Com quase 200 vagas, hospital da Fiocruz testará medicamentos para Covid-19

Remédios já conhecidos serão usados em pesquisas clínicas para avaliar eficácia e segurança. Unidade permanente após pandemia

Redação

Com capacidade para 196 leitos, 120 deles de UTI, o centro hospitalar da  Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, inicia suas atividades nesta terça-feira (20) como referência para atendimento de pacientes graves da Covid-19. Na primeira semana, deverão ser atendidos 30 pacientes que serão encaminhados pela Sisreg (Sistema de Regulação) das vagas do Sistema Único de Saúde (SUS) no Estado do Rio.

O hospital vai fazer parte de um grande estudo clínico Solidariedade, da Organização Mundial da Saúde (OMS), que está analisando medicamentos já conhecidos para avaliar sua eficácia e sua segurança quando administrados a pacientes da Covid-19. Como vai ser um complexo com um grande número de leitos, vai permitir também uma revisão de protocolos, um conhecimento mais amplo das características da doença em sua forma grave no Brasil.

“Será também um grande laboratório de estudo do comportamento dessa doença nas pessoas com a manifestação mais grave”, afirma Nísia Trindade Lima, primeira mulher na presidência da Fiocruz, nos 120 anos, completados em maio. Ela evita chamar a unidade de “hospital de campanha”, já que continuará funcionando após a pandemia, como uma ampliação das ações do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, que precisava de melhor estrutura para o atendimento de pacientes graves de doenças infecciosas.

Construído em menos de dois meses, com ajuda de doações de empresas e pessoas físicas, a unidade hospitalar em Manguinhos, sede da Fiocruz na zona norte do Rio de Janeiro, o Centro Hospitalar para a Pandemia de Covid-19 terá seus leitos ocupados gradualmente, a partir da avaliação diária e conjunta da direção com as secretarias municipal e estadual de saúde. A medida garante as condições de segurança necessárias tanto para pacientes quanto para os profissionais de saúde

Construído em regime emergencial para unir esforços no fortalecimento da rede de saúde, o hospital possui características específicas que o difere das unidades de campanha que estão sendo erguidas pelo país e que terão funcionamento temporário. Todos os leitos, por exemplo, contam com um sistema de isolamento com pressão negativa do ar, específico para infecções por aerossóis.

No interior dos quartos, que são individuais, uma tubulação é responsável por sugar o ar contaminado que passa por um sistema de filtragem antes de ser eliminado por chaminés instaladas na parte externa da construção. Há, ainda, uma central de tratamento de esgoto própria, concebida para tratar resíduos com o novo coronavírus e garantir destino seguro do efluente gerado.

Operando em condição de assistência de alta complexidade e sistema de apoio diagnóstico próprio, a área de diagnóstico inclui aparelhos de raio X, ultrassonografia, ecocardiografia e tomografia computadorizada. Também estão disponíveis os serviços de broncoscopia e endoscopia. A unidade é autossuficiente – tem fornecimento de energia, geradores e reservatórios de água e toda a infraestrutura exigida para um hospital desse porte independente das demais áreas da Fiocruz no campus.

Vinculado ao Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), o complexo ocupa uma área total de 9,8 mil metros quadrados e também conta com entrada exclusiva para ambulâncias e heliponto. Em seu pleno funcionamento, serão 195 leitos destinados ao tratamento intensivo e semi-intensivo.

“Neste momento, em que acompanhamos com tanta preocupação o aumento de casos e de mortes em nosso país, e em particular no Rio de Janeiro, é com grande emoção que entregamos esse hospital dedicado exclusivamente à Covid-19 e que permanecerá como um legado para o Sistema Único de Saúde”, ressaltou a presidente da Fundação Nísia Trindade durante visita de reconhecimento ao local.

