Famílias de mortos pela Covid-19 sofrem mais para elaborar o luto

Brasil chora a morte de 160 mil pessoas pela Covid-19. Especialistas falam da dificuldade de elaborar o luto e preservar a saúde mental

Redação

Com 160 mil mortos desde que o primeiro caso de Covid-19 registrado no país, no fim de fevereiro deste ano, o Brasil vive um Dia de Finados certamente ainda mais triste. Para as famílias que nem puderam velar seus mortos, será um dia de muita tristeza. Com as restrições de encontros impostas pelo avanço da pandemia, as mortes ocorridas neste período estão sendo tratadas de outra forma, mesmo para os casos não relacionados à pandemia.

Como medida para reduzir o contágio do vírus, muitos velórios não puderam ocorrer da forma adequada, o que impediu um importante ritual o da despedida do ente querido. Desde o início da pandemia, os velórios estão limitados a 10 pessoas no máximo, com cerimônias de até uma hora. Algumas cidades como São Paulo, Porto Alegre, Natal e Recife, oferecem o velório on-line, serviço que custa em torno de R$ 1 mil e as pessoas podem acompanhar pela internet.

Em muitos casos, este já é um recurso válido, mas a maioria das pessoas ainda tem dificuldades de elaborar a perda sem estar presente. Neste novo cenário, que impossibilita a despedida, muitos enfrentam dificuldades em elaborar o luto, o que pode causar transtornos mentais e emocionais.

Especialista em luto pela PUC-SP, a psicóloga Bruna Borges afirma que o luto pela morte de um familiar, que inclui a vivência do velório e do enterro, é um processo que ajuda as pessoas a compreenderem a perda e a realizar sua última despedida. Ela explica que, quando acontece a morte de alguém próximo, a vida se desorganiza e o velório é o primeiro passo para que ela elabore a perda.

Esta talvez seja uma das consequências mais dolorosas do isolamento social. As soluções tecnológicas, como os velórios on-line, são uma saída, mas ainda não estamos totalmente acostumados a isso e não será igual a uma despedida presencial. Além disso, não é todo mundo que pode ter acesso. Mas é importante respeitar as regras para proteger um número ainda maior de pessoas.”, afirma.

Na segunda semana do isolamento decretado pelas autoridades, a psicóloga teve contato com um amigo próximo que perdeu o avô, em São José dos Campos, no interior de São Paulo. “Acompanhei o sofrimento do Gustavo. O avô dele foi vítima de um infarto fulminante e, em razão dos protocolos de segurança, o corpo foi sepultado imediatamente, sem que a família pudesse fazer uma última despedida”, conta a psicóloga.

Ela explica que o velório e o enterro ajudam os familiares a reconhecerem, compreenderem o que aconteceu e realizarem um processo de despedida. “O enterro tem, sim, o significado simbólico e é importantíssimo para que a pessoa consiga ter um luto saudável. Não estando com a família próxima presencialmente, dificulta o amparo ao familiar mais vulnerável no momento, podendo gerar algumas complicações psicológicas, como a depressão”, explica a especialista.

Como medida para reduzir o contágio do vírus, muitos velórios não puderam ocorrer da forma adequada, o que impediu um importante ritual o da despedida do ente querido. “Essa passagem ajuda no processo do luto e da perda, as pessoas queridas são confortadas e confortam, mas com o isolamento social cada um precisa lidar sozinho com o seu luto”, comenta o médico Kalil Duailibi, professor de psiquiatria da Unisa.

Segundo Kalil, que é também, presidente do Departamento Científico de Psiquiatria da Associação Paulista de Medicina (APM), lidar com o luto é bastante difícil e cada indivíduo tem o seu tempo.  “O luto pode se dar de muitas formas. A perda de alguém muito querido, uma mudança abrupta na forma de viver – como por exemplo o momento em que estamos vivendo –, a dor de perdas pela humanidade, etc.”, esclarece o psiquiatra. “Essa passagem ajuda no processo do luto e da perda, as pessoas queridas são confortadas e confortam, mas com o isolamento social cada um precisa lidar sozinho com o seu luto”, comenta Kalil.

Depressão pode aumentar

Antes mesmo da pandemia em decorrência da Covid-19, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já alertava o mundo a respeito de uma outra epidemia, muito mais silenciosa, mas tão preocupante quanto: a depressão. A OMS já antevia que a depressão seria uma das doenças mais incapacitantes no mundo em 2020. Agora, o que não se previa era que viveríamos uma pandemia que mataria tanta gente em todo o mundo. 

