Em nova ‘saidinha’, Bolsonaro contraria isolamento social

Pelo terceiro dia consecutivo, presidente promove aglomerações, ignorando recomendação do ministro da Saúde para evitar avanço da pandemia

Redação

Na Sexta-Feira da Paixão, muitos cristãos católicos lembram a crucificação de Jesus, sua entrega e sacrifício. Pela tradição judaica é quando a maioria dos fieis mantém comedimento em suas ações e reflete sobre seus atos. Em plena pandemia mundial do novo coronavírus, a data teve um significado ainda maior, num momento em que o mundo se recolhe a sua insignificância diante de um “inimigo invisível”, que já atingiu mais de 1,6 milhão de pessoas e matou mais de 110 mil.

Pois aqui no Brasil o presidente Jair Bolsonaro, que se diz cristão, escolheu a Sexta-Feira Santa para desafiar, mais uma vez, a ciência, o bom senso e o espírito cívico e humanitário. Em mais uma de suas “saidinhas”, voltou às ruas, ignorando o isolamento social. Após sair do Hospital das Forças Armadas, foi até uma farmácia e tripudiou jornalistas que o acompanhavam: “Fui comprar teste de gravidez”, disse, invocando seu “direito constitucional de ir e vir”. Além de alguns aplausos, ouviu vaias e até bater de panelas nas ruas. “Vai pra casa, Bolsonaro” e “Fora bolsonaro”, gritavam moradores.

Com seus rompantes, sempre destilando ironia contra os jornalistas – acusando-os de fazer ‘aglomeração’ em torno dele -, Bolsonaro, mais uma vez, contraria a recomendação de isolamento social, apontada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como a principal medida para conter o avanço da covid-19 em todo o mundo. É também mais uma afronta ao seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que pede “calma, disciplina e foco” à população neste momento em que a epidemia está em plena fase de aceleração descontrolada em estados populosos como São Paulo e Rio de Janeiro.

Neste Sábado de Aleluia, quando a ressurreição de Cristo é celebrada no calendário cristão, Jair Bolsonaro repetiu a dose, após visitar obras de hospital de campanha no entorno de Brasília. Ele se aproximou dos apoiadores e, sem máscara, os cumprimentou. Uma mulher até beijou sua mão. Mandetta, que acompanhou a visita, evitou criticar o chefe. “Eu posso, no máximo recomendar. Não posso fazer as coisas. Eu não julgo ninguém”. E reforçou que a recomendação é para “todos os brasileiros”.

Foi o terceiro dia seguido de saidinhas do presidente. Na quinta-feira (9), Bolsonaro também deixou o Palácio do Planalto e foi a uma padaria, acompanhado de seu filho deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), e do ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas. No local, fez um lanche, desrespeitando decreto que proíbe consumo de alimentos em estabelecimentos comerciais de Brasília. Cometeu desobediência civil e legal e ainda expôs pessoas a risco, justamente num momento em que o país sobe a ladeira da pandemia.

O Ministério da Saúde mantém a recomendação de isolamento social como forma de achatar a curva de infecção para evitar a sobrecarga do sistema de saúde, que não conseguiria atender a todos os pacientes. Para Mandetta, na próxima semana “vamos colher os frutos da difícil redução da mobilidade social”, determinada por estados e municípios nas últimas duas semanas. “Hoje eu vi que o pessoal começou a andar mais, vamos pagar esse preço ali na frente”, disse, em vídeo publicado nas redes sociais.

Presidente volta a defender ‘normalidade’

  • Na manhã deste sábado, Bolsonaro compartilhou novamente um vídeo de uma entrevista de duas semanas atrás em que critica as medidas de isolamento social adotadas por estados e municípios para o controle do coronavírus. “Certas autoridades estaduais e municipais estão tomando medidas, no meu entender, além da normalidade, proibindo tráfego de pessoas, tráfego em rodovias, fechando empresas e fechado comércios”, disse Bolsonaro no vídeo.
  • Ele vem demonstrando preocupação com as consequências econômicas do novo coronavírus desde seus primeiros comentários sobre o tema. Em um dos pronunciamentos em rede nacional mais incisivos até aqui, em 24 de março, o presidente se posicionou contra a quarentena. “Devemos, sim, voltar à normalidade”, afirmou na ocasião.
  • Há alguns dias, também durante o final de semana, o presidente esteve no HFA e foi a supermercados e estabelecimentos abertos em diferentes locais da capital federal. O presidente defende a reabertura de comércios fechados por causa da pandemia da covid-19, para, segundo ele, não comprometer demais a atividade econômica e levar ao desemprego de brasileiros.
  • “Temos dois problemas que não podem ser dissociados, o vírus e o desemprego. Ambos devem ser tratados com responsabilidade. Mas se o remédio for demasiado, o efeito colateral será muito mais desastroso”, escreveu o presidente recentemente em postagem no Twitter.

Visitas a obras de hospital de campanha

Acompanhado do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM) – que tinha rompido com o presidente por conta do isolamento social -, Bolsonaro visitou na manhã deste sábado (11) as obras de construção do primeiro hospital de campanha em Águas Lindas (GO). A unidade terá 200 leitos adaptáveis para unidades de tratamento intensivo para atender pacientes com a covid-19.