Ela disse ainda que a Fiocruz continuará trabalhando incessantemente para fortalecer as ações do SUS em meio a esta crise humanitária que tem tido impacto tão grande na vida da população e que traz tantos desafios para um país continental e desigual como o Brasil

Por se tratar de uma unidade hospitalar fechada, ou seja, sem  atendimento de emergência, os pacientes chegam ao hospital transferidos de outras unidades de saúde. O sistema informatizado da Secretaria de Estado de Saúde permite um mapeamento dos leitos existentes de forma a operacionalizar a oferta disponível às necessidades de acesso da população.

Inicialmente, o paciente deve ser atendido em uma emergência ou unidade de pronto atendimento. Após constatada a necessidade de assistência especializada e de maior complexidade, o pedido é encaminhado para o sistema de regulação, que é responsável pela verificação da disponibilidade dos leitos e pela transferência dos pacientes.

Construído em regime emergencial para unir esforços no fortalecimento da rede de saúde, o hospital possui características específicas que o difere das unidades de campanha que estão sendo erguidas pelo país e que terão funcionamento temporário (foto: Paulo Lara)

Seguindo protocolos de segurança, não são permitidas visitas aos pacientes internados. Como uma forma de acolher as famílias, um ambiente foi especialmente montado para recebê-las no bloco anexo. Uma equipe multiprofissional se reveza 24h por dia para prestar o atendimento presencial, quando necessário. No local também funcionará uma estrutura de call center com operadores treinados para atualizar os familiares a respeito do boletim médico de cada paciente. Com o objetivo de diminuir a distância com os entes queridos durante o período de internação, também serão realizadas ligações por vídeo com os pacientes cuja condição clínica permita a interação.

Um fluxo de vigilância e monitoramento dos profissionais envolvidos na rotina de funcionamento do Centro Hospitalar, envolve, entre outros aspectos, a verificação diária da temperatura de todos os funcionários na admissão do plantão, testagem e busca ativa de pessoas sintomáticas. 26 profissionais entre médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem, psicólogos, assistentes sociais e nutricionistas se encarregam de prestar a assistência direta aos trabalhadores, atuando desde a vigilância, passando pela promoção, até a abordagem da saúde mental.

A experiência no tratamento dos pacientes do recém-inaugurado hospital será um importante subsídio para diversas frentes de pesquisas sobre a doença (foto: Leonardo Oliveira)

O novo hospital passa a integrar o Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), unidade de referência da Fundação na atenção especializada em doenças infecciosas, e que já atua também como referência para o atendimento a pacientes graves de Covid-19. A experiência no tratamento dos pacientes do recém-inaugurado hospital será um importante subsídio para diversas frentes de pesquisas sobre a doença.

“O novo centro será fundamental para acelerar as pesquisas conduzidas pelo INI e toda a rede de colaboração da Fiocruz no Brasil e internacionalmente. Um exemplo é o ensaio clínico Solidarity, da Organização Mundial da Saúde (OMS), que estuda a eficácia de medicamentos para tratamento da Covid-19”, explicou a diretora do INI, Valdilea Veloso. Coordenado no Brasil pela Fiocruz, o Solidarity é um ensaio clínico randomizado e adaptativo, permitindo que, com o surgimento de novas evidências científicas ao longo do estudo, haja alteração das propostas terapêuticas.

Fiocruz está no centro do combate à crise sanitária e humanitária, sendo considerada referência para a Covid-19 nas Américas pela OMS, por conta do  reconhecimento ao Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo, que tem mais de 60 anos de atividade e a história marcada pela resposta à epidemia de meningite na década de 1970.

Unidos contra a Covid-19 – Desde a notificação da Covid-19, pesquisadores e especialistas de todo o mundo, incluindo os da Fiocruz, estão construindo conhecimento para enfrentamento da doença. Como vem ocorrendo em diversas partes do mundo, neste momento, é de suma importância a união das esferas públicas e privadas para o fortalecimento das ações de combate da pandemia. Para isso, a Fiocruz lançou o programa Unidos contra a Covid-19, com o objetivo de formar uma rede de parceiros apoiadores, a fim de levantar recursos em um fundo emergencial para pesquisa, informação e ações de combate ao novo coronavírus. Saiba como colaborar.

Atualizado em 18 de maio de 2020, às 20h