Diabetes x Covid-19: como prevenir e cuidar da doença em tempos de pandemia

Pesquisa com 1.700 brasileiros mostrou que maioria adiou consultas adiadas e teve alta na taxa de glicose. Confira nossa live de segunda (16)

Redação

Levantamento da International Diabetes Federation (IDF) identificou que 59,4% das pessoas com diabetes no Brasil apresentaram variação na glicemia no período da pandemia. Realizada entre 22 de abril e 4 de maio e publicada na revista Diabetes Research and Clinical Practice no dia 3 de julho, a pesquisa mostrou os impactos da Covid-19 em pessoas com diabetes.

Conduzido por um grupo de instituições nacionais e internacionais, incluindo a Universidade de São Paulo (USP), o estudo revelou que os portadores da doença alteraram seus hábitos durante a quarentena, o que causou uma piora nos níveis glicêmicos. Se infectadas, essas pessoas podem desenvolver formas mais graves de Covid-19.

Dos 1.701 brasileiros entrevistados, 38,4% adiaram suas consultas médicas e a realização de exames. Dos 91% que monitoram a glicemia, a maioria (59,4%) percebeu alterações como aumento (20%), diminuição (8,2%) ou maior variabilidade (31%) nas taxas de glicose. Para piorar a situação, houve aumento de 29,8% na ingestão de alimentos e o sedentarismo também cresceu, já que a maioria (95%) passou a ficar mais tempo em casa e diminuiu a rotina de atividades físicas. Quase 49% aumentaram o tempo em frente à TV e 53% acessaram mais a internet.

Para falar sobre a relação entre diabetes e Covid-19, riscos de contágio, como prevenir e se cuidar melhor, o #PapodePandemia do Portal ViDA & Ação traz excepcionalmente nesta segunda-feira (16) um encontro entre duas especialistas no tema e uma paciente diabética que acaba de se curar da doença causada pelo novo coronavírus.

A 25ª live do projeto reuniu as endocrinologistas Jacira Caracik, diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional São Paulo (Sbem-SP), e Isabella Calil, médica assistente do Ambulatório de Obesidade e Transtornos Alimentares do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (Iede-RJ), e a jornalista Sheila Vasconcellos, vice-presidente da Associação de Diabéticos da Lagoa (Adila).

Apresentado pela jornalista Rosayne Macedo, editora do Portal ViDA & Ação, está na página do Facebook e no canal do Youtube. A série de encontros faz parte do Especial Diabetes, que ViDA & Ação publica desde o último dia 13, por ocasião do Dia Mundial de Combate ao Diabetes (14 de novembro). O #PapodePandemia foi iniciado em junho e já reuniu mais de 40 renomados especialistas para discutir os diferentes impactos da pandemia do novo coronavírus.

Redução nas atividades físicas e dificuldades no acesso a insumos

Nos cuidados de rotina, todos sabemos que é importante manter uma alimentação saudável e a prática de exercícios, já que essas atividades ajudam a manter a glicemia em níveis seguros. Mas muitos diabéticos deixaram de lado a atividade física durante a pandemia. “Quase 60% das pessoas reportaram redução nos exercícios”, relata Mark Thomaz Ugliara Barone, vice-presidente da Federação Internacional de Diabetes e primeiro autor do estudo.

Outro dado preocupante é que parte dos pacientes relatou dificuldades em receber os insumos necessários para controlar o metabolismo. Do total de 64% dos pacientes que obtêm os produtos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), apenas 21% deles receberam os medicamentos para 90 dias, conforme recomendação do Ministério da Saúde. Os dados foram coletados entre 22 de abril e 4 de maio de 2020.

O questionário, composto por 20 questões de múltipla escolha, foi enviado por meio das redes sociais de associações e grupos de diabetes. De todos os participantes, 75% eram mulheres, 78% tinham entre 18 e 50 anos e 65% moravam na região Sudeste. A maioria (60%) era portadora de diabetes tipo 1 e 31% do tipo 2. Além disso, 39% tinham acesso ao serviço privado de saúde e 33% deles utilizavam tanto o sistema público quanto o privado.

Complicações e comorbidades

Com todas as respostas da pesquisa em mãos, coube a Viviana Giampaoli, professora do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP, construir um mapa de relações para estabelecer as associações entre idade, ocorrência dos sintomas da Covid-19, tipos de diabetes e a evolução de algumas comorbidades, por exemplo.

