‘Carta Para Além dos Muros’: uma cronologia da epidemia de Aids

Livro, série de TV e agora documentário com data de estreia prevista para abril de 2019 debate evolução do tratamento antirretroviral e os desafios do estigma e da discriminação

Redação

O Dia Mundial de Luta Contra a Aids (1º de dezembro) já é lembrado há 30 anos no Brasil, desde que o fantasma da doença sem cura começou a assustar muita gente. Até os dias de hoje, quando se fala em HIV, muita gente ainda pensa na epidemia de Aids que vitimou milhões de pessoas em todo o mundo nos anos 1980 e 1990. Vivemos com a perigosa percepção de que a Aids é ‘coisa do passado’.

De fato, com a evolução do tratamento, muitas pessoas vivendo com HIV têm a oportunidade de passar uma vida toda sem jamais desenvolver a síndrome conhecida como Aids. Mesmo assim, o estigma, a discriminação e a desinformação ainda cercam o tema, trazendo consigo consequências trágicas como o aumento da epidemia entre jovens e a discriminação flagrante de pessoas que vivem com HIV como se fossem párias dentro de nossa sociedade, sujeitas a situações de vergonha e exclusão.

Com data de estreia prevista para abril de 2019, o documentário ‘Carta Para Além dos Muros’ refaz a cronologia da epidemia de Aids no Brasil através de um debate envolvente sobre a evolução do tratamento antirretroviral e os desafios que ainda enfrentamos em relação ao estigma e discriminação.  É, acima de tudo, um caminho investigativo sobre esses preconceitos, silêncios e falhas.

O filme do diretor André Canto integra o projeto Olhares – HIV e Aids no Brasil, que conta ainda com uma série para a televisão e um livro sobre o mesmo tema, acaba de ganhar trailer no Youtube – confira!

O mesmo mistério de 35 anos atrás

Produzido pela Canto Produções, o documentário investiga o porquê da evolução no tratamento do HIV não vir acompanhada da mudança de mentalidade em relação à infecção. Um dos depoimentos retratados no filme, da imunologista Márcia Rachid, resume bem este desafio: “Falar de HIV hoje tem o mesmo mistério de 35 anos atrás. Não pode!”.

Na sua primeira direção, Canto entrevistou especialistas, pessoas que vivem com HIV, personalidades e autoridades. Estão no documentário nomes como os ministros da Saúde que foram chave para que o Brasil se tornasse uma referência na resposta à epidemia, José Serra e José Gomes Temporão; os médicos Dráuzio Varella, Ricardo Tapajós, Ricardo Vasconcelos e Rosana Del Bianco; a apresentadora Marina Person; Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, além de jovens que se tornaram a nova voz desta epidemia, entre tantos outros entrevistados.

“Contar a história da epidemia de Aids significa tocar nos medos e nas memórias soterradas de pelo menos duas gerações. Dezenas de milhões de pessoas chegaram à vida adulta no Brasil dominadas pelo pavor de serem infectadas pelo HIV. Os gays viveram um medo duplo, tanto pela doença, que no início os afetava quase que exclusivamente, quanto pela discriminação que já sofriam. Uma combinação que só contribuiu para aumentar ainda mais o clima de incompreensão acerca do HIV”, explica Canto.

Segundo ele, apesar de todos os avanços no tratamento e no entendimento da doença, muito desse medo e dessa incompreensão ainda persistem. “O filme não é um trabalho psicanalítico, nem um relatório informativo sobre o HIV e a Aids. Ele se propõe a ser um estopim, para tocar algo que permanece inconsciente no espectador, para mobilizá-lo, para instigá-lo a uma reflexão importante e incontornável sobre o HIV em nossa sociedade, para provocar uma mudança de postura e perspectiva sobre a história da Aids e sobre a realidade atual do HIV.

