Depressão: diagnóstico banalizado pode levar à auto-medicação

Rosayne Macedo

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“Está triste, cabisbaixo, sem esperança? É depressão!”. O diagnóstico cravado, muitas vezes, pode estar equivocado e levar pessoas a fazerem uso de medicamentos de tarja preta sem necessidade. Hoje, banalizou-se convencionar o vínculo entre tristeza e depressão.  Para esclarecer esta e outras tantas questões envolvendo a depressão, ouvimos o psiquiatra Rodrigo Pessanha neste Dia Mundial da Saúde (7 de abril), dedicado este ano à depressão.

Segundo ele, apesar de sabermos que a depressão é uma doença da mente, é também uma doença do cérebro que afeta ainda o organismo como um todo porque observamos alterações cardiovasculares, endócrino-metabólicas e imunológicas. “Pacientes deprimidos normalmente não vão tomar aquelas precauções com relação a prevenção de doenças, a um estilo de dieta e de exercício físico por conta disso apresentam um risco de mortalidade significativamente maior do que a população em geral”, completa.

– Hoje, muitos questionam sobre o diagnóstico banalizado da depressão. Parece que todos sofrem de depressão. O que o senhor pensa a respeito?

Isso é fato! Existe uma disseminação do diagnóstico de depressão que é algo exagerado, que não seguem padrões internacionais de critérios de diagnósticos. Isso leva as pessoas a uma sobre-medicação. Depressão é uma doença clinicamente identificável e existem critérios para diagnosticá-la. O diagnóstico não é feito por uma impressão subjetiva.

– Como diagnosticar a tristeza comum de um quadro patológico de depressão?

Podemos diferenciar a tristeza comum da depressão principalmente em termos de duração, intensidade e do grau de intensificação que a pessoa tem quando é portadora de depressão. A tristeza, o luto, a melancolia são sentimentos naturais, necessárias até, para o funcionamento do indivíduo, mas quando ela se torna incapacitante, quando dura um período muito além do que é razoável e a sua intensidade é desmedida, aí estamos falando não só de tristeza, mas de um quadro depressivo.  Além disso temos que observar se existe algum fator desencadeante, se na existência de um fator desencadeante a reação de tristeza é proporcional ao fato em si.  Quando, por exemplo, a pessoa passa por uma situação adversa de vida, como perder o emprego, é natural e compreensível e proporcional que ele se entristeça, que ele passe por um período de abatimento moral. Normalmente a pessoa tem um tempo de resolução desse período de abatimento moral. Não necessariamente vai sofrer algum tipo de prejuízo no funcionamento pessoal e profissional. Quando essa pessoa que perdeu o emprego começa a apresentar dificuldades de cuidados pessoais, de se alimentar, de sair da cama, de raciocinar de forma clara, aí ele não está simplesmente apresentando um quadro reativo da situação adversa. Nesse caso, torna-se desproporcional.

– Todos os pacientes de depressão podem vir a cometer suicídio? Ou esse é um ato extremo e isolado? Tem dados estatísticos?

É muito importante mencionar em pacientes depressivos é o risco de suicídio. Estatisticamente o risco de suicídio em pacientes com depressão maior é maior do que a população em geral, mas estranhamento nem todo paciente deprimido tem ideias suicidas, ou seja, apesar de haver um risco estatístico elevado, o fato de uma pessoa ter uma depressão, até mesmo severa, não quer dizer que ela tenha um risco eminente de suicídio. Isso precisa ser avaliado caso a caso.

– Que outras doenças graves a depressão pode causar e/ou facilitar?

É comum que pacientes deprimidos sejam mais sujeitos a certas doenças como as cardiovasculares, endócrino-metabólica, doenças imunológicas, hematológicas, oncológicas. Depressão maior é a existência de um transtorno psiquiátrico que é caracterizado por um padrão persistente e prevalente em uma série de domínios da vida pessoal de humor, clinicamente ou significativamente deprimido acompanhado de outros sintomas, como baixa auto-estima, perda de interesse em atividades que antes eram tidas como prazerosas, dificuldade mesmo de experienciar prazer. Há também pacientes como sintomas cognitivos, ou seja, alterações de atenção, concentração, memória, tempo de reação. Outros sintomas que também podemos relacionar à depressão são sintomas físicos, como alteração do padrão de sono e vigília, perda de peso ou, paradoxalmente, ganho de peso, aumento ou redução acentuada do apetite.

– É possível  evitar a depressão? Como?

Dificilmente temos a possibilidade de prevenir a depressão. No entanto, é possível identificar os sinais precocemente e iniciar o tratamento o mais cedo possível. Existe maior probabilidade de que numa família onde existam pais acometidos por depressão de que filhos venham a apresentar essa doença

– Há indivíduos que são menos ou mais propensos à doença? Quais?

Existe, sim, uma prevalência aumentada de depressão no sexo feminino. As pessoas atribuem a isso a questões hormonais mas deve haver outros fatores, incluindo aí predisposição genética, que ainda estão sendo identificados.

– Há alguma causa genética para a depressão?

Existem vários tipos de depressão. Temos a depressão com alto fator genético, mas sempre existem interações com elementos ambientais, como a presença de eventos adversos durante a vida, a presença de privações, maus tratos. Há uma série de fatores que juntamente com a genética disparam o processo. Temos depressão que pode ser causada em transtornos físico, em pessoas com hipetireoidismo, pós-infartadas, pessoas com carência de vitamina do complexo B. Além disso, temos pessoas com quadros depressivos secundários a utilização de certos medicamentos, como alguns hipertensivos.

– Quais os tipos existentes de depressão? o transtorno bipolar é um deles?

A diferença de depressão e transtorno bipolar é que no transtorno bipolar temos a existência de períodos de depressão, mas também temos período do que chamamos tecnicamente de mania. A mania é um estado onde a pessoa fica desinibida, o pensamento acelerado, o discurso é acelerado. Tem comprometimento do juízo e da crítica, pode fazer, eventualmente, sintomas psicóticos. Em tese temos o que chamamos de depressão maior e o transtorno bipolar do humor, do tipo 1 e do tipo 2. São doenças diferentes porque a depressão maior se caracteriza pela exclusividade de sintomas depressivos. No Transtorno Bipolar do Humor posso ter tanto sintomas depressivos quanto sintamos maníacos. No Transtorno Bipolar não temos oscilações de humor ao longo de 24h. Temos, na verdade, fases que tem a duração de dias.

– A pessoa que sofre de ansiedade pode vir a desenvolver depressão? Se sim, por que?

Os Transtornos de Ansiedade englobam Transtorno de Pânico, com e sem agorafobia, Trasntorno Obsessivo-Compulsivo, Transtorno de Estresse Pós-Traumático, Transtorno de Fobia simples, Transtorno de Fobia Social. Todos esses transtornos podem cursar em alguns momentos com sintomas depressivos. No entanto, a doença primária não é a depressão. No caso é o Transtorno de Ansiedade. É comum observarmos pacientes com Transtorno de Pânico muito intenso, descompensado e que esses pacientes apresentam sensação de incapacidade, de inutilidade.

– Quais os tratamentos existentes e reconhecidos para combater o problema?

Eu costumo dizer que a psiquiatria nos últimos 20 anos tem evoluído de maneira surpreendente, mas a difusão desse conhecimento entre profissionais da área da saúde, mesmo das especialidades ligadas a saúde mental e familiares e pacientes acometidos pela depressão ainda não tem plena consciência da imensa quantidade de recursos disponíveis. Esse é um dos casos onde o conhecimento ´uma forma efetiva de tratamento

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