A Associação Americana de Psicologia (American Psychological Association) realizou um estudo recentemente, associando o luto ao momento atual. De acordo com o estudo, as pessoas têm maneiras muito diferentes de lidar com uma perda.  Em alguns casos, a pessoa vive o luto de forma tão profunda que aquilo torna algo inerente aquele indivíduo, gerando transtornos mentais graves, como: depressão, síndrome do pânico e ansiedade.

De acordo com a psicóloga, nestes momentos de crise, é importante também pensarmos nos casais de idosos, porque quando um deles falece o outro não pode se despedir. O idoso então fica sem ter com quem conversar, pode entrar em depressão e até vir a falecer. Segundo Bruna, a única saída para eles, na quarentena principalmente, é estar em constante contato com filhos, netos e amigos, contando com ajuda psicológica.

Vivenciar o luto é saudável, diz neuropsicóloga

Segundo a neuropsicóloga Leninha Wagner, os sentimentos que emergem com o luto são aqueles mais desafiadores de se lidar: perda, dor, despedida, vazio. “Por isso muitas vezes nos sentimos tentados a ultrapassar rapidamente este momento para abreviar o sofrimento. Mas nem sempre o atalho é o melhor caminho a seguir. Sobretudo se estamos falando de como nos relacionar com as emoções”, ressalta.

Segundo ela, as emoções negativas, são extremamente difíceis de serem digeridas. “Mas se acolhermos e compreendermos a finitude humana, encontraremos uma dimensão curativa na elaboração do luto”. Além disso, ela detalha que o luto “é um processo que resulta de uma ‘perda’ significativa para a nossa vida, e se refere a um investimento afetivo que não tem mais quem o ‘receba’. Não se trata, portanto, de um obstáculo a ser vencido o mais breve possível!”.

Leninha lembra ainda que “se não vivermos o luto até o fim, não elaboramos a perda, impedindo o término desse processo”. Na maior parte das vezes, a sociedade compreende o luto como um processo instaurado pela morte ‘concreta’, de alguém próximo. Mas, destaca Leninha, “ele pode estar relacionado também a rompimentos de outras naturezas, ou ao encerramento de ciclos. Como por exemplo, o término de um relacionamento, o rompimento de uma amizade, a perda de um emprego ou mesmo de um projeto de vida”.

A neuropsicóloga detalha, “em qualquer um dos casos, ele é um momento fundamental porque implica na ressignificação de emoções e na restauração do indivíduo após a perda do objeto amado”. Após um tempo, é necessário recolher o investimento afetivo, pois já não há a quem entregar esse sentimento. Para isso, observa Leninha, é fundamental descobrir outras fontes de desejo e de prazer: “Então, o melhor é se permitir passar pelo processo de transformação gerado por esse ‘adeus’ que vai nos preparar para os caminhos que podem surgir no futuro. É importante viver isso para deixar o ‘novo’ chegar”.

É preciso respeitar o processo de cada um

No entanto, vale lembrar que quando se trata de viver o luto, não existe um padrão de comportamento a ser seguido, acrescenta Leninha: “Algumas pessoas ficam mais à flor da pele, sentem vontade de falar, chorar e de contar com a companhia de alguém. Mas há quem opte em se recolher porque precisa desse isolamento para reorganizar as emoções. Não existe uma maneira ‘melhor’ ou ‘pior’ de vivenciar essa experiência, então o mais importante é respeitar o processo de cada um”.

Nesse sentido, Leninha Wagner lembra que “existem várias gradações do luto, em alguns casos ele pode ser mais longo, em outro, ele pode ser mais breve. Se a pessoa sentir que precisa de ajuda, é fundamental que ela possa pedir sem medo, que ela não se furte a esse direito. Nessas horas a postura dos amigos e familiares que estão em volta faz total diferença”.

Mas atenção: Leninha ressalta que “negar a expressão da dor do outro com comandos como ‘não chore’, ‘pare de sofrer, porque ele (a) não quer te ver triste’ são desencorajadores. Você estará ajudando muito mais se demonstrar entender a dor do outro. O outro precisa ver a sua dor ‘legitimada’, afinal aquela morte abriu um ‘rombo de dor e saudade’ em seu coração. Então é preciso deixar a pessoa à vontade para experienciar a dor do seu jeito, sem que seja censurado. Isso é importante para o processo de ‘cura”, explica.

