Como lidar com a oniomania, o desejo compulsivo por comprar

Black Friday desperta compulsão por compras em 64% dos consumidores. Psicóloga analisa o problema e psiquiatra apresenta os 5 principais sinais

A Black Friday e a chegada das festas de fim de ano, com o adiantamento do 13º salário na conta, despertam a compulsão por compras em boa parte dos consumidores. O problema pode virar um transtorno mental e tem até nome – Oniomania, também chamada de consumismo compulsivo -, mas a boa notícia é que pode ser tratado com ajuda de profissionais, incluindo um consultor financeiro; remédios, terapia e até grupos de apoio, como Devedores Anônimos.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 8% da população mundial sofre de Oniomania e Transtorno do Comprar Compulsivo (TCC). A patologia é responsável pelo giro de mais de US$ 4 bilhões na América do Norte, por exemplo. Entre 80% e 94% dos compradores compulsivos são mulheres, cujo transtorno costuma surgir por volta dos 18 anos de idade.

Uma pesquisa da plataforma Méliuz, realizada este ano, revelou que mais da metade (64%) dos consumidores da Black Friday tem o desejo como principal motivo para suas compras. Esse desejo de comprar impulsivamente se tornou ainda mais evidente durante a pandemia.

De acordo com a pesquisa Barometro Covid-19 sobre mudanças de hábitos, realizada pela consultoria Kantar com mais de 11 mil pessoas de 21 países da América Latina, o Brasil é o país que registrou o maior aumento de compras online durante a pandemia: 30%. O percentual de latinos americanos que passaram a fazer esse tipo de compras foi de 24%, enquanto a média dos demais continentes foi de 27%.

De fato, com a retomada do comércio e a abertura das lojas, juntamente com a Black Friday, as pessoas tendem a comprar mais. Para especialistas em saúde mental, é positivo aproveitar a data para comprar algo que queira há algum tempo e aproveitar as promoções de forma consciente. Mas é preciso ter cuidado para que as compras não passem a ter um efeito compensatório de frustração ou tristeza, gerando compulsão.

“Quando há uma tendência para a compulsão, o problema é que o efeito psicológico compensatório da compra passa muito rápido. Logo em seguida o incômodo volta e a pessoa sente novamente a necessidade de comprar”, explica a psicóloga Luciene Bandeira, cofundadora da Psicologia Viva, plataforma digital de saúde mental integrante do Grupo Conexa.

O prazer em adquirir bens que desejamos

Segundo Adiel Rios, Mestre em Psiquiatria pela Unifesp e pesquisador no Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP; de fato, existe um prazer em adquirir bens que desejamos. “Quando conseguimos, há liberação de neurotransmissores que proporcionam sensação de prazer e bem-estar. O sentimento é normal, desde que esteja dentro de um contexto mínimo de realidade”. De acordo com o psiquiatra, na oniomania, o ato de comprar também desperta esta sensação, só que de uma maneira exacerbada.

“As compras são feitas de forma impulsiva, na maioria das vezes, de bens supérfluos. Normalmente, envolve um padrão de pessoas que compram na tentativa de preencher um vazio, suprir carências ou aliviar algum problema psicológico. Pagam por produtos que geralmente nem usam, apenas para saciar a satisfação de comprar algo novo, que logo desaparece e se transforma em sentimento de culpa. Para compensar, a pessoa vai em busca de comprar outra coisa, tornando o ciclo vicioso, afirma Adiel Rios.

Quando o consumo se torna patológico

Luciene aponta que o principal motivo para a compulsão por compras é preencher uma lacuna na vida. “Já ouvi de uma paciente que comprar fazia ela sentir que existia e que podia. Muitas vezes a compra vem para preencher um vazio e sentir que está recebendo a atenção do vendedor também pode influenciar nesse ato. Dizer para si mesmo que compra porque merece, para aliviar a tristeza ou que será só dessa vez são desculpas comuns para manter o comportamento prejudicial.”

O consumo se torna patológico quando a pessoa realmente perde a noção da realidade, compra de uma maneira desproporcional e gera outros problemas na vida. Compras por impulso pode virar uma bola de neve, gerando um ciclo vicioso onde a pessoa adquire produtos para aliviar um sentimento negativo, gasta além do que pode, se endivida, se arrepende e compra novamente para compensar a sensação de remorso, afetando também a sua saúde financeira.

“Esse comportamento vira um transtorno mental quando a vida da pessoa passa a girar em torno do consumo. Problemas financeiros causam problemas emocionais”, destaca Luciene.

Outro alerta da cofundadora da Psicologia Viva é que não é incomum que a pessoa troque o alvo da compulsão. “Uma pessoa que é compulsiva por comprar roupas, por exemplo, pode substituir por idas ao supermercado. Comprar continua sendo uma fonte de prazer”.

Origem pode ser familiar e genética

Não há estudos definidos que comprovem as causas da doença, mas a literatura médica relaciona o transtorno a alguns fatores. Um deles está associado com a história comportamental da família do indivíduo.

