‘Estamos todos em situação de risco e desamparo’, avaliam psicanalistas

Federação Brasileira de Psicanálise manifesta “apreensão e perplexidade diante do “desastre epidemiológico pela falta de controle da Covid-19”

Redação

O agravamento da pandemia no Brasil vem chamando a atenção de profissionais de saúde mental, que viram a procura por atendimento saltar nos últimos 12 meses. Em carta aberta à população, a Federação Brasileira de Psicanálise (Febrapsi) manifesta sua “apreensão e perplexidade em face do desastre epidemiológico pela falta de controle da Covid-19”.

Estamos todos em situação de risco e desamparo, seja no sentido de contrairmos a doença ou de adoecermos psiquicamente em decorrência da experiência assustadora de vermos familiares, amigos e desconhecidos sucumbindo à infecção pelo coronavírus. Neste cenário, também se agravam a fome, a miserabilidade, a violência doméstica e outros padecimentos que já existiam em nosso país”, diz o documento. 

No início do mês de março, a Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ) divulgou uma carta-manifesto em repúdio ao “ao descaso das autoridades diante da situação aterradora em que nos encontramos, com a perda diária de mais de 1000 vidas e histórias”.

Um contundente posicionamento “contra a necropolítica de Bolsonaro e a banalização do mal; um apelo pra que setores da sociedade abandonem o silêncio cúmplice e ajam em prol da vida e da democracia”, avaliou o  o presidente do Cidadania, Roberto Freire.

Confira abaixo:

CARTA ABERTA À POPULAÇÃO

Em um momento de profunda tristeza e indignação, em que a imprensa falada e escrita anuncia a morte de mais de 320 mil brasileiros, a Federação Brasileira de Psicanálise (Febraspi) vem a público manifestar sua apreensão e perplexidade em face do desastre epidemiológico pela falta de controle da Covid-19. Estamos todos em situação de risco e desamparo, seja no sentido de contrairmos a doença ou de adoecermos psiquicamente em decorrência da experiência assustadora de vermos familiares, amigos e desconhecidos sucumbindo à infecção pelo coronavírus. Neste cenário, também se agravam a fome, a miserabilidade, a violência doméstica e outros padecimentos que já existiam em nosso país. 

Na história recente do Brasil não há fato tão ameaçador aos laços sociais, às condições de vida da população e à dinâmica societária quanto as atuais crises sanitária e política. O número de óbitos é crescente e a inoperância do governo federal, no combate à pandemia e no sistema de vacinação em massa, convoca-nos a cobrar posturas e ações urgentes.

Os efeitos traumáticos da pandemia têm se mostrado presentes, uma vez que as experiências têm sido de tal ordem aterrorizadoras que, muitas vezes, carecem da simbolização necessária para que a vida retome o seu curso. Ainda não podemos dimensionar quantas gerações serão afetadas pelos efeitos do isolamento e da ameaça que ora nos abatem. A impossibilidade de enterrar nossos mortos agrava os quadros de doenças mentais e instaura novos modos de dor e sofrimento, dificultando a elaboração do luto de forma digna.  Estamos distantes de conhecer as consequências, a médio e longo prazos, devidas a tantas perdas. Não é só a vida que se perde, uma pandemia desgovernada tem a repercussão de uma catástrofe na vida individual e coletiva.

A Febrapsi e suas 18 federadas, presentes na maior parte do território nacional, têm acompanhado a deterioração dos laços sociais causados pelas informações desencontradas, notícias falsas e pouca divulgação oficial de medidas preventivas essenciais e razoáveis, o que faz com que muitos neguem a realidade, expondo-se e expondo os outros ao vírus. Ao mesmo tempo, percebemos movimentos importantes de solidariedade na sociedade civil, entre os que procuram exercer a cidadania como conquista civilizatória que beneficia a todos, aos quais nos aliamos. Nessa perspectiva, clamamos por medidas que barrem a proliferação da doença: pela ampla informação advinda da ciência, pela vacinação já, pelo resgate de nossa humanidade. 

Ao longo das últimas décadas, a sociedade brasileira construiu o Estado Democrático de Direito que promoveu significativos avanços civilizatórios (na saúde, na educação e em outras áreas) com o constante aprimoramento da nossa democracia. A Febrapsi, pautada pela responsabilidade social da psicanálise e por seu senso ético, defende e exalta o regime democrático e suas instituições, como o principal mecanismo para garantir a cidadania e a dignidade da população brasileira.

Diretoria da Federação Brasileira de Psicanálise

Carta aos Brasileiros

Nós, psicanalistas da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro – SBPRJ, unimo-nos aos médicos do Rio de Janeiro e a todas as instituições científicas em repúdio ao descaso das autoridades diante da situação aterradora em que nos encontramos, com a perda diária de mais de 1000 vidas e histórias, provocando um trauma coletivo sem precedentes e um luto de difícil elaboração.

O desapreço que esta administração demonstra por seu povo, sua saúde e pela comunidade científica pode ser avaliado pelos milhares de mortos que contabilizamos e pelo lugar que ocupamos na estatística internacional na luta contra a pandemia.

Não estamos diante apenas de uma questão política. Estão em jogo o caráter e a ética de um governante que evidentemente não tem as condições mínimas para exercer o cargo. Precisamos lutar contra a “banalização do mal” que tomou conta de parte do Congresso, das instituições públicas e da sociedade brasileira.

Assistimos atônitos à militarização das instituições de Estado, aos frequentes discursos por parte do governo federal e de seus apoiadores/seguidores pautados na lógica da necropolítica e que propõem a ruptura da ordem democrática, assim como fazem ataques e ameaças às instituições e aos grupos sociais. São ataques à alteridade, à diferença, ao desejo e à cultura, conceitos imprescindíveis à humanidade e à Psicanálise.

A frase do ministro da Saúde, “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, é assustadora porque nos remete à cegueira provocada pelas identificações claramente expostas por Freud em “Psicologia das Massas e Análise do Eu”.

Como psicanalistas, não podemos nos calar, desconsiderar ou negar que estamos diante de um contexto em que uma lâmina afiada paira sobre nossas cabeças, provocando angústia pior, ou equivalente, àquela proveniente da ameaça de morte pela pandemia, pois é insidiosa, silenciosa e caudatária de Tanatos, sufocando Eros.

Alguns setores da sociedade minimizam as consequências da pandemia nos campos social, da saúde, da política e da ética e nos perguntamos: a que preço, qual o preço do silêncio?

A vacinação em massa, até o momento, é o melhor instrumento para frear as mortes e combater de maneira eficaz a Covid-19.

Nossa moção é contra a ilusão do tratamento precoce. Pró-vacina já, uso de máscaras, distanciamento social, assistência à população em estado de vulnerabilidade, pela defesa da Democracia e da Constituição Federal. 

Rio de Janeiro, 2 de março de 2021.

Conselho Diretor da SBPRJ – Biênio 2021-2022

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