Quando é necessário acompanhamento psicológico?

É difícil medir, mas Leninha observa quando a pessoa fica parada no tempo em que o outro se foi, não consegue falar de marcos de outros tempos, é bom ficar alerta. “Principalmente se percebemos que o tempo passou e nada se realocou. Claro que alguns podem se fortalecer mais rápido, mas a sensação de imobilidade por um longo período é preocupante”.

No entanto, o extremo desse comportamento também gera preocupação, isto é, “não entrar em contato com essa dor. Pois estamos conectados o tempo todo, e em época de pandemia esse comportamento se intensificou. E as grandes infelicidades não aparecem nos palcos das redes socais, todos querem parecer e aparentar que estão felizes”. Essa “ditadura da felicidade” pode se esconder, avalia Leninha, “nos bastidores, causando doenças reais, como depressão, ansiedade, síndrome do pânico etc.”.

A neuropsicóloga ressalta que é importante avaliar cada passo dado, pois “estamos trabalhando remotamente e de forma quase incessante, não ter tempo para elaborar as dores da vida, nos movimentos naturais de perda e finitude é negar vive como humanos que somos, é adoecer!” Assim, a preocupação é pertinente, pois quando “perdemos alguém ou algo que amamos, e entramos novamente na roda da vida, atendendo a demanda do mundo externo sem nos conectarmos com nossos conteúdos internos”, é nos tornarmos estranhos e desconhecidos à nós mesmos.

O luto, completa Leninha, “deve nos permitir entrar em contato com nossa característica mais concreta: a finitude. Somos seres vivos, tudo que é vivo tem um começo, um meio e um fim. Por isso o tempo e a vida, são tão caros. Porque partimos”. “Precisamos viver antes de morrer”, aconselha.

Como ocorre a elaboração do luto

Leninha Wagner destaca que o processo de luto “é instalado para a elaboração de uma perda, consistindo no desligamento da libido a cada uma das lembranças e expectativas relacionadas ao objeto perdido, por isso, é considerado um processo lento e penoso”. E suas fases são:

1- Negação: “Eu estou bem”.

2- Raiva: “Isto não é justo”.

3- Negociação: “Eu faria qualquer coisa pra não passar por isso”.

4- Depressão “Eu estou tão triste”.

5- Aceitação: “Era pra ser assim”.

“A perda de algum objeto amado traz, ainda que momentânea, a fragmentação e desestruturação do sujeito. O luto é um processo de reconstrução e reorganização diante de uma perda, desafio psíquico com o qual o sujeito tem de lidar”, completa a neuropsicóloga. E ela finaliza: “Diante de um luto patológico, da impossibilidade de elaborar uma perda, onde a pessoa não consegue se reorganizar, busque ajuda profissional”, alerta.

A pandemia da doença do coronavírus 2019 (COVID-19) mudou a vida das pessoas de muitas maneiras. Além de sentir luto pela perda de vidas causada pela COVID-19, você provavelmente está de luto pela perda da sua rotina normal.

Entendendo o luto causado pela pandemia do coronavírus

Restrições para ficar em casa impostas para prevenir a disseminação da Covid-19 afetaram os empregos das pessoas, a maneira com que crianças brincam e vão à escola e a habilidade de se reunir em pessoa com amigos e família. Essas medidas também mudaram a maneira com que as pessoas fazem compras, praticam suas religiões, se exercitam, comem e buscam entretenimento. Como consequência, a pandemia teve um impacto psicológico profundo, fazendo com que as pessoas perdessem seus sensos de segurança, previsibilidade, controle, liberdade e proteção.

Por que a perda da rotina é tão desoladora? Você pode não perceber, mas você não se apega somente a outras pessoas. Você também provavelmente sente fortes vínculos com seu trabalho e com certos lugares e coisas. A experiência de perder esses vínculos, porém, não é tão bem definida quanto algumas perdas. E finais inesperados podem causar emoções intensas. Isso pode tornar difícil lidar com o que aconteceu e seguir em frente.

Você talvez também sinta que mudanças trazidas pela pandemia estão afetando seu senso de identidade. Por exemplo, se sua identidade é ligada estreitamente com seu emprego, perdê-lo pode provocar uma crise de identidade.

