Epidemia de fake news: um risco à prevenção de doenças

Especialista explica como as fake news descredibilizam a ciência para manipular ideologias. Movimento antivacina também é ameaça

Redação
A nova investida dos grupos antivacinas brasileiros é contra a Covid-19, com a divulgação de fake news a respeito da doença. A União Pró-vacinas apurou que foram feitas 213 postagens entre 15 e 21 de março, de autoria de dois desses grupos públicos antivacinas mais ativos no Facebook. Desse total, 139 postagens se referiam ao coronavírus, o que exigiu grande empenho dos pesquisadores do Ministério da Saúde para desmentir as informações divulgadas e a rebater as afirmações de negação de evidências científicas.
A preocupação geral é de que essas inverdades agravem ainda mais a situação da pandemia, o que expõe o alto grau de irresponsabilidade de quem compartilhas esse conteúdo.Uma forma de combater os efeitos das fake News e a busca por informações de fontes confiáveis, como o infectologista Guido Carlos Levi e os pediatras Monica Levi e Gabriel Oselka, autores do livro Vacinar, sim ou não? Um guia fundamental, uma defesa veemente em favor da vacinação.

Para eles, os antivacinistas estão na contramão da história, já que milhares de pessoas se beneficiam da imunização há mais de 300 anos. O mais complicado, segundo eles, é que não existe respaldo científico para muitas afirmações e, pior: os movimentos contrários têm feito ressurgir epidemias que se consideravam erradicadas.

Desde o surgimento da primeira vacina, no fim do século XVIII, centenas de milhares de mortes foram evitadas e dezenas de moléstias, combatidas. Estima-se que, nos últimos dois séculos, as vacinas proporcionaram um aumento de cerca de 30 anos na expectativa de vida da população mundial. Porém, nos últimos anos, um grande movimento internacional contra as vacinas tem chamado a atenção de pais, profissionais de saúde e educadores.

No livro Vacinar, sim ou não? Um guia fundamental (96 p., R﹩ 42,80), da MG Editores, o infectologista Guido Carlos Levi e os pediatras Monica Levi e Gabriel Oselka oferecem informações completas e seguras sobre as vacinas, seus benefícios, seus possíveis eventos adversos e os aspectos legislativos e éticos a elas relacionados.

“Partindo de informações contraditórias e de dados sem comprovação científica, grupos de médicos e leigos divulgam fatos negativos sobre as vacinas e fazem veementes apelos contra seu uso”, afirmam os autores. Segundo eles, essa decisão, que de início parece individual, tem consequências coletivas, fazendo por vezes ressurgir epidemias que se consideravam erradicadas. Quem são os antivacinistas? Que argumentos usam? Em que fontes se baseiam? Que respostas a ciência dá a seu raciocínio? Quais são os aspectos legais e éticos, no Brasil e em outros países, ligados à recusa de vacinas?

Considerando extremamente importante o debate aberto desses temas, além de informações e análises a esse respeito, os especialistas apresentam, ao longo da obra, um histórico do surgimento e da consolidação das vacinas, os benefícios da imunização para a saúde individual e coletiva, os mitos – pseudocientíficos e religiosos – associados a elas – como o de que a vacina tríplice viral provoca autismo -, as respostas da ciência a esses mitos e as consequências da não vacinação para os indivíduos e a comunidade.

De acordo com os especialistas, as vacinas tiveram papel crucial no aumento global da expectativa de vida, sendo reconhecidas, entre todos os avanços da medicina, como a principal intervenção que possibilitou reduzir o número de óbitos. Segundo dados do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos, as vacinas evitaram naquele país, entre 1994 e 2013: 322 milhões de casos de adoecimento; 22 milhões de hospitalizações; 732 mil mortes prematuras. Com isso, geraram ainda uma economia de 295 bilhões de dólares em custos médicos diretos e de 1,38 trilhão de dólares de custo social total. “Além de salvar vidas, as vacinas são capazes de trazer economia à saúde pública”, complementam os autores.

“Devemos permanentemente divulgar a importância das vacinas e sua utilidade na proteção da saúde”, finalizam, lembrando que esse é um campo que não permite acomodação, sob pena de retrocessos inaceitáveis numa área que seguramente representa o maior presente que a medicina já ofereceu à humanidade.

É FakeNews ou Fato?

Depende do que agrada mais as nossas expectativas. A verdade é que desde o início da pandemia e do confinamento, circulam informações e vídeos quase sempre retratando as formas de contágio do novo coronavírus, como prevenir e, até mesmo, fórmulas caseiras para curar a doença.  

Um verdadeiro laboratório de fake news que se espalha com uma rapidez absurda e acaba validando o discurso dos que defendem o isolamento vertical e a interrupção da quarentena. De acordo com o escritor André Faustino que também é mestre em Direito na Sociedade da Informação, a disseminação desse tipo de fake news é fruto de dois comportamentos comuns: a constância de conformidade e a relativização da ciência.

“Se compartilharam comigo, deve ser verdadeiro. É dessa forma que os disseminadores das fake news pensam. É esse mesmo indivíduo que vai legitimar a ‘verdade’ da ciência ou não, de acordo com suas crenças e ideologias” afirma o especialista.  

Criadores Fake News X Ações de combate à pandemia

Na seara de desinformação, grupos negacionistas da pandemia de Covid 19 aproveitam para distorcer dados e desqualificar pesquisas científicas. Geralmente o fazem para inflamar o embate saúde X economia.  Embora autoridades como o novo ministro da saúde Nelson Teich, rejeite essa polarização e reforce que ambos são complementares, há fake news que defendem um lado ou outro induzindo o indivíduo a assumir uma posição. Essa movimentação só atrapalha o trabalho das autoridades no combate à pandemia, aumenta o pânico e provoca o embate de ideologias. 

 “A relação com a ideia de verdade, uma verdade absoluta, científica, é colocada em xeque no mundo da pós-verdade. Já vivemos isso antes, como o caso das pílulas contra o câncer (fosfoetanolamina) onde a ciência atestava que era inócuo, efeito placebo, além das das vacinas para sarampo, gripe, etc que até hoje as pessoas afirmam não servirem de nada. Logo,  as “verdades”absolutas que a humanidade criou através do pensamento, através da ciência, através do conhecimento são postas a prova, o homem pós-moderno não cria nada, apenas evidencia os cacos da modernidade, os pedaços dessa desconstrução,” conclui Faustino.

Os autores

Guido Carlos Levi é médico infectologista, tendo se dedicado nos últimos anos principalmente ao campo das imunizações. Foi diretor técnico do Instituto de Infectologia Emílio Ribas de 1995 a 2001. É membro do Comitê Técnico Assessor em Imunizações do Ministério da Saúde e da Comissão Permanente de Assessoramento em Imunizações da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, além de diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Monica Levi, pediatra, sempre se dedicou à área de imunizações. Foi presidente da regional de São Paulo da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e atualmente faz parte da diretoria nacional, além de presidir a Comissão de Calendários e Consensos da entidade. Exerce também a especialidade de Medicina de Viagem, sendo membro do Comitê de Medicina de Viagem da SBIm.

Gabriel Oselka foi professor associado do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente, é membro do Comitê Técnico Assessor em Imunizações do Ministério da Saúde e da Comissão Permanente de Assessoramento em Imunizações da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. É presidente da Comissão de Bioética da Sociedade Brasileira de Imunizações.
Autor do livro ‘Fake News – A liberdade de expressão nas redes sociais na Sociedade da Informação’ explica porque as pessoas refutam a ciência e desconstroem narrativas que contradizem suas ideologias.