Crianças brasileiras estão mais vulneráveis à violência

Estudo de ONG internacional revela que 67% dos meninos e meninas de 10 a 12 anos não se sentem protegidos e apenas 26% têm suas opiniões respeitadas

Redação

A violência contra crianças é um grave problema nacional que ultrapassa gerações, classe social, cultura, gênero e status socioeconômico. No Brasil, 67% dos meninos e meninas com idades entre 10 e 12 anos não se sentem suficientemente protegidos contra a violência. O percentual é superior ao verificado mundialmente, que é de 40%.

É o que revela o estudo do ChildFund Brasil, agência humanitária internacional de proteção e assistência a crianças, adolescentes, jovens e famílias em situação de pobreza no país. O levantamento é um recorte nacional da pesquisa Small Voices Big Dreams 2019, lançada em setembro pelo ChildFund Alliance com quase 5.500 crianças com idades entre 10 e 12 anos de 15 países diferentes.

Para aprofundar a realidade brasileira, o ChildFund Brasil ouviu a opinião de 722 meninos e meninas nos estados em que atua: Minas Gerais, Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Amazonas, Piauí, Bahia e Goiás.

Outro dado relevante mostrado pela pesquisa é que, no Brasil, 90% dos meninos e meninas entrevistados rejeitam a violência física como um instrumento de educação. No levantamento global, esse percentual é de 69%.

Também há diferença entre os dados mundiais e brasileiros quanto à percepção sobre as ações de políticos e governantes para proteger as crianças contra a violência. No Brasil, menos de 3% das crianças acreditam que eles cumprem seu papel, contra 18,1% no mundo.

Em regiões socialmente vulneráveis do Brasil, é possível observar aspectos mais agravantes com relação à prática de maus-tratos. Compreender todas as dimensões da violência e, principalmente, ouvir as expectativas e concepções das crianças é fundamental para erradicá-la”, afirma Águeda Barreto, assessora de Advocacy e Comunicação do ChildFund Brasil.

É preciso ouvir as crianças

No Brasil, 26% dos meninos e meninas entrevistados acreditam que as opiniões infantis não são consideradas em questões que lhes dizem respeito. “O dado é preocupante, tendo em vista que a prevenção e o combate da violência contra as crianças exigem o reconhecimento e o respeito pelos direitos delas como indivíduos capazes de agir de forma autônoma e eficaz diante de situações que os afetam diretamente”, reforça Águeda.

O estudo aponta que, para prevenir e combater a violência, é essencial que os adultos ofereçam atenção, apoio e carinho às crianças, reconhecendo os seus direitos. As principais causas da violência infantil, na avaliação das crianças brasileiras, são o fato de serem indefesas, a falta de conhecimento dos direitos que elas possuem e a perda de autocontrole dos adultos devido ao uso de substâncias.

Algumas das principais conclusões do estudo

De acordo com 83% dos entrevistados, os adultos deveriam amar mais as crianças: a oferta de atenção, apoio e carinho às criança, por parte dos adultos, é um fator-chave na prevenção e no combate à violência;

52% não concordam com a ideia de que as crianças não podem fazer nada para pôr fim à violência: a atitude delas, seja de denúncia seja de organização, constitui um importante mecanismo para prevenir a violência;

Mais de 30% acreditam que as crianças não são suficientemente protegidas contra a violência no país em que vivem;

A maioria das crianças percebe as ruas da vizinhança, praças, parques e transporte público como lugares de maior risco de violência;

82% dos respondentes concordam que é mais comum meninas sofrerem maus-tratos ou outras formas de violência do que os meninos.

 

Mais de 1 bilhão de crianças sofrem violência

Todos os anos, mais de um bilhão de crianças em todo o mundo sofrem violência e são exploradas – o equivalente a mais de uma em cada três. É um flagelo global que transpassa fronteiras, classe, cultura, etnia, raça, gênero e nível socioeconômico. “No entanto, são raras as vezes em que de fato os tomadores de decisão levam em consideração as opiniões, experiências e expectativas das crianças“, disse a secretária geral da ChildFund Alliance Meg Gardinier.

