Dependência de álcool começa a partir de 12 anos de idade

Encerrando a Semana Nacional de Combate ao Alcoolismo, psicóloga explica as principais dificuldades encontradas para diagnosticar e tratar o problema

Rosayne Macedo
Termina neste sábado (23) a Semana Nacional de Combate ao Alcoolismo, com a finalidade de conscientizar a sociedade sobre as consequências e os transtornos relacionados ao uso do álcool, um problema global de saúde pública que começa cada vez mais cedo, na adolescência.
Relatório Global sobre Álcool e Saúde, divulgado em setembro de 2018 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), aponta que o uso danoso do álcool está relacionado a 3 milhões de óbitos em 2016 (quase 5,3% de todas as mortes mundiais).
No Brasil, a estimativa é de que 4,2% (6,9% entre homens e 1,6% entre mulheres) dos brasileiros preenchem critérios para abuso ou dependência e o álcool esteve associado a 69,5% e 42,6% dos índices de cirrose hepática, a 36,7% e 23% dos acidentes de trânsito e a 8,7% e 2,2% dos índices de câncer – respectivamente, entre homens e mulheres em 2016.
Infelizmente, outra notícia triste: é cada vez mais cedo que as pessoas estão se tornando dependentes do álcool. De acordo com a psicóloga Ana Café, atualmente os jovens brasileiros iniciam o uso, em média, com 12 anos de idade. As meninas desenvolvem a doença com 5 anos de uso e os meninos com aproximadamente 10 anos.
Hoje a situação é diferente. Cada vez mais fechamos diagnósticos de alcoolismo na adolescência. Este fato é consequência dos jovens estarem começando a beber mais cedo e quanto mais cedo se dá a ingestão, maior será o risco de progredir para uma dependência”, afirma ela, que é especializada no tratamento da infância e da adolescência.
Ainda segundo ela, tem sido muito comum encontrarmos adolescentes, menores de idade internados para tratamento do alcoolismo. “Mas, por ser esse um cenário novo, ainda temos dificuldade em encontrar clínicas que tratem adolescentes”, destaca a especialista.
Idealizadora e diretora do Núcleo Integrado e uma das diretoras da Clínica Espaço Village, Ana Café fala sobre os principais desafios para vencer o problema. Confira:

Como diagnosticar que um adolescente está dependente de álcool?

Durante muito tempo tínhamos muita dificuldade em falar sobre esse diagnóstico. Costumávamos tratar de uso abusivo do álcool por jovens. Isso porque a adolescência é um período de grandes e profundas transformações físicas, mentais e emocionais que podem levar a um falso diagnóstico, somado ao fato do alcoolismo ser uma doença que leva em média 10 anos para se desenvolver e, sendo assim, quando a doença se manifestava o indivíduo já encontrava-se em sua fase adulta.

Qual o maior desafio no combate ao alcoolismo?

 
A minimização que o brasileiro ainda faz em torno de substâncias lícitas. Apesar de o álcool ser a droga de maior risco social, nossa sociedade ainda tolera, permite e promove o uso de forma abusiva. O álcool é a droga que entra mais cedo na vida do jovem, muitas vezes por pressão do grupo, outras por exposição pela própria família. A relação do brasileiro com o álcool é ainda muito permissiva e os pais geralmente acabam sendo permissivos também, sem saber como dar limites ou por acharem ser mais seguro permitir o uso do que os filhos mentirem ou omitirem.
Sabemos que quanto mais cedo o consumo, maiores são os riscos de se desenvolver o alcoolismo. Quando nossos filhos são pequenos tentamos preservá-los do contato com doenças através de vacinas, redução da exposição a fatores de risco. Por que é diferente com o álcool? Porque nossa sociedade ainda tem uma visão limitada e preconceituosa em torno do alcoolismo. Ainda vêem como um defeito de caráter ou falta de força de vontade e não como uma doença crônica.

Quais são os sintomas de alcoolismo?

 
Os sintomas do alcoolismo são progressivos, como é a doença. O alcoolismo é uma doença progressiva e gradativamente seus sintomas vão se manifestando. A doença passa por etapas – nem todo usuário é um dependente químico/alcoolista, mas todo alcoolista/dependente químico foi um dia um usuário e existe uma linha muito tênue entre o uso e a doença. A doença passa de um beber social, moderado e controlado para um uso abusivo e compulsivo.
O principal sintoma é a perda de controle no tempo de uso e na quantidade. Perda de controle é a marca registrada da doença! Além disso, os sinais de tolerância, que é a necessidade de doses cada vez maiores e mais fortes para obter o estado desejado. Ao mesmo tempo, após a doença instalada, temos a tolerância inversa, que é quando com doses cada vez menores atinge-se mais rapidamente a alteração de comportamento.

É aconselhável alcoolistas em recuperação beberem cerveja e drinques sem álcool?

 
Não, invariavelmente este comportamento leva a recaídas. Um alcoolista em recuperação tanto precisa mudar seus hábitos de ingestão do álcool, como os hábitos sociais relacionados ao uso. Falamos do fenômeno “Porre Seco”, que é quando a pessoa está sem ingerir álcool, mas com o mesmo comportamento e prejuízos da ativa.

Quais são os sintomas de abstinência?

Os sintomas de abstinência costumam estar sempre presentes, mas muitas vezes são encarados como angústia, depressão, irritabilidade momentânea, sendo mascarados pelo uso de medicações antidepressivas ou ansiolíticas (prescritas ou não). Os médicos antes de prescreverem deveriam ter uma escuta mais apurada, no sentido de compreender se estão tratando de depressão e ansiedade ou de um quadro de negação do alcoolismo já instalado.

Quando tomar a decisão de internar um alcoolista?

 
O ideal sempre é fazer com que o alcoolista busque ajuda. Sabemos que nem sempre isso é possível pois os mecanismos de defesa da doença estão sempre presentes, no sentido de proteger a própria doença. Costuma-se orientar as famílias a buscarem ajuda antes de uma internação involuntária (esta deverá ser o último recurso a ser utilizado). A família precisa aprender a se posicionar e oferecer limites para o alcoolista, mas na maioria das vezes não sabe como fazê-lo.
É dominada por sentimentos e emoções incontroláveis que por muitas vezes acabam dificultando o processo. Mas, respondendo a pergunta, o momento de tomar a decisão por uma internação involuntária é quando percebemos que o alcoolista apresenta comportamentos que colocam em risco a sua vida ou a de outros, comportamento violento, pensamentos suicidas, entre outros.

Como seria o paciente “dos sonhos”?

 
Acho difícil quem trabalha com adicção não ter um paciente dos sonhos. Todos que trabalhamos com isso sabemos das dificuldades e da nossa impotência perante a doença e de nossas limitações. A autossuficiência é um dos fatores que dificultam a adesão e manutenção do tratamento. Ter um paciente que aceite estar em tratamento, que entenda que tem um problema, mesmo que a principio não visualize que seja o álcool, já é um sonho.
Começamos pelo processo de conscientização e autoconhecimento para que este individuo possa chegar num lugar que chamamos de rendição. O paciente rendido talvez seja o paciente dos sonhos, aquele que sabe que perdeu para a doença, que perdeu para a substância, que aceita que sua vida fica incontrolável sob o uso do álcool e qualquer outra substância. Um paciente rendido não manipula e usa medicações, um paciente rendido não manipula os familiares e/ou terapeuta, um paciente rendido quer ajuda e aceita ajuda.

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