Vimos que as pessoas com diabetes do tipo 2 controlam menos a glicemia e apresentaram maior frequência de outras doenças e complicadores, como problemas de saúde mental. Vários pacientes com diabetes tipo 1 apresentaram sintomas de Covid-19 e não foram testados, mesmo convivendo com familiares infectados”, explica a médica.

Segundo Barone, eesses fatores vão ter um impacto importante sobre os autocuidados, por isso a população precisa ter um acesso otimizado ao serviço de saúde. “No questionário, havia um campo de observação onde os pacientes escreveram relatos desesperados sobre a dificuldade de entrar em contato com os médicos pessoais”, enfatiza.

A maioria dos entrevistados teve aumento da glicemia - Foto: Marcos Santos / USP Imagens
A maioria dos entrevistados teve aumento da glicemia – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Desde o início da pandemia, os serviços de saúde de rotina foram reorganizados ou descontinuados. Outros profissionais foram redirecionados para trabalhar na linha do combate à Covid-19. “Com isso, a população precisa ser informada de como proceder e que alternativas possuem caso apresentem sintomas causados pelo novo coronavírus”, afirma Barone.

Agravamento de doenças crônicas

Uma pesquisa virtual, realizada pela Organização Pan-americana de Saúde (Opas) – organismo internacional que atua como escritório regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para as Américas -, confirmou que a interrupção dos serviços de rotina é uma ameaça à saúde das pessoas portadoras das chamadas doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), como diabetes, câncer e doenças cardiovasculares.

A situação é preocupante porque pessoas com DCNTs têm mais riscos de ficarem doentes se forem infectadas pelo novo coronavírus. Antes da pandemia, 81% de todas as mortes nas Américas ocorriam em razão dessas doenças. Estima-se que 62 milhões de pessoas vivam com diabetes na América Latina e no Caribe. Já o Brasil tem 17 milhões com a doença.

O estudo foi feito no mês de maio em 158 países. Os coordenadores do trabalho esperam que os resultados cheguem, principalmente, aos tomadores de decisão, e que eles entendam que algo precisa ser feito. “Temos que garantir que essas pessoas recebam os medicamentos para 90 dias de tratamento”, diz Viviana.

Barone se diz preocupado porque os diabéticos não estão recebendo o acompanhamento necessário. “O cenário mudou. Se antes eles se mantinham saudáveis, agora eles precisam se adaptar e receber orientações”, explica. “Não basta só ficar em casa!”


Maior risco de diabetes durante a pandemia

A campanha Diabetes Novembro Azul deste ano alerta sobre o maior  risco da doença durante a pandemia do novo coronavírus. “O maior risco da Covid-19 entre diabéticos está relacionado  ao aumento da glicemia provocado pela infecção e também porque a viscosidade do sangue nesta parcela da população facilita a formação de trombos”, aponta o oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, do Instituto Penido Burnier.  

As estimativas de casos de diabetes no Brasil – 16,8 milhões, segundo a Federação Internacional de Diabetes – se baseiam nos casos diagnosticados, portanto, os números reais assustam porque podem ser ainda maiores do que os registrados, já que muitas pessoas possuem diabetes sem saber.

Um fator torna a situação ainda mais agravante: a pandemia do coronavírus. Em função desse cenário de incertezas pelo qual o mundo continua passando, a população precisou se adaptar a diversas situações que antes não faziam parte da rotina, além do desencadeamento de emoções e sentimentos aflorados. Muitas pessoas deixaram de ser diagnosticadas este ano por conta do medo de contaminação pela Covid-19, o que pode ainda ainda mais a subnotificação do diabetes no país.

A longa quarentena impactou diretamente os pacientes, pois tiveram seus hábitos alterados no que diz respeito ao padrão de alimentação, já que muitas pessoas saíram da dieta e, com isso, aumentaram a ingestão de alimentos; prática de atividades físicas – houve a diminuição em decorrência do distanciamento social; controle da doença – muitos pacientes deixaram o monitoramento da glicose um pouco de lado em função de stress ou alteração em seus hábitos; e acesso aos serviços de saúde – houve o cancelamento ou adiamento das consultas para evitar a proliferação do coronavírus.

Com Assessorias