Um estudo sobre o tema “Clinical Manual of Impulse-Control Disorders”, desenvolvido pelos pesquisadores Eric Hollander e Dan Stein, da Universidade Albert Einstein College of Medicine, em Nova York, revelou que famílias de compradores compulsivos mostram maior tendência a desenvolver outros transtornos como do humor, dependência química, transtornos alimentares e, é claro, compulsão por compras.

“Além disso, outros estudos científicos mostram uma relação bastante próxima entre a oniomania com o transtorno obsessivo compulsivo e o transtorno bipolar. A soma destas patologias com as distorções sobre o ato de consumir motiva o comprador compulsivo a desenvolver uma suposta segurança por meio das compras”, pontua Adiel Rios.

Os 5 sinais de alerta da compulsão por compras

É difícil para um comprador compulsivo perceber e admitir o próprio transtorno. Para auxiliar na identificação deste comportamento, Adiel Rios pontua os principais sinais da oniomania:

1.Descontrole financeiro

Vivemos uma era em que nem é preciso sair de casa para ter vontade de comprar. Isso porque as redes sociais, além de rastrearem nossa atividade dentro das próprias redes, conseguem identificar quais sites acessamos. Se esse site for uma empresa anunciante, provavelmente o produto que você pesquisou ou foi exposto em alguma loja online irá aparecer no seu perfil.

Além das “armadilhas virtuais”, o consumo ganhou atratividade por meio de maiores facilidades de pagamento ou diversas ofertas pontuais, como a própria black friday. Hoje, há várias formas de um comprador compulsivo se enrolar financeiramente, seja pagando o mínimo do cartão de crédito, aderindo ao cheque especial ou contratando crediários.

2.Compras às escondidas

Para o indivíduo com oniomania, comprar sem ninguém saber e esconder os itens em casa já são parte do processo de compra. “Por ser considerada uma postura socialmente reprovável, o medo da censura e do julgamento explicam o comportamento de nutrir a compulsão em segredo”, diz Adiel Rios.

3.Peças repetidas, esquecidas ou nunca usadas

A pessoa chega a comprar roupas ou sapatos sem sequer experimentar. E, muitas vezes, compra itens praticamente iguais, pois nem se lembra do que tem no armário, já que a maioria das peças, muitas ainda com as etiquetas, nunca foram usadas. “Em um determinado momento, o indivíduo não tem nem mais espaço para guardar tanta coisa e acaba amontoando tudo no fundo do guarda-roupa, ficando esquecido por lá”, complementa o psiquiatra.

4.Abstinência

Irritabilidade, extrema ansiedade e oscilações de humor. Essas são algumas das manifestações clínicas durante os longos períodos sem consumo. Os sintomas decorrentes da abstinência podem ser similares aos da dependência do uso de substâncias químicas, ocasionando desespero, perda de autoestima, sintomas de humor deprimido e ansiedade.

5.Sensação de culpa após uma compra

Como em outros transtornos, após efetuar uma compra e vivenciar a sensação de prazer, vem depois o sentimento de culpa e sofrimento. Quando acaba aquele bem-estar, ocorre uma sensação de impotência diante do descontrole da compra. Logo, surge o ciclo de “prazer-luto”, sendo consequência da visão distorcida sobre a finalidade do consumo em nossas vidas.

O que fazer para controlar o impulso por comprar

Mas nem tudo está perdido. A psicóloga Luciene Bandeira dá algumas dicas para driblar o impulso de comprar, como ter cuidado com as ofertas, pois não é toda oportunidade que se deve ser aproveitada.

“O que se recomenda é que, diante de um impulso de compra, a pessoa pare, respire e se questione se precisa do item e se é uma vontade ou uma necessidade. Outros questionamentos devem ser feitos para si mesmo sobre ter recursos financeiros para pagar e se esse dinheiro fará falta caso a compra seja realizada. Só de a pessoa parar, respirar e fazer esses questionamentos já irá frear um pouco o impulso para a compra”, afirma.

Luciene aponta que o problema tem solução até para os casos mais graves e é possível reverter a compulsão por compras. “É claro que estamos falando de um transtorno e não é fácil enfrentar isso sozinho. Por isso, muitas vezes, é necessário que a pessoa procure a ajuda de um profissional de psicologia para entender melhor o que acontece com ele, como funciona esse transtorno e aprenda mecanismos de controle da autossabotagem para que então consiga reverter essa situação”, conclui.

Devedores Anônimos: terapia em grupo pode ajudar

Adiel Rios diz que há inúmeras abordagens terapêuticas capazes de auxiliar quem sofre deste transtorno. Os tratamentos incluem o acompanhamento por fármacos (como ansiolíticos e antidepressivos), psicoterapias e até consultoria com um especialista em finanças pessoais. Há ainda grupos de apoio, como o Devedores Anônimos, onde outros compulsivos compartilham suas experiências.

“Os tratamentos têm como objetivo atribuir um novo significado à relação gratificação-recompensa, mostrando que há outros caminhos para lidar com as dores e formas muito mais saudáveis de obter bem-estar e prazer na vida”, finaliza Adiel Rios, que também é integrante do Programa de Transtorno Bipolar do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (IPq-HCFMUSP).

Com Assessorias

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