Depressão: ‘O cérebro não aguentava mais. E virou a chave’

Rosayne Macedo
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Elisa (nome fictício), 47 anos, moradora do Rio de Janeiro, nunca imaginou que um dia fosse se revirar do avesso. A vida seguia bem, com tantos degraus conquistados para se tornar uma pessoa “comum e feliz”, quando, de repente, alguém parece tirar a escada do caminho. E Elisa desaba. Há sete anos, ela teve o primeiro diagnóstico de ansiedade, que evoluiria mais tarde para uma depressão, tornando-se um transtorno de humor com muitas oscilações. O apoio dos amigos, para ela, é fundamental nessa nova jornada convivendo com este desafio constante. Confira o lúcido depoimento de Elisa ao Blog Vida & Ação.

‘Pessoas muito caladas, quietas, de olhar baixo e ombros caídos, que não têm ocupação definida, não devem ter estudado mais do que o essencial, gente sem ambição, sem esperança, sem fé, opinião, sem amigos. Pessoas esquisitas’. Durante muito tempo essas eram as imagens que surgiam diante dos meus olhos quando ouvia a palavra depressão.
‘Fulana está deprimida..está tomando tarja preta”, dizia alguém referindo-se à pobre criatura que estava em tratamento contra uma das doenças que mais avançam no mundo, junto com a ansiedade. Ah, os ansiosos… Tão inquietos, tão falastrões, tão agitados… Gente que a cada hora quer algo diferente, gente que não sabe o que quer. São do contra, impossível manter um diálogo normal com esses seres. Como perturbam!

‘Sicrano está muito ansioso, deu pra beber, não dá certo em nada na vida’, comentava uma tia, uma avó, uma vizinha lá do subúrbio onde nasci e cresci. E minha mente já se incomodava. ‘Ainda bem que sou normal. Estudo, trabalho em dois lugares, me dou bem com meus pais, tenho vários e bons amigos. Cumpro com minhas obrigações’. Como era boa a sensação de ser apenas uma pessoa comum, normal, sem maiores problemas. Como cantava Rita Lee naquela época eu era “uma pessoa comum, um (a) filho (a) de Deus”. Ufa, que alívio!

A correria para concluir os estudos, os estágios, ingressar no mercado de trabalho, ser bem sucedida, viajar, fazer novos cursos, conhecer o mundo, casar, ter filhos, ser boa nisso, excelente naquilo, estar no controle. Nada disso parecia anormal em meus 20 e poucos anos. Mesmo sendo, às vezes, chamada de ‘do contra’, exigente, crítica em demasia, impaciente, e estar, de fato, muito cansada, já havia conseguido, em pouco tempo, muito do que sonhara na infância suburbana: consegui alugar sozinha um apartamento pequeno, mas muito simpático, na ‘Zona Sul’, estava trabalhando na área profissional que escolhi, em uma empresa bem reconhecida no mercado.

Passei de pessoa comum a pessoa comum e feliz. Ou quase. Os problemas da vida adulta surgiam e, como num videogame sem fim, por mais que eu atirasse bombas e balas coloridas contra os monstrinhos também conhecidos por obstáculos, nunca sobrevivia sem alguns arranhões. O ritmo do jogo foi aumentando e eu, resistindo às mais variadas situações (separação, mudança de cidade, demissão, decepção com sócio e amigos etc) estava simplesmente ‘me achando’. Era comum, feliz e pronta para enfrentar o que fosse. Vem, venham cá, problemas. Vocês não me pegam, não.

O cérebro, porém, reage de forma muito, muito diferente da nossa vontade. Ele não me aguentava mais. E ‘virou a chave’. Fui obrigada a olhar nos olhos daqueles personagens imaginários da infância e admitir que pessoas comuns também adoecem, Aliás, não existem pessoas comuns, no sentido de isenta de problemas. E foi nesse momento que passei a ser uma pessoa comum e que, até hoje, sete anos depois do primeiro diagnóstico, continua sendo obrigada a usar medicamentos para equilibrar as emoções.

Sim, embora muita gente não associe depressão a comportamentos de euforia, ela pode estar, sim, alfinetando sua alma enquanto você luta para manter o sorriso naquela festa em que estão todos os seus amigos e coisas do tipo. Sofro de algo chamado transtorno de humor, ou seja, ser do contra excessivamente, mudar de opinião a todo momento, ser inquieto e até insone também são comportamentos que podem indicar depressão. Não por acaso, a ansiedade também cresce assustadoramente no mundo.

Muitas e muitas vezes fui derrubada pelo desejo de fazer mil coisas ao mesmo tempo simplesmente para provar para mim mesma que eu era capaz, que eu tinha o controle, que eu merecia o amor da minha família. O transtorno – a ansiedade gerando depressão gerando mais ansiedade… – pode ter estado sempre ali, mas vários aspectos da ansiedade são vistos como aceitáveis e assim vamos caminhando para uma estrada muito acidentada.

Hoje, consciente do que me afeta, do que me tira do prumo, estou mais atenta aos sinais, e busco, acima de tudo preservar minha saúde – física e mental. O mais importante? Ter a certeza de que tenho amigos de verdade que estiveram e sempre estarão comigo nesse processo”.

* Tem uma história de enfrentamento e superação para contar? Escreva para o blog Vida & Ação ou envie um vídeo. A sua história pode transformar muitas outras – blogvidaeacao@gmail.com

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