Este relatório traz insights sobre as demandas de crianças que falam do sofrimento por conta do medo, da baixa autoestima, e da solidão causados pelos adultos com quem convivem, e que muitas vezes se sentem desprotegidas e não são ouvidas. Hoje, exigimos que as crianças façam parte do processo de tomada de decisão sobre questões que as afetam.

Em nível global, as crianças também relataram que nas situações violentas quase sempre havia um desequilíbrio de poder entre vítima e agressor, e mais da metade disse que a violência ocorreu porque as crianças não podiam se defender de adultos ou crianças maiores. Veja alguns resultados da pesquisa:

Uma em cada duas crianças diz que em seu país os adultos não ouvem sua opinião sobre questões que são importantes para elas;

Nove em cada dez acreditam que a coisa mais importante que os adultos podem fazer para acabar com a violência contra as crianças é dar mais amor às crianças e ouvir o que elas têm a dizer;

Mais de 40% acreditam que as crianças não estão suficientemente protegidas contra a violência no país em que moram;

Mais de dois terços das crianças (69%) rejeitam a violência como um instrumento de educação;

Apenas 18,1% das crianças acreditam que políticos e governantes protegem as crianças contra a violência.

Gerson Pacheco, diretor nacional do ChildFund Brasil, membro da Alliance, disse: “Infelizmente, não importa onde elas morem ou quem sejam, nenhuma criança está imune à violência. Em muitas partes do mundo, a violência contra crianças está ocorrendo em níveis epidêmicos. Sabemos que, quando as crianças sofrem violência, seja ela física, sexual ou emocional, isso pode ter um impacto catastrófico no senso de autoestima, no desenvolvimento cognitivo, e na capacidade de exercer todo o seu potencial.”

“Muitas vezes, elas se tornam um alvo por serem fisicamente menores, e, portanto, são vistas como presas fáceis. É por isso que precisamos capacitá-las para que façam parte do processo de tomada de decisão. As crianças têm de ser incluídas quando se trata de desenvolver qualquer política ou ação destinada a ajudar crianças.”

Ação em estradas contra o abuso sexual infantil

Nesta sexta-feira (11) e sábado (12), painéis eletrônicos instalados em rodovias de São Paulo veiculam mensagens de divulgação do Serviço Disque 100, canal do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos que recebe denúncias  sobre violência, abuso e exploração sexual infantil. A ação, que acontece durante fim de semana marcado pelo Dia das Crianças, faz parte de campanha do Instituto CCR e ARTESP (Agência de Transporte do Estado de São Paulo) sobre formas de prevenção e combate à exploração sexual infantil.
Ao todo, as mensagens serão veiculadas em 65 painéis eletrônicos nas rodovias do Sistema Anhanguera-Bandeirantes, administrado pela CCR AutoBAn, Castello-Raposo, administrado pela CCR ViaOeste, trecho oeste do Rodoanel, administrado pela CCR RodoAnel, e as principais rodovias do sudoeste paulista, administradas pela CCR SPVias,
Como denunciar – É possível denunciar qualquer suspeita de abuso ou exploração sexual infantil discando 100, o Disque Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, que funciona 24 horas diariamente, incluindo sábados, domingos e feriados. As ligações podem ser feitas de todo o Brasil por meio de discagem direta e gratuita, de qualquer terminal telefônico fixo ou móvel, bastando discar 100 não havendo necessidade de identificação.

Por meio do aplicativo Proteja Brasil, que funciona em celulares e tablets, com tecnologia iOS e Android, as denúncias podem ser anônimas, e o sigilo das informações é garantido. Além disso, pode-se procurar o Conselho Tutelar regional e delegacias comuns ou especializada em crimes contra a criança e o adolescente. Em casos de emergência, pode-se ligar para a Polícia Militar pelo telefone 190 ou para a Polícia Rodoviária Federal pelo telefone 191.

Com Assessorias