A gente espera que ninguém ocupe. É igual seguro de vida, a gente paga, mas espera não usar. A gente está fazendo o possível. Temos um preço bastante alto para pagar, mas em troca de vidas, tudo é possível. A gente pede a Deus que tudo dê certo. Como disse o [ministro da Saúde, Luiz Henrique] Mandetta, há uma preocupação nossa com a questão do emprego também, temos que colocar um limite em tudo o que for possível para não extrapolar”, afirmou o presidente Bolsonaro. 

  • Caiado, que é médico, passou álcool em gel antes de cumprimentar o presidente. Ele havia criticado duramente o antigo aliado no dia 25 de março, por conta do pronunciamento em que Bolsonaro minimizou a covid-19, chamando-a de “gripezinha”, e incentivando a população a voltar às suas rotinas para evitar um colapso da economia. Na ocasião disse que não poderia “lavar as mãos” pela postura de Bolsonaro.
  • A visita em conjunto neste sábado foi uma tentativa de reaproximação por parte de Bolsonaro. “A discordância em relação às propostas de como se trata o coronavírus é uma decisão pessoal. Eu sigo a parte da ciência e as regras do ministério da Saúde. Essa é minha posição. As regras implantadas em Goiás são a do Ministério da Saúde. A minha posição é contra a liberação do isolamento”, disse o governador.
  • O hospital de campanha, instalado em uma área de 10 mil metros quadrados, terá 200 leitos se semi-UTI (Unidade de Terapia Intensiva) para atender pacientes de Goiás e do Distrito Federal. A construção começou a há uma semana e a previsão é que esteja pronto em 15 dias. O governo federal arcará com o custo de R$ 10 milhões para a construção e manutenção do hospital por quatro meses. Já os custos com equipe médica e materiais serão de responsabilidade do governo de Goiás.
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  • Presidente coloca brasileiros ’em grave perigo’, diz ONG

  • O presidente Jair Bolsonaro coloca os brasileiros “em grave perigo” ao “incitá-los a não seguir o distanciamento social e outras medidas para conter a transmissão da Covid-19”, disse hoje, em comunicado, a ONG Human Rights Watch, que defende os direitos humanos no mundo. De acordo com a organização, Bolsonaro “age de forma irresponsável, disseminando informações equivocadas sobre a pandemia”.
  • Bolsonaro tem sabotado os esforços dos governadores e do seu próprio Ministério da Saúde para conter a disseminação da Covid-19, colocando em risco a vida e a saúde dos brasileiros. Para evitar mortes com essa pandemia, os líderes devem garantir que as pessoas tenham acesso a informações precisas, baseadas em evidências, e essenciais para proteger sua saúde. o  presidente Bolsonaro está fazendo tudo, menos isso”, afirmou José Miguel Vivanco, diretor da Divisão das Américas da HRW.
  • STF livra presidente de notícia-crime

  • Acusado de violar os artigos 267 (causar epidemia) e 330 (desobediência) do Código Penal por ter saído para cumprimentar apoiadores em frente ao Palácio do Planalto no dia 15 de março, o presidente Jair Bolsonaro se livrou de responder civilmente por desrespeitar determinações sanitárias de combate ao novo coronavírus.

O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu arquivar na quarta-feira (8) a notícia-crime apresentada pelo advogado André Magalhães de Barros contra o presidente, após manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR). Em seu parecer, o vice-procurador-geral Humberto Jacques entendeu não haver indício de delito, pois naquele dia não havia indicação médica para que o presidente ficasse em isolamento, nem norma federal em vigor que restringisse a circulação para fins de combate ao vírus.

  • Na decisão de arquivamento, Marco Aurélio escreveu que “não há notícia de ter sido o Presidente da República infectado com o novo coronavírus”, motivo pelo qual o comportamento de Bolsonaro não poderia ser enquadrado no Artigo 267 do Código Penal. O ministro também considerou que não houve desobediência a determinação do Poder Público.

Pesquisa: cariocas reprovam atuação de Bolsonaro

O Rio de Janeiro, cidade onde o presidente Jair Bolsonaro começou sua trajetória política, ainda como vereador em 1989, reprova a forma com que ele tem conduzido a crise do coronavírus. Pesquisa do Instituto GPP feita entre 21 e 23 de março aponta que 44,7% dos cariocas consideram ruim ou péssima a atuação de Bolsonaro no enfrentamento ao covid-19. Para 24,6%, seu desempenho é ótimo ou bom. Outros 25% classificaram sua performance como regular. Já 5,5% não souberam responder.

A maior rejeição à atuação de Bolsonaro na crise vem dos moradores da região litorânea (57,4%), dos jovens entre 16 e 24 anos (64,4%), das pessoas com nível superior (55,1%), de quem tem renda de cinco salários mínimos para cima (50,5%) daqueles que estão desempregados ou fazem “bicos” (54%).

Entre os entrevistados com maior grau de escolaridade, 23,8% aprovam a postura do presidente. Para 18,9% desse grupo, a gestão diante da crise é regular. O GPP ouviu 800 pessoas por telefone. A margem máxima de erro é de 9,7 pontos percentuais para cima ou para baixo. O índice de confiança da pesquisa é de 95%.

  • Com Agência Brasil