Cirurgias eletivas liberadas na rede particular de saúde

ANS autoriza procedimentos que não são de urgência e emergência. Especialistas alertam para risco de colapso na saúde após a primeira onda da pandemia

Redação

A suspensão das cirurgias eletivas na segunda quinzena de março, por conta da pandemia do novo coronavírus, causou impacto na vida das pessoas que interromperam ou precisaram adiar seus tratamentos. O Colegio Brasileiro de Cirurgiões estima que as restrições tenham atingido ao menos 70% das cirurgias, poupando apenas as de urgência e as classificadas como essenciais, como algumas de câncer.

A retomada de cirurgias e outros procedimentos eletivos, aqueles que não são de urgência e emergência, nos hospitais e clínicas particulares foi autorizada na última terça-feira (9) pela Agência Nacional de Saúde Suplementar, enquanto no Sistema Único de Saúde (SUS) esta liberação ainda depende de decretos estaduais. Para especialistas, no entanto, o planejamento das cirurgias eletivas neste momento é fundamental para evitar um colapso no SUS.

Para o Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC),  o volume de doentes à espera de cirurgia poderá ser crítico após a primeira onda da pandemia, devido à concomitância de tratamento postergado e novos pacientes acometidos por Covid-19. Os tratamentos eletivos têm baixa demanda por Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) – apenas um em cada dez, e por prazo médio inferior a dois dias, de acordo com a Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde).

Segundo o CBC, a demora no início ou na continuidade do tratamento dos pacientes com doenças não emergenciais pode resultar em aumento da morbimortalidade, conceito médico que se refere ao índice de pessoas mortas em decorrência de uma doença específica dentro de determinado grupo populacional.

A demanda reprimida é muito grande. Mesmo onde já há um retorno desses atendimentos, os pacientes têm medo de ir aos hospitais. O desafio de organizar essa retomada será tão trabalhoso quanto o da própria pandemia. Consideramos mais adequado que a liberação das cirurgias eletivas não essenciais seja autorizada somente no momento em que a curva epidemiológica se mostre decrescente”, afirma o presidente do CBC, Luiz Carlos Von Bahten. 

Ele afirma que a entidade reconhece o caráter dinâmico da pandemia, assim como tem ciência das diferenças regionais no país de dimensões continentais. “Acreditamos que as demandas reprimidas no contexto atual da pandemia potencializam a geração de uma segunda onda que pode inviabilizar o sistema público de saúde, ressaltando que o planejamento nesse momento é essencial”, ressalta. Veja aqui a proposta de retomada das cirurgias eletivas proposto pelo CBC, junto com outras entidades.

Atenção para evitar cruzamento com pacientes de Covid-19

A expectativa é que o sistema de saúde passe pela retomada mais preparado para situações de grande demanda de recursos de cuidados intensivos. Para o fisioterapeuta Marcus Magrin, hospitais e profissionais de saúde devem estar preparados para fazer rigorosas adaptações no fluxo para evitar o cruzamento com pacientes com suspeitas de Covid-19. Novos protocolos de atendimento devem ser seguidos para garantir a segurança dos pacientes e das equipes envolvidas nas cirurgias e outros procedimentos eletivos.

  1. Além dos cuidados amplamente conhecidos do uso de equipamentos de proteção individual (EPIs), será recomendável que o paciente faça o teste para coronavírus antes de qualquer procedimento cirúrgico”, afirma Magrin, que atua na Mindray, multinacional provedora de dispositivos e soluções médicas de suporte à vida.

Ele explica que, no momento da cirurgia, é importante definir junto a equipe anestésica quem estará presente durante a intubação e extubação. “A equipe cirúrgica deve permanecer fora da sala operatória até que a via aérea seja estabelecida e o paciente conectado ao aparelho de anestesia, em sistema fechado. A capacitação de uma equipe multidisciplinar para operar ventiladores mecânicos mostrou-se essencial no decorrer da pandemia e deve ser primordial a partir de agora”, explica.

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Hospitais do Rio e São Paulo já retomaram cirurgias eletivas

Já no dia 25 de maio, o Hospital Icaraí e o Hospital e a Clínica São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, decidiram retomar os procedimentos cirúrgicos eletivos, seguindo os cuidados de proteção exigidos pelo Ministério da Saúde e a normatização para a realização desses procedimentos, descrita na Resolução Cremerj nº 307/2020.
De acordo com as unidades, algumas medidas adicionais foram implantadas para a preservação da segurança dos pacientes e profissionais. O paciente deve preencher o questionário na chegada ao hospital, previamente à internação, e o mesmo será avaliado pelo anestesista ou cirurgião responsável, além de disponibilizarem andares de internação, elevadores, salas cirúrgicas e UTI específicas para os pacientes eletivos.
O Hospital Icaraí e o Hospital e Clínica São Gonçalo reiteram o compromisso em seguir todos os protocolos recomendados pelo Ministério da Saúde e Vigilância Sanitária. Zelamos pelo bem-estar da população e de quem necessita dos nossos serviços. Prezamos pelo cumprimento de nossos valores e de nossa missão: salvar e preservar vidas”, afirmam as instituições, em nota.

Hospitais de São Paulo também já atendem cirurgias com cuidados especiais para adaptação ao ‘novo normal’. Segundo Guilherme Moura, do Serviços Médicos de Anestesia (SMA), os centros cirúrgicos das unidades hospitalares em que atua já estão adaptados para atender aos pacientes com cirurgias agendadas com segurança. O médico explica que todos os pacientes são testados para o novo coronavírus, 48 horas antes da cirurgia.

No dia da cirurgia, o acesso ao centro cirúrgico é liberado sem nenhum contato com outros pacientes e toda a equipe durante a cirurgia é paramentada como se o paciente estivesse contaminado, garantindo maior eficácia na proteção do paciente e dos profissionais de saúde”, destaca.

Rio tem apenas 39,7 respiradores a cada 100 mil usuários

A Covid-19 provocou um rápido aumento na demanda de suporte ventilatório mecânico em quadros de síndrome respiratória aguda, o que levou ao aumento da procura por esses equipamentos.

Uma análise realizada pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS/FGV) em março revelou que o Rio de Janeiro contava somente com 39,7 respiradores a cada 100 mil usuários e a cidade de São Paulo, com 55,5 respiradores a cada 100 mil usuários.
De acordo com o Ministério da Saúde, havia 65.411 ventiladores pulmonares no início da pandemia. Desses, 46.663 estavam disponíveis no SUS. Um total de 2.651 equipamentos foram distribuídos para 22 estados brasileiros. Desse total, 1.486 são ventiladores de UTI. Outros 16.252 ventiladores pulmonares são aguardados pela pasta em contrato com fabricantes.
A regulamentação técnica em UTI, RDC 07 de 24/02/2010, recomenda no mínimo um ventilador pulmonar mecânico para cada dois leitos de UTI e prevê uma unidade adicional como reserva operacional a cada cinco leitos.
A expectativa da indústria especializada em ventiladores é que 2021 seja o ano da evolução do centro cirúrgico e da arquitetura hospitalar com UTIs mais bem equipadas, mais conectadas e equipes multidisciplinares menos operacionais e mais dedicadas aos cuidados com o paciente.

Com Assessorias