‘Não sentia mais prazer em viver. Nada fazia sentido. Era uma dor silenciosa’

Setembro Amarelo: vítima de violência sexual conta por que tentou suicídio e como conseguiu sobreviver

Rosayne Macedo
Depressão é uma das principais causas do suicídio (Imagem meramente ilustrativa - Reprodução de Internet)

 

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Às vésperas de completar 21 anos, ela foi vítima de violência sexual por parte de dois homens. Era universitária e estava acompanhada de uma amiga, que conseguiu escapar, mas não chamou socorro. Tempos depois, perturbada pela terrível dor e humilhação que viveu, pensou em tirar a própria vida. Se sentia um lixo de ser humano, que não tinha nenhum valor. Chegou a tomar vários medicamentos e, quando já parecia desfalecer, lembrou-se da mãe. Não queria que ela sofresse. Daí, conseguiu procurar ajuda. Ligou para uma amiga que imediatamente a levou para uma emergência. Lá, a grande surpresa:  inúmeros amigos e familiares, preocupados com sua saúde e sem sequer imaginar o motivo, foram demonstrar seu afeto e acolhimento.

“Percebi, naquele momento, que não estava sozinha, que era muita amada e protegida”, conta ela. F, de 56 anos, ainda não se sente à vontade para revelar sua identidade. Mas decidiu quebrar o silêncio de tantos anos  para fazer essas revelações ao VIDA & Ação na semana em que lembramos o Setembro Amarelo, de prevenção ao suicídio. Sua esperança é ajudar a quebrar o tabu em torno desse tema tão sensível, porém, cercado de tanto preconceito ainda nos dias de hoje. E quem sabe assim ajudar outras pessoas que, assim como ela, podem ganhar a vida de volta.

Confira o relato de F:

“Tem momentos em nossa vida que nada faz sentido, um vazio enorme toma conta da gente, a única saída é a morte.  Em 1982 fui violentada por dois homens. Um deles queria me matar. Lutei muito para escapar. Quando aconteceu isso, estava eu e uma menina que achava que era minha amiga e fazia faculdade comigo. Foi em Guarapari (litoral do Espírito Santo). Assim que a gente chegou, esses homens seguiram a gente, mas não percebemos. O dia que eles pegaram nós duas e foi exatamente no dia do aniversário do meu pai. Isso foi muito marcante. Pensei: se eles ficassem com nós duas, quem ia pedir socorro? Um falava muito, queria me matar. Eu ainda argumentei… Ela conseguiu escapar. Achei que ela iria me salvar. Mas ela não pediu socorro. Só não morri porque Deus não quis.

Quando eu voltei disso, foi uma confusão na minha cabeça. Dá uma sensação de solidão, de que você não tem nada. Achava que não podia confiar em ninguém. Um sentimento muito ruim. Isso foi aprofundando. Veio uma depressão.  Para conviver com tamanha violência, decidi fazer terapia. Depois do que aconteceu, terminei a faculdade e, recém-formada, estava trabalhando numa empresa de informática. Depois fui trabalhar na assessoria do Brizola (ex-governador Leonel Brizola). Era o máximo do máximo. Estava no auge da minha realização profissional. Mas mesmo assim eu estava com muito medo, muito descrente do ser humano.

Uma profunda depressão tomou conta de mim e não sentia mais prazer em viver. Era uma dor silenciosa. Quem convivia comigo não percebia o buraco em que me encontrava. Tinha um emprego que sempre almejei, amigos queridos, uma família carinhosa. No entanto, a vida não fazia sentido. Ainda estava muito confusa devido à violência sofrida.  Eu fazia terapia na época, saí, fui para outra (terapeuta). Mas não resolvia.

Um dia, após trabalhar tranquilamente, decidi por fim àquela dor interior. Fui para casa, tomei banho e me dirigi até a farmácia. Comprei dúzias de calmantes, retornei para casa e tomei tudo. Já meio zonza, veio a lembrança de minha mãe e a dor que lhe causaria com a minha atitude. O que me fez pedir socorro foi isso. A própria Constelação Familiar (técnica terapêutica muito empregada para resolver questões familiares) mostra isso. Que mãe é vida, que você nasce de mãe. Então era maldade fazer isso (cometer o suicídio) com alguém que me amava tanto.

Foi neste momento que liguei para uma amiga. Ela me levou para uma emergência, onde fiz lavagem intestinal, e comunicou a minha família. Minha amiga ligou para vários outros amigos. Em poucos minutos, o hospital ficou lotado. Apareceu tanta gente, tanta gente… Eram pessoas queridas preocupadas comigo. Percebi, naquele momento, que não estava sozinha, que era muita amada e protegida. Eu descobri que aquela amiga que me deixou na furada não era nada, era besteira.

De repente você começa a se tocar que a vida não é isso. Você aprende.  A vida não é um conto de fadas. Mas é preciso ter foco, ter amigos. Chegar e conseguir falar com as pessoas, se abrir. Todos nós temos momentos de altos e baixos. Mas a gente tem que ter alguma coisa que nos prenda aqui, que nos faça feliz. Hoje eu tenho minha mãe, meus amigos, meus cachorros… E isso é vida. É isso que faz a gente feliz”.

  • Relato de F. , de 56 anos, ao Vida & Ação. Se você tem uma história de superação para compartilhar com a gente na seção Eu Vivo, envie um depoimento ou vídeo para os emails blogvidaeacao@gmail.com e contato@ blogvidaeacao@gmail.com
  • O CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email, chat e voip 24 horas todos os dias. Conheça o Centro de Valorização da Vida – telefone 141

 

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