Como se preparar para a morte: um tema ainda tabu

A morte é um tema tabu para muita gente. Para psicólogos, lidar bem com essa ideia faz bem para a saúde mental (Foto: Psiconline News)
A morte é um tema tabu para muita gente. Para psicólogos, lidar bem com essa ideia faz bem para a saúde mental (Foto: Psiconline News)

Recentemente, minha filha de 10 anos ficou fortemente impactada pelas mortes bruscas de duas pessoas próximas:  a mãe de uma amiguinha, violentamente assassinada numa tentativa de assalto, e menos de um mês depois a própria avó paterna, após mais de um mês em estado grave no hospital. Foi e tem sido muito difícil lidar com esse tema com ela. Sensação de insegurança, medo de perder mãe, pai, amigos próximos…

Para muitos, talvez a maioria, o tema morte é quase um tabu. Para outros, faz parte do processo natural da vida e, como tal, deve ser encarado. Afinal, quase todo mundo nasce, cresce e… morre um dia! Mas como trabalhar a noção da morte com as crianças? Como dar a notícia a uma criança sobre a morte de alguém tão próximo? Como identificar a preocupação excessiva em morrer e prevenir um possível trauma, especialmente em casos de mortes súbitas ou violentas?

Medo, mistério, receio, incerteza e muita superstição ainda cercam o assunto. Diante disso, muitos preferem fugir do tema, outros já se preparam comprando jazigo, plano funeral ou mesmo, fazendo testamento ou partilha em vida.  Na ficção ou na vida real, o tema ainda desafia muita gente.

Recentemente, a personagem Encarnação, interpretada por Selma Egrei, na novela Velho Chico, chamou a atenção pela forma como lidava com sua morte. Ela mesma confeccionou sua mortalha – vestimenta que envolve o cadáver no sepultamento.

Já a belga Marieke Vervoort, campeã paralímpica de atletismo que conquistou a medalha de prata nos 400 metros com cadeira de rodas nos Jogos Rio 2016, desde 2008 vem se preparando para a morte. Portadora de doença degenerativa incurável, ela planeja praticar a eutanásia e, para isso, já assinou o termo de autorização.

Psicólogos acreditam que preparar-se para a morte, em vida, é saudável para a saúde mental. Mas organizar-se para o fim da vida pode evitar sofrimentos desnecessários? Por que lidar com o fim da vida é um tabu cultural? Para a psicóloga e especialista em luto, Adriana Binotto, as pessoas têm medo da morte devido às superstições e pela visão de que o assunto é mórbido.

“Não se pode negar a morte. As pessoas mais velhas encaram o tema com naturalidade. Antigamente, os velórios eram realizados em casa e os cortejos saiam pelas ruas das cidades”, explica a especialista em luto pelo Quatro Estações Instituto de Psicologia (SP), que ministra palestras em vários cemitérios do país, como  o da Penitência, no Caju (RJ).

Para Adriana, é preciso mudar a percepção da morte.  “Deveríamos pensar na morte em vida, da mesma maneira em que celebramos o nascimento através de um chá de bebê, por exemplo. Devemos ter tempo, ainda em vida, para cuidar desse momento sagrado, que é o fechamento de um ciclo. É saudável ter esse momento, é saudável para nossa saúde mental”, analisa.

A psicóloga revela que quando se consegue pensar na morte, o indivíduo consegue planejar melhor o tempo e viver intensamente, aproveitando mais a vida, a família e os amigos. Adriana fala ao Blog Vida & Ação sobre o assunto, neste Dia Mundial da Saúde Mental (10 de outubro). Confira:

1. O que você aborda basicamente em suas palestras nos cemitérios?

As palestras têm o objetivo de falar da vida, de levar informação, orientação sobre o processo de luto e, acima de tudo, cuidar e acolher essas pessoas que perderam seus entes queridos e estão fragilizadas vivenciando um momento difícil em suas vidas. Elas possibilitam um espaço de expressão dos sentimentos, o que é muito importante para a saúde mental do enlutado. É fundamental que as pessoas possam entender que o luto é um processo muito particular, muito singular. Cada pessoa vai viver a sua maneira, no seu tempo, não existe receita de bolo.

Nas palestras, eu informo às pessoas que luto é a decorrência natural de uma perda. É um processo através do qual a pessoa restabelece, em novas bases, suas relações com o mundo, que agora, para ela, é um lugar diferente. Falo também da importância de vivenciar o luto para aceitar que a perda ocorreu e continuar com sua vida. Trata-se, na realidade, de uma adaptação, e vivenciá-la completamente não é uma opção e, sim, um pré-requisito para que se restabeleça uma vida saudável.  

2. Você trabalha em um ambiente difícil. Quais as reações das pessoas na hora da morte?

O que seria o difícil? Difícil é você ver o quanto a sociedade não está aberta para acolher o enlutado. Acolher a dor do enlutado, sem julgar, sem fazer comparações, sem querer que a dor silencie dentro de um tempo determinado, provocando sofrimento adicional ao que já é muito penoso. Luto é um processo muito particular, muito singular. Cada pessoa vai viver à sua maneira, no seu tempo, do seu jeito, assim como foi única a relação que o enlutado teve com seu ente querido. Cada perda gera sentimentos e reações próprias que vão depender da personalidade de cada pessoa, do seu momento de vida, sua crença etc. O sofrimento é algo totalmente individual.