Sinais e sintomas de luto

Luto pode fazer com que você se sinta entorpecido ou vazio, com raiva, ou incapaz de sentir alegria ou tristeza. Você também pode ter sintomas físicos, como problemas para dormir ou comer, fadiga excessiva, fraqueza muscular ou tremores. Você pode ter pesadelos ou retirar-se socialmente.

Lembre-se, porém, de que o luto pode ter efeitos positivos também. Por exemplo, você pode se sentir grato por pessoas corajosas e atenciosas em sua comunidade. Você pode encontrar uma nova apreciação por seus relacionamentos e ter desejo de ajudar outros que estão passando por perdas similares.

Lidando com o luto

Por pior que faça você se sentir, o luto serve um propósito importante. O luto ajuda você a reconhecer que passou por uma perda e que precisará se adaptar. Veja algumas orientações para lidar com o luto:

  • Preste atenção nos seus sentimentos. Cite o que você perdeu durante a pandemia. Talvez ajude escrever isso em um diário. Permita-se sentir tristeza ou chorar.
  • Pense nas suas forças e habilidades de superação. Como elas podem te ajudar a seguir em frente? Pense em outras transições difíceis pelas quais você passou, como uma troca anterior de emprego ou um divórcio. O que você fez que o ajudou a se recuperar?
  • Mantenha-se conectado. Não permita que o distanciamento social o previna de conseguir o apoio de que você precisa. Use ligações, mensagens de texto, chamadas por vídeo e mídias sociais para manter contato com seus familiares e amigos que são positivos e encorajadores. Procure aqueles que estão em situações similares. Animais de estimação também podem fornecer apoio emocional.
  • Crie uma rotina adaptada. Isso pode ajudar a preservar um senso de ordem e propósito, apesar do quanto as coisas podem ter mudado. Além do trabalho ou estudo remotos, inclua atividades que possam ajudá-lo a lidar com a situação, como exercício, prática religiosa ou passatempos. Mantenha um horário regular para ir dormir e tente manter uma dieta saudável.
  • Limite a quantidade de notícias que você vê. Passar tempo demais lendo ou escutando notícias sobre a pandemia da COVID-19 pode fazer com que você foque demais naquilo que perdeu, além de aumentar a ansiedade.
  • Lembre-se da jornada. Se você perdeu seu trabalho, você não tem que deixar o jeito com que acabou definir a experiência toda. Pense em algumas de suas memórias boas e no panorama geral.
  • Quando procurar ajuda. Conforme você se ajustar a uma nova realidade e focar nas coisas que pode controlar, seus sentimentos de luto irão diminuir. Se você está tendo problemas em lidar com seu luto causado pelas mudanças decorrentes da pandemia, considere procurar ajuda de um profissional de saúde mental.

As cinco fases do luto

A visão de boa parte do público sobre o luto se restringe à ideia de adaptar-se emocionalmente à vida depois da perda de uma pessoa amada. Contudo, o processo tem utilidade muito mais ampla e ajuda a lidar com alterações abruptas do cotidiano, como as impostas pela pandemia do novo coronavírus.

Quando falamos de luto não nos referimos somente à morte, mas à perda de qualquer objeto de amor significativo, que exija um processo de aceitação, adaptação e reorganização psíquica para viver. Por exemplo, podemos precisar elaborar o luto pelo fim de um relacionamento ou pelo fim de uma fase da vida, como infância e adolescência”, explica a psicóloga perinatal Helena Aguiar, especialista em psicoterapia na infância e adolescência da Perinatal no Rio de Janeiro.

Não raramente associa-se o luto às cinco fases – negação, raiva, negociação ou barganha, depressão e aceitação – propostas pela psiquiatra Elisabeth Kubler-Ross. De acordo com Helena, o modelo baseia-se em comportamentos e sentimentos recorrentes em pessoas enlutadas, mas não consiste em uma regra.

Sabemos hoje que o processo de luto não é linear. Justamente pela singularidade de cada pessoa diante de cada perda, sempre particular. Mas é frequente que apresentem essas reações, não como fases que são superadas, mas como momentos vividos. Alguns experimentam todas essas reações, outras só algumas. Às vezes, esses sentimentos vão e voltam”, ressalta a psicóloga.

Segundo ela, o luto não funciona como um remédio, que erradica a doença em um organismo, nem consiste em um caminho para superar a dor da perda. Trata-se de uma forma de atribuir significado à ausência do que se perdeu e de conviver da forma mais saudável possível com o irreparável desfalque sentimental. É um exercício que, por vezes, exige esforços durante toda a vida, segundo Helena.