Filmes dos anos 90 e 90: a doença como catástrofe

Durante o auge da doença, nos anos 80 e 90, a presença de filmes que tratavam sobre o assunto era comum nas salas de cinema, muitas produções possuíam um viés catastrófico que a epidemia pedia. Hoje em dia o tom das produções mudou, o foco está na representação desses personagens no cotidiano, mostrando que eles existem e coexistem na sociedade, agora que já é sabido que o vírus não tem preferência por raça, sexo ou orientação sexual.

Como Ler – e também Ver – Faz Bem para a saúde, trazemos uma lista de filmes e séries que tratam da doença para você assistir. E vale a pena ficar de olho para assistir esse documentário assim que ganhar as telas do cinema!

Foto: Reprodução

Meu Querido Companheiro (1990)

Direção: Norman René

Grupo de amigos gays passa a demonstrar sinais de preocupação com as primeiras notícias de jornal falando sobre a AIDS. Logo alguns deles apareçam seriamente doentes. Em questão, as dúvidas, a maneira como encarar o futuro e a importância da solidariedade.

Filadélfia (1993)

Direção: Jonatham Demme

Andrew Beckett (Tom Hanks) é um promissor advogado que trabalha para um tradicional escritório da Filadélfia. Após descobrirem que ele é portador do vírus da AIDS, Andrew é demitido da empresa. Ele contrata os serviços de Joe Miller (Denzel Washington), um advogado negro que é homofóbico. Durante o julgamento, este homem é forçado a encarar seus próprios medos e preconceitos.

Foto: divulgação/ Reprodução

Kids (1995)

Direção: Larry Clark

Nova York serve de cenário para mostrar o conturbado mundo dos adolescentes, que indiscriminadamente consomem drogas e quase nunca praticam sexo seguro. Um garoto, que deseja só transar com virgens, e uma jovem, que só teve um parceiro, mas é HIV soropositivo, servem de base para tramas paralelas, que mostram como um adolescente pode prejudicar seriamente sua vida se não estiver bem orientado.

Foto: Divulgação/ reprodução

Cazuza (2004)

Direção: Sandra Werneck e Walter Carvalho

A vida louca que marcou o percurso profissional e pessoal de Cazuza (Daniel de Oliveira), do início da carreira, em 1981, até a morte em 1990, aos 32 anos: o sucesso com o Barão Vermelho, a carreira solo, as músicas que falavam dos anseios de uma geração, o comportamento transgressor e a coragem de continuar a carreira, criando e se apresentando, mesmo debilitado pela AIDS.

Foto: Reprodução

Yesterday (2004)

Direção: Darrell Roodt

Rooihoek, um lugarejo da África do Sul. Yesterday (Leleti Khumalo) é uma analfabeta que mora com Beauty (Lihle Mvelase), sua filha. O marido trabalha nas minas em Johannesburg e, por serem muito pobres, Yesterday tenta economizar todo o dinheiro possível. Ela não se sente bem e, após muitas tentativas, consegue ser atendida. A médica fica preocupada com a saúde dela e pede um exame de sangue. A suspeita se confirma e ela está com AIDS. Mesmo assim ela não esmorece e diz que a doença só a levará embora após ver Beauty ir para o colégio.

Preciosa (2009)

Direção: Lee Daniels

1987, Nova York, bairro do Harlem. Claireece “Preciosa” Jones (Gabourey Sidibe) é uma adolescente de 16 anos que sofre uma série de privações durante sua juventude. Violentada pelo pai (Rodney Jackson) e abusada pela mãe (Mo’Nique), ela cresce irritada e sem qualquer tipo de amor. O fato de ser pobre e gorda também não a ajuda. Além disto, Preciosa tem um filho apelidado de “Mongo”, por ser portador de síndrome de Down, que está sob os cuidados da avó. Quando engravida pela segunda vez, Preciosa é suspensa da escola. Lichtenstein (Nealla Gordon) consegue para ela uma escola alternativa, que possa ajudá-la a melhor lidar com sua vida. Lá, Preciosa encontra um meio de fugir de sua existência traumática, se refugiando em sua imaginação.

