Enquanto aumentam casos e mortes por Covid-19, testes podem ser jogados no lixo

6,86 milhões de testes do tipo RT-PCR estão armazenados em São Paulo, próximos de terminar sua validade, sem ser distribuídos aos estados

Redação
Testes PCR são considerados "padrão ouro" para detecção do novo coronavírus (Vinicius Magalhães/Sesi)

Enquanto o Brasil registra nova alta nos casos e mortes pela Covid-19 – a média móvel subiu 71% e 43%, respectivamente, nos últimos 14 dias -, os brasileiros assistem, estarrecidos, a (mais um) descaso do governo federal em relação ao controle da pandemia. Mais de 6,86 milhões de testes do tipo RT-PCR, considerados ‘padrão ouro’ para detecção do novo coronavírus, que foram comprados por R$ 290 milhões pelo Ministério da Saúde, estão armazenados em São Paulo, próximos de terminar sua validade, sem ser distribuídos à rede pública dos estados.

Capazes de rastrear partículas do material genético do novo coronavírus, os testes perdem a validade entre dezembro deste ano e janeiro de 2021, mas permanecem estocados em um armazém do governo federal em Guarulhos (SP), denunciou o jornal O Estado de S. Paulo. Segundo a reportagem, o SUS (Sistema Único de Saúde) já aplicou cinco milhões de testes deste tipo — ou seja, o Brasil pode acabar jogando fora mais exames do que já realizou até o momento. Ao todo, já foram investidos R$ 764,5 milhões em testes.

O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União e o senador Fabiano Contarato (Rede-ES) pediram que a corte investigue os testes para diagnóstico do coronavírus que estão armazenados e perderão a validade entre dezembro deste ano e janeiro de 2021.

O presidente Jair Bolsonaro culpou os governos estaduais pelo encalhe de quase 7 milhões de testes para diagnóstico da Covid-19 que estão guardados em um depósito no aeroporto de Guarulhos e vencem até janeiro de 2021. “Todo o material foi enviado para Estados e municípios. Se algum Estado/município não utilizou deve apresentar seus motivos”, escreveu Bolsonaro.

De acordo com a Reuters, o próprio Ministério da Saúde desmentiu o presidente. Em nota, admitiu que os testes não foram distribuídos e estão no depósito em Guarulhos. Apesar de não admitir diretamente que os testes estão para vencer, o ministério informa que devem chegar essa semana “estudos de viabilidade estendida” para os testes em estoque, que serão entregues para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Os estudos poderão permitir que os testes possam ser usados por mais algum tempo, para além do prazo de validade inicial, que é de 8 meses. A pasta diz ainda que já distribuiu 9,3 milhões de testes RT-PCR aos estados e que 5,04 milhões já foram usados.

Cabe ressaltar que os testes RT-qPCR são distribuídos de acordo com as demandas dos Estados e que o ministério se mantém à disposição dos entes para dar suporte às ações de monitoramento, diagnóstico, tratamento e acompanhamentos dos casos, além de incentivar as ações de prevenção e assistência precoce nos serviços de saúde do SUS”, informou o ministério.

Impasse no repasse: secretários de Saúde alertaram para o problema

Também em nota, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) afirma que alertou diversas vezes o Ministério da Saúde sobre a falta de materiais para coletar o material a ser testado, como tubos e swabs, e de insumos para extração do material genético para os exames RT-PCR.

De acordo com os secretários, os insumos para a segunda etapa do teste, a chamada amplificação, estavam de fato disponíveis –são os que estariam armazenados em Guarulhos– mas sem o restante do material eles não poderiam ser usados.

Ao longo dos últimos meses, o Conass alertou para o problema. Passamos boa parte da pandemia com dificuldade para aquisição de insumos de coleta. O repasse desse material para Estados só ocorreu a partir de agosto. Os insumos para extração do material genético viral e equipamentos desta etapa, por sua vez, somente foram repassados a partir de setembro”, diz o texto.