O que se deve atentar é que, durante a fase mais aguda deste processo de luto, o enlutado pode se descuidar muito da saúde e até apresentar comportamento de risco à sua integridade. Por isso, é muito importante que a rede de apoio esteja presente, dando um suporte e procurando estar atento a sinais preocupantes, como Insônia recorrente, comportamentos auto-agressivos, ideação suicida, negligência acentuada com hábitos de higiene ou alimentação”, alerta a especialista.

As fases do luto em tempos de coronavírus

Por Ellen Moraes Senra

Perdemos, repentinamente, o direito de ir e vir. Parece exagerado?

Pode até parecer, mas fato é que um dia estávamos bem, aquém de qualquer situação que se poderia passar no Brasil, no outro dia entraram com a suspensão das aulas, poucos dias depois veio a determinação do isolamento social e a interrupção de diversos serviços que utilizávamos diariamente. Inclusive, para alguns, seu próprio trabalho.

Inicialmente, indignação, temor, desespero, ansiedade. Logo depois, revolta, questionamento sobre a real necessidade, mais temor, dessa vez pela renda mais até do que pelo medo de adoecer e, em seguida, resignação. Mas ainda seguido de muito temor, entretanto, dessa vez os medos se misturam.

Parece familiar?

O que seria esse processo se não o momento de negação, depressão, raiva relatados como três das cinco fases do luto?

Mas não para por aí, entramos em oração, reza, meditação ou qualquer processo espiritual esperando por uma cura, por salvação, aguardando desesperadamente que algo nos liberte desse mal que assolou não apenas nosso País, mas o mundo.

Seria, então, o momento da barganha, o momento de oferecermos melhorias pessoais em troca da cura, de doações em busca de ajudar ao próximo, mas também de elevação espiritual, mais barganha, algo que só nos faz sentir melhor, mesmo que momentaneamente.

Nos revoltamos com o vírus, nos revoltamos com o governo, alguns foram (outras ainda são) contra o isolamento, porém, fato é que todos paramos.

Paramos para refletir, para compreender o que se passa, para comparar dados, para ver notícias. Paramos nossas vidas. Opa! Não paramos nossas vidas não, elas seguem, mas chegamos na então aceitação. Não a aceitação necessariamente de que algo lá fora irá nos adoecer, mas sim de que não há muito o que possamos fazer, pois mesmo quem não desejava parar, precisou.

Pois sem pessoas nas ruas não há rotatividade, o que faz com que muitas pessoas tenham seus negócios congelados temporariamente. O o problema é que não sabemos quão temporário será.

A hora da aceitação

Chegamos na última fase do luto, mas a questão sobre o luto é que não é um processo unilateral. As fases se misturam e se repetem incessantemente.

Quantas vezes for pertinente, nos sentimos inseguros em diversos momentos, contudo, ao mesmo tempo começamos a viver diferente, a nos adaptar à nova realidade, mesmo que exista um prazo de validade para que ela se modifique novamente.

Aprendemos a nos isolar, mesmo que alguns não o façam completamente, aprendemos a estar presente de fato com aqueles que amamos, aprendemos novamente sobre maternidade, paternidade, gestão de tempo, procura e demanda.

A costureira passou a fabricar máscaras, mães e pais aprenderam a brincar com os filhos e a exercitar mais a paciência, profissionais aprenderam a dar novo significado ao seu negócio, ainda que não fosse o que desejavam de fato, e aprendemos um novo conceito de nos reunir, dessa vez a distância.

E assim por diante o aprendizado se segue, mas o luto também e tudo bem, que assim o seja, afinal, é tudo novo, tudo incerto e a nós cabe apenas fazer a nossa parte e lidar com cada fase desse luto que surgiu repentinamente em nossas vidas.

Mas que, com colaboração mútua, há de passar!

*Psicóloga, palestrante, escritora e professora universitária.

A ressignificação do luto e da morte com a pandemia de Covid-19

Por Padre Sérgio Baldin Júnior*

A pandemia de Covid-19 promoveu transformações significativas em nossas relações sociais no trabalho, na família, na escola, entre outros espaços. Seus impactos chegaram até mesmo à forma como lidamos com o luto e a perda provocada por esta grave crise. As exigências sanitárias de isolamento social e quarentena impediram que as famílias que lidaram com a morte nesse período pudessem adotar os ritos e protocolos comuns até então. A celebração de Finados em 2020 torna-se, portanto, um momento de aceitar a ressignificação desse tema para os próximos anos.