Foto: Divulgação/reprodução

Clube de Compras Dallas (2013)

Direção: Jean-Marc Vallée

Em 1986, o eletricista texano Ron Woodroof (Matthew McConaughey) é diagnosticado com AIDS e logo começa uma batalha contra a indústria farmacêutica. Procurando tratamentos alternativos, ele passa a contrabandear drogas ilegais do México.

Foto: Divulgação

Boa Sorte, João (2014)

Direção: Carolina Jabor

O adolescente João (João Pedro Zappa) tem uma série de problemas comportamentais: ele é ignorado pelos pais e se torna agressivo com os amigos de escola. Quando é diagnosticado com depressão, seus familiares decidem interná-lo em uma clínica psiquiátrica. No local, ele conhece Judite (Deborah Secco), paciente HIV positivo e dependente química, em fase terminal. Apesar do ambiente hostil, os dois se apaixonam e iniciam um romance. Mas Judite tem medo que a sua morte abale a saúde de João.

Foto: Divulgação 

The Normal Heart (2014)

Direção: Ryan Murphy

1981. Uma doença misteriosa se alastra pelos Estados Unidos, com alto grau de mortalidade: cerca de 50% dos infectados acabam falecendo. Como a imensa maioria é homossexual, ela logo é apelidada de “câncer gay” e, por preconceito, não recebe a devida atenção do governo norte-americano. Decidido a fazer com que as pessoas tomem conhecido sobre a epidemia causada pela AIDS, o escritor Ned Weeks (Mark Ruffalo) decide ir aos diversos veículos de comunicação para falar sobre o tema.

Foto: Divulgação

How to Get Away with a Murder (2014)

Criador: Peter Nowalk

Annalise Keating, professora de direito na Universidade de Middleton e advogada de defesa criminal, seleciona cinco estudantes para trabalhar com ela. Enquanto resolvem casos e lidam com problemas em suas vidas pessoais, a vida de cada um deles vira de cabeça para baixo quando um assassinato que já vinham investigando se transforma em um novo assassinato, só que desta vez o sangue está em suas mãos.

Foto: Reprodução (Netflix)

Elite (2018)

Criação: Carlos Montero, Darío Madrona

Após três jovens da escola pública serem transferidos para um conceituado colégio de elite, o conflito entre classes acaba levando a um assassinato. Uma das personagens principais, Marina, é portadora do HIV.

Foto: divulgação

Bohemian Rhapsody (2018)

Criador(es): Bryan Singer

Freddie Mercury (Rami Malek) e seus companheiros Brian May (Gwilyn Lee), Roger Taylor (Ben Hardy) e John Deacon (Joseph Mazzello) mudam o mundo da música para sempre ao formar a banda Queen, durante a década de 1970. Porém, quando o estilo de vida extravagante de Mercury começa a sair do controle, a banda tem que enfrentar o desafio de conciliar a fama e o sucesso com suas vidas pessoais cada vez mais complicadas.

carta para além dos muros – Sinopse

Carta Para Além dos Muros reconstrói a trajetória do HIV e da Aids, com foco no Brasil, por meio de entrevistas com médicos, ativistas, pessoas vivendo com HIV e diversos outros atores, além de farto material de arquivo.

Do pavor inicial às campanhas de conscientização, passando pela discriminação imposta aos doentes, o documentário mostra como a sociedade encarou essa epidemia devastadora ao longo de duas décadas.

Com base nessa abordagem histórica, o filme trata do modo como o HIV é encarado na sociedade atual, revelando um quadro de desinformação e discriminação persistentes, que atingem sobretudo as populações mais vulneráveis.

“Carta Para Além dos Muros” tem roteiro de André Canto, Gabriel Estrela, Gustavo Menezes e Ricardo Farias. A consultoria técnica é do infectologista Ricardo Vasconcelos e do Unaids.

Da Redação, com Assessorias

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