médico reforça os benefícios dos canabinóides para o controle da dor crônica em geral. Segundo um levantamento recente do Ministério da Saúde, a prevalência de dor crônica variou de 29% a 73% em diferentes estados brasileiros, tendo afetado mais mulheres que homens e sendo a região dorsal/lombar o alvo das queixas mais frequentes.
Os índices são alarmantes e preocupantes, especialmente em uma época de pandemia, onde os serviços de saúde estão sofrendo uma enorme pressão. É preciso buscar novos tratamentos, com mais benefícios e menos efeitos colaterais, e os canabinóides têm se mostrado uma boa opção para a maioria dos casos”, completa.

O uso medicinal do canabidiol e seu papel no tratamento de doenças

O Canabidiol (CBD) é uma substância extraída da Cannabis sativa, que tem aplicações medicinais registradas ao longo da história. Em 2.700 a. C., na China, utilizava-se a planta para terapia de constipação intestinal, dores, malária, epilepsia, tuberculose e outras doenças. Depois, por volta de 1.000 a. C., na Índia, foi administrada no tratamento de ansiedade, manias e histeria. No início do século XX, seus extratos foram comercializados na Europa para tratar desordens mentais. Porém, o desconhecimento sobre a Cannabis e suas propriedades, e até mesmo por preconceito, seu uso terapêutico diminuiu.

Apenas na década 60, com o avanço da tecnologia e da medicina, o professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, Raphael Mechoulam, isolou os componentes da planta e descobriu o canabidiol. E, na ocasião, ele verificou que a substância não tem propriedade psicoativa, ou seja, o CBD não causa efeitos sobre a atividade psíquica ou comportamental. Essa informação foi reafirmada em 2017, no relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS). No documento foi registrado, que “o canabidiol (CBD), molécula não psicoativa da planta Cannabis Sativa L., não é uma substância perigosa, pelo contrário, apresenta um potencial terapêutico alto”.

O que é respaldado por um estudo sobre o efeito do CBD em oito pessoas epiléticas, realizado em 1980, por Raphael Mechoulam e investigadores da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Os cientistas administraram 300 miligramas da substância por quatro meses nos pacientes. Desses, em quatro, as convulsões sessaram completamente e em outros três a frequência dos ataques diminuíram consideravelmente. Infelizmente, apesar dos resultados positivos, as pesquisas, na época, não motivaram mais investigações sobre o tema.

Entretanto, o CBD continuou a ser estudado. Em 1988, Allynn Howlett e William Devabe descobriram a existência de receptores celulares para substâncias da cannabis no organismo de ratos. Posteriormente, essa presença também foi evidenciada em outros animais, incluindo o homem. Junto a essa descoberta, substâncias semelhantes às encontradas na planta foram identificadas, os endocanabinoides – produzidas pelo próprio corpo.

O responsável pela fabricação e degradação foi denominado de Sistema Endocanabinoide (SEC). Ele está envolvido na regulação de diversas funções orgânicas como: apetite, digestão, dor, humor, inflamação, memória, metabolismo, proteção e desenvolvimento dos neurônios, imunidade e outras.

Tendo em vista a gama de atuações dos canabinoides e seu passado como planta medicinal, hoje, o CBD vem sendo pesquisado e aplicado no tratamento de diversas doenças neurológicas, psiquiátricas, inflamações, dores e bem-estar.

Em países onde a Cannabis Sativa é legalizada para fins medicinais, como a Argentina, Austrália, Canadá, Chile, Colômbia, Estados Unidos, Israel, Uruguai e em quase toda a Europa, óleos à base de CBD são receitados para: epilepsia, esclerose múltipla, mal de Alzheimer, mal de Parkinson, ansiedade, dor crônica, fibromialgia, depressão, obesidade, glaucoma, inflamações intestinais, artrite e estresse pós-traumático.

No Brasil, o Hospital Sírio-Libanês divulgou, em junho de 2019, um estudo, no qual dois pacientes com tumores malignos de difícil controle foram tratados com canabidiol, além da radioterapia e da quimioterapia padrão. Um mês após o tratamento, um deles apresentou uma ‘remissão completa’ – termo da Medicina para caracterizar quando não há sinais de atividade da doença, apesar de não ser possível identificar como cura.

E, o outro teve uma pseudo-progressão, que segundo os pesquisadores mostrava que o tratamento estava funcionando. Os pacientes relataram que o CBD amenizou os sintomas de dor, náusea, vômito e fadiga, possibilitando uma condição clínica favorável e a prática de atividades físicas.

Com tantos benefícios, o acesso aos medicamentos à base de CBD é cada vez mais importante. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) regulamentou em dezembro de 2019, o registro destes produtos e a venda em farmácia sob prescrição médica. O cultivo da planta Cannabis segue proibido. Atualmente, mais de 4,5 milhões de brasileiros, sofrem com doenças que podem ser tratadas com CBD.

Com Assessorias

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