3. Muita gente se recusa a ir a cemitérios. Essa resistência pode ser revertida?

Somos uma sociedade que celebra a vida como se ela nunca fosse terminar e que não abre espaço para que a tristeza venha interromper seu ritmo. Pensando assim, ir a um funeral é visto como algo que atrapalha. As pessoas acham que deve ser breve e, de preferência, indolor. Só que isso é uma ideia totalmente equivocada. Os rituais fúnebres, velório, sepultamento, cerimoniais de despedida são fundamentais para ajudar a assimilar o que se passou. É um tempo precioso para que possamos nos despedir dos nossos mortos queridos. O importante é que os rituais possam fazer sentido para aqueles que estão vivendo a dor da perda e que incluam as crianças, sempre lembrando de informar e esclarecer a elas o que está acontecendo.

4. Como as pessoas podem se preparar melhor para encarar a morte?

Entendo que o luto é um tempo necessário na vida das pessoas quando ocorre um rompimento de um vínculo. Luto é um processo que precisa ser vivenciado, e não superado. Luto é deixar a dor ser dor, afinal de contas o luto é uma resposta ao amor. E a morte nos ensina sobre a vida. Assim como no nascimento temos todo um preparo, a morte é um momento sagrado e por isso a importância de, em vida, abrir espaços para falar, conversar sobre ela: falar sobre os rituais, sobre o cuidado que envolve esse momento, como eu quero que seja: se quero ser cremado, sepultado, que música faz sentido pra mim, que toque no dia, como eu quero estar vestido….

Falar com carinho, com cuidado, com amor de um momento único, especial e que, ao contrário do que muitos imaginam, não é mórbido, e sim me faz mais inteiro, mais pleno na minha vida. A morte nos dá a chance de avaliar a maneira como estamos vivendo, rever nossos afetos, nossos relacionamentos. A morte nos faz olhar para a vida e a história que construímos com quem amamos fica para sempre, estar inteiro nas relações, falar abertamente sobre a única coisa certa da vida. Acredito que seja uma maneira de se preparar.

5. Como abordar o assunto com as crianças (de acordo com as idades)?

Levando em consideração a compreensão que a criança tem sobre a morte (de acordo com as diferentes idades), é importante ser claro e objetivo, dizendo à criança o que realmente aconteceu em uma linguagem que ela possa entender. É importante que quem dê a notícia seja alguém próximo à criança, em quem ela confie, buscando passar a ideia de que quando alguém morre, não volta mais. Assim, é necessário muito cuidado ao usar artifícios do tipo: “o papai foi para o céu”, “a vovó virou uma estrelinha” etc. Entre quatro e sete anos, as crianças compreendem que a morte é algo sem volta. É possível usar a fantasia para o conforto delas, só não podemos criar falsas expectativas.

6. A partir de que idade uma criança pode ir a um velório ou enterro?

Não existe idade certa. Ofereça a oportunidade de levá-la ao funeral, mas não a force a ir.  As crianças, assim como os adultos, precisam dividir sua dor. O funeral permite que as pessoas reunidas expressem seus sentimentos. É muito importante que a criança receba uma explicação detalhada do funeral antes de decidir se quer ir.

7. O maior medo da criança é transportar aquela realidade para a vida dela, medo de perder o pai, a mãe, os amigos próximos… Como lidar com isso? 

O tema morte deve ser abordado de maneira natural, no dia a dia da criança, sem tabus e respeitando as crenças de cada família. A criança terá muitas dúvidas. O que ela irá querer saber dependerá de sua idade e de sua experiência prévia com a morte. Deixe claro que a morte ocorre para todos os seres vivos, que não há como ser diferente.

É possível falar sobre fatores que dificultam a vivência do luto da criança (como por exemplo, a idade da criança, o tipo de morte, a criança não possuir uma rede de apoio que lhe proporcione espaço para expressar o seu sofrimento) e fatores que facilitam este processo (os recursos de enfrentamento da criança e principalmente uma rede de apoio eficiente). Quando esta experiência é vivida de forma saudável e natural, é esperado que torne parte da história desta criança.

Estes fatores são que podem influenciar para que ocorra ou não um trauma, trazendo consequências para a vida das crianças. Geralmente crianças pré-escolares não entendem que a morte é final; podem perguntar ”Quando vovó vai voltar?”. Entre cinco e dez anos, crianças começam a entender que a morte é irreversível, mas acreditam que somente pessoas velhas e vítimas de acidentes morrem. Se uma pessoa relativamente jovem morre, não irá entender o motivo.

Após os 10 anos, a criança começa a entender que a morte é parte da ordem natural das coisas e que as pessoas morrem em todas as idades, por diversas razões. É importante que a criança possa se enlutar e expressar os próprios sentimentos, seja chorando, falando, desenhando, escrevendo ou brincando. A expressão adequada do sofrimento auxilia o processo de luto, que é um período de crise necessário. A criança pode se desorganizar, ou seja, ficar mais infantilizada, agressiva, triste, apática, com medo, sonolenta, sem apetite, tendendo ao isolamento.

8. Como perceber que a tristeza da criança está além do aceitável? O que seria aceitável?

Na realidade, cada pessoa tem a sua própria maneira de reagir e expressar a sua dor diante de uma perda importante. No caso das crianças, vale lembrar que os familiares conhecem muito bem os hábitos e os comportamentos de suas crianças, e considerando que uma morte na família acarretará uma mudança mínima esperada, é importante avaliar a sua intensidade e duração.

Na dúvida, vale a pena conversar com a criança e perguntar-lhe o quanto está difícil e de que forma a família pode lhe ajudar. Uma rede de apoio eficiente auxilia na promoção de um ambiente seguro para que a criança possa expressar a sua dor, e à sua própria maneira – seja brincando ou não, chorando ou não, pois nem sempre as reações serão aquelas que os adultos esperam.

Com a colaboração de Joyce Pimentel

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