Desde a chamada Gripe Espanhola no início do século 20, o mundo não encarava uma crise sanitária tão grave e global como esta. No fim de setembro, com sete meses de pandemia, eram mais de 1 milhão de mortos em todos os continentes. Apenas no Brasil, um país que só agora registra queda no número de óbitos, foram mais de 150 mil vítimas até meados de outubro. Mais de 150 mil famílias que não puderam se despedir de seus entes queridos, uma vez que as restrições chegaram aos velórios, com horário reduzido, limitação de número de pessoas e caixão lacrado.

O luto está envolvido em uma cerimônia social de passagem e despedida. Há valor simbólico grande e aspecto psicológico fundamental para a retomada do sentido da vida e para a superação da ausência. Uma pessoa partiu, mas permanecemos solidários uns aos outros graças a esse sentimento. Contudo, como em outros momentos trágicos da história recente da civilização, essas marcas deixarão memória profunda nas narrativas sociais e familiares. Na maioria das vezes são parecidas com a sensação de que algo não foi finalizado, de certa incompletude que precisa ser satisfeita.

Isso pode ocasionar perda de sensibilidade com relação à morte e todo o simbolismo que ela traz consigo. Tal situação já estava em curso na sociedade contemporânea com a mudança de estilo de vida, mas pode ser potencializada a partir da pandemia de Covid-19. Entretanto, pode levar a um impacto inesperadamente positivo: a crença de que o ser humano é invencível e a noção de morte como algo distante da realidade de muitas pessoas (já que vivenciaram poucas experiências de luto) podem dar lugar a uma mudança no sentido que cada um dá a sua vida, graças à proximidade e à evidência da fragilidade humana.

As mudanças na forma dos velórios e enterros são os principais pontos que reforçam essa significação. Do ponto de vista antropológico e cultural, trata-se de ritualidade cheia de sentido e significado, religioso ou não, que permite a elaboração do luto de maneira mais afetiva e efetiva. Agora, com o avanço do número de mortes pela Covid-19, percebe-se uma tentativa de racionalização do processo de morte, uma cujas vítimas não puderam sequer ser vistas. É uma ressignificação em um primeiro momento, mas pode levar a um prolongamento psicológico do processo de luto.

Assunto ainda tabu na sociedade, ficou claro nos últimos meses que a morte faz parte da vida, estejamos preparados ou não. Na ausência do velório e dos demais ritos que tradicionalmente utilizamos para nossos mortos, é preciso criar outras formas de despedida coletiva que envolvam a memória da pessoa falecida e que possam amenizar esse luto que precisa ser elaborado internamente. Só assim estamos prontos para aceitar a situação e encontrar forças para seguir em frente com os desafios e perigos que surgem continuamente em nossa frente.

* Padre Sérgio Baldin Júnior é Coordenador do Curso de Filosofia e Coordenador de Missão Institucional do Centro Universitário Salesiano de São Paulo – UNISAL.

Data é celebrada desde o século X

A palavra “Finados”, significa algo que findou, se foi ou morreu. Em nosso país, esse dia, tradicionalmente lembrado em 2 de novembro, é dedicado a homenagear os entes queridos que já morreram, visitar seus túmulos, levar flores e orar pelas suas almas.

Conforme registros históricos, a tradição do Dia de Finados foi instituída pela Igreja Católica no século X e diz que os vivos devem interceder pelas almas que estão no purgatório esperando a purificação. Mas, o costume é mais antigo do que se imagina. Desde o século II, ao que tudo indica, já se tem indícios de cristão que rezavam por seus falecidos, visitando os túmulos dos mártires e pedindo pelos que já morreram.

Aos poucos, então, a Igreja foi aderindo ao costume e no século V já era costume dedicar um dia do ano para rezar por todos os mortos, especialmente pelos quais não tinham família e ninguém se lembrava de pedir por suas almas.

Mas, a escolha do dia 2 de novembro como a data oficial para celebrar o Dia de Finados só foi feita mesmo no século XIII. Os responsáveis pela Igreja escolheram o dia por suceder o Dia de Todos os Santos, tradicionalmente comemorado em 1º de novembro.

Com Assessorias