Além disso, dizem os secretários, o contrato para fornecimento desse material foi cancelado pelo Ministério da Saúde e ainda não foi feito outro, o que pode impedir o uso dos testes mesmo que o ministério consiga a extensão do prazo de validade. (Com Reuters)

Média móvel de casos e mortes aumenta em 14 dias

Neste domingo (22/11), o número de mortes pela Covid-19 subiu para 169.182 mil (194 a mais em 24 horas), enquanto o número de casos chegou a 6.071.401 (houve 18.615 novos registros no período), segundo os dados do governo federal. No total, até o momento, 5.432.505 pessoas se recuperaram da doença, com 469.713 outras seguem em acompanhamento.

Já o consórcio de veículos de imprensa registrou 181 novas mortes por causa do coronavírus nas últimas 24 horas, atingindo um total de 169.197 óbitos desde o início da pandemia. Desde o boletim de ontem, foram confirmados mais 18.276 casos no país. O total de diagnósticos positivos de Covid-19 subiu para 6.070.419.

Com uma média de 484 mortes nos últimos sete dias, o Brasil teve uma variação de 43% com o mesmo período de duas semanas atrás, o que indica tendência de aceleração em 10 estados. As maiores altas foram registradas nos estados do Amapá (500%) e Roraima (367%). O Rio de Janeiro teve uma variação de 153%. Também apresentaram alta os estados de SP (89%), GO (88%), MG (74%), ES (59%), SC (50%), RS (43%) e MS (28%).

Outros oito e o Distrito Federal apresentaram queda, sendo que nove mantiveram a estabilidade. O Brasil agora tem duas regiões com tendência de alta na média móvel de mortes e três estáveis. Nordeste (-4%), Norte (7%) e Sul (10%) apresentaram estabilidade. As demais, tiveram alta na média de mortes: Centro-Oeste (30%) e Sudeste (104%).

Segundo o Uol, para medir a situação das mortes por causa da Covid-19, especialistas indicam usar a média móvel dos óbitos, que calcula a média de registros observada nos últimos sete dias. A operação é a mais adequada para observar a tendência das estatísticas, por equilibrar as variações abruptas dos números ao longo da semana.

O consórcio de veículos de imprensa adotou esse período para verificar as oscilações na média móvel. É possível falar em queda nos números quando a diminuição é maior do que 15% se verificado nos últimos 14 dias —no caso, o período das duas últimas semanas. Caso os números aumentem mais do que 15%, há aceleração da epidemia. Valores intermediários indicam estabilidade.

Festas com aglomeração e sem máscaras no Rio

E se o governo federal não cumpre a sua parte, que dirá a população. Com a autorização para eventos sociais liberada pela Prefeitura, diversos pontos da cidade do Rio de Janeiro tiveram eventos com aglomerações de pessoas, sem uso de máscaras, durante o final de semana. Organizadores de eventos na Marina da Glória, na Avenida Niemeyer e na Barra da Tijuca que não respeitaram os protocolos sanitários poderão ser multados pela prefeitura.

Em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, o mau exemplo vem do próprio poder público. O prefeito Waguinho, reeleito, mandou fazer uma festa para comemorar a vitória nas urnas. Questionada, a campanha informou que a festa foi patrocinada pelo candidato, sem uso de verba pública. Outra cidade da Baixada, Duque de Caxias, também teve uma festa com enorme aglomeração.

Especialistas alertam que, mesmo em ambientes abertos, não se deve descuidar das medidas de proteção. O número de internações por Covid-19 na cidade do Rio, que foi de 415 no domingo passado (15/11) na rede SUS, saltou para 499 neste domingo (22/11), um aumento de 20%. A taxa de ocupação de leitos de UTIs agora já chega a 92%, uma preocupação diante do fechamento de leitos em hospitais de campanha.

Com Agências (atualizado em 24/11/20)

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