Mortes por síndrome respiratória aumentam 15 vezes

Números de internações por SRAG já superam os piores índices de 2016, quando houve pandemia da H1N1, diz Fiocruz

A Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), que nem sempre pode ser classificada como Covid-19, apresenta sintomas como tosse, febre e dificuldade respiratória e pode levar à morte. Um dado chama a atenção dos pesquisadores em meio à pandemia do novo coronavírus. O número de casos de SRAGs no Brasil aumentou em mais de 15 vezes em abril deste ano na comparação com o mesmo mês de 2019.

O levantamento foi feito com base em cálculos feitos pela Reuters a partir de dados de óbitos da Central de Informações do Registro Civil. Em abril deste ano os cartórios registraram 1.719 mortes por SRAG, contra apenas 114 no mesmo mês de 2019. No mesmo período, foram registradas 5.474 óbitos cuja causa declarada foi a Covid-19, doença respiratória provocada pelo novo coronavírus.

Os dados deste mês ainda são preliminares, pois os cartórios têm um prazo de cerca de 15 dias para colocar os atestados de óbito no sistema — o que costuma ser feito em tempo menor nos grandes centros. Ainda assim, a significativa elevação no número de mortes por SRAG no mês, somada à falta de testes de detecção de Covid-19 no Brasil, indicam uma subnotificação da doença.

novo relatório semanal do sistema InfoGripe, divulgado  pela Fiocruz, aponta uma tendência de aceleração no crescimento das internações por SRAG entre 19 e 25 de abril. Todas as regiões do país seguem na zona de risco e com atividade semanal muito alta para SRAG, com predominância de 77,5% do novo coronavírus entre os casos que já tiveram um resultado laboratorial positivo.

Segundo o boletim da Fiocruz, até o dia 26 de abril, o Brasil teve um total de 44,7 mil notificados. Mas com a previsão de atraso, de acordo com a metodologia desenvolvida pela plataforma, a estimativa é que este total atualizado seja de 62,6 mil, com um intervalo de confiança de 55 mil a 75,4 mil.

No caso de óbitos, já foram inseridos no sistema um total de 5,5 mil notificações, o que leva uma estimativa de que o total até a semana 17 seja de 7 mil, com intervalo de confiança de 6,3 mil a 8,4 mil. Os números oficiais superam os totais de notificações de anos anteriores, como 2019 e 2016. Em 2019, o total de casos foi 39,4 mil, com 3,8 mil óbitos. O ano de 2016 teve 39,8 mil notificações por SRAG e 4,7 mil óbitos pelos mesmos sintomas.

“Tanto em número de casos, quanto em óbitos por SRAG, mesmo sem levar em conta o atraso de notificação, nós já estamos, em 2020, oficialmente acima dos totais de 2019 e 2016. Isto é particularmente preocupante pois 2016 foi o pior ano desde 2009, quando houve a pandemia de H1N1. Se levarmos em conta as estimativas de atraso, o total de casos até a semana 17 corresponderia a 38% ou 89% a mais do que em todo 2016.”, afirma o coordenador do InfoGripe, Marcelo Gomes.

A Fiocruz destaca o predomínio cada vez maior do novo coronavírus entre os casos e óbitos que tiveram resultado laboratorial positivo para algum vírus respiratório é outro fator de destaque. Do total de 44.780 casos já reportados no ano, 11.315 tiveram resultado laboratorial positivo, destes 6.9% apontaram Influenza A, 3.6% Influenza B, 3.9% vírus sincicial respiratório, e 77.5% Sars-CoV-2 (Covid-19).

Outros 15.100 exames tiveram resultados negativos, e ao menos 14802 ainda aguardam resultado.  Entre os óbitos, 2452 já tiveram resultado laboratorial positivo para algum vírus respiratório, 2059 foram negativos, e ao menos 719 aguardam resultado. Dentre os positivos, 92,7% correspondem ao novo coronavírus.

São Paulo teve salto de 9 vezes em número de óbitos

Em São Paulo, Estado que registrou mais casos e mortes por Covid-19, houve um salto de cerca de 9 vezes no número de óbitos por SRAG em abril deste ano contra o mesmo mês do ano anterior. Segundo Estado mais afetado pela pandemia no país, o Rio de Janeiro teve por volta de 30 vezes mais mortes por SRAG neste mês do que em abril de 2019.

Nos outros três Estados brasileiros mais atingidos pela Covid-19 o cenário é o mesmo: Ceará, com 65 vezes mais mortes por SRAG na mesma comparação, Pernambuco, com por volta de 135 vezes e Amazonas com em torno de 87 vezes mais. Pernambuco teve mais mortes registradas em cartório por SRAG do que por Covid-19, segundo os números da Central de Informações do Registro Civil: 542 contra 252.

Já o Estado do Amazonas, que tem sofrido com uma das situações mais dramáticas geradas pela pandemia no país, com a capital Manaus tendo de enterrar cadáveres em valas comuns, o número de mortes naturais —que excluem as violentas como causadas por assassinatos e acidentes de trânsito, por exemplo— registradas em cartório foram de 801 em abril do ano passado para 2.374 neste mês.

Outro dado que sinaliza uma subnotificação no país é o crescimento do número de internações hospitalares por SRAG. Entre a 14ª e a 17ª semanas epidemiológicas —período que vai de 29 de março a 25 de abril— essas internações dispararam 577%.

A falta de testes tem sido apontada por especialistas como um dos principais problemas enfrentados pelo Brasil no enfrentamento à pandemia, uma vez que a Organização Mundial da Saúde (OMS) defende a testagem em massa como um das melhores ferramentas para conter a disseminação.

Estes dados são de notificação obrigatória para unidades de saúde, mas historicamente existe uma atraso na inserção de dados, especialmente em momentos de surtos. Para tentar prever este atraso, o InfoGripe desenvolveu um modelo matemático de estimativas.

 

Isolamento social pode ter refletido em números

Outro dado que chama a atenção no novo boletim da Fiocruz é a retomada da aceleração dos casos. Após uma explosão de casos muito acima do padrão, observada entre as semanas 11 e 12 (de 8 a 21 de março), o que vinha sendo observado nas últimas semanas era um crescimento em ritmo menor dos casos nas semanas 13 e 14 (22 de março a 4 de abril). Os pesquisadores, no entanto, recomendam cautela na interpretação de dados de semanas recentes em função do atraso de digitação observado.

“O panorama sugere que a desaceleração que foi observada nas semanas 13 e 14, em consequência das medidas de isolamento social, pode ter tido seu efeito diminuído. Os dados mais recentes sugerem uma retomada na aceleração, mas é importante aguardarmos a próxima semana para verificarmos com mais segurança se de fato houve uma retomada da aceleração e realizar análises mais concretas. Esta cautela é importante pelo impacto que o atraso tem nas estimativas de notificação mais recentes”, explica Gomes, ele ressalta ainda que o impacto é maior entre os dados de óbitos e recomenda a utilização das curvas de casos de SRAG para análises de tendência.

O boletim recomenda, de acordo com o panorama apresentado pelo sistema, “a necessidade de manutenção das recomendações de isolamento social para evitar demanda hospitalar acima da capacidade de atendimento”. A saturação da rede hospitalar, já relatada por alguns estados, também pode afetar os dados e a taxa de crescimento dos casos notificados nas próximas semanas, uma vez que as notificações dependem de hospitalização.

 

Fonte: Reuters e Agência Fiocruz

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