Fiocruz alerta para risco de alta nos casos de síndrome respiratória

Dados do Boletim Infogripe mostram que dois estados já interromperam a tendência de queda e recomendam medidas restritivas

leito covid Leitos de UTI Covid ocupados (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

A nova edição do boletim semanal Infogripe, divulgada nesta sexta-feira (16) pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), mostra que todas as regiões do país permanecem na zona de risco de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Isso significa que o volume de ocorrências e óbitos por SRAG estacionou em patamar considerado muito alto. Por isso, pesquisadores recomendam que as medidas de restrições continuem sendo adotadas.

Os dados atualizados do Infogripe mostram que, desde o início de 2020, 97,2% das ocorrências de SRAG com exame positivo para infecção viral estão associadas à covid-19. Somente nesses primeiros meses de 2021, foram reportados 327.749 casos, dos quais 66,3% tiveram resultado laboratorial indicando presença de algum vírus respiratório.

A SRAG é uma complicação associada muitas vezes ao agravamento de alguma infecção viral. O paciente pode apresentar desconforto respiratório e queda no nível de saturação de oxigênio, entre outros sintomas, o que pode levar à intubação. As notificações aumentaram muito no ano passado em decorrência da pandemia de Covid-19.

Com base nos registros do Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe (Sivep-Gripe), a análise dos dados se refere à Semana Epidemiológica 14, que vai do dia 4 ao dia 10 de abril. Ela também apresenta a situação individual de cada estado e das capitais. No período, cerca de 90% dos casos positivos de SRAG foram associados à Covid-19.

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Embora a quantidade de casos e óbitos por SRAG em todo o país esteja elevada, a Fiocruz observa que o forte crescimento dos números observado nos primeiros meses de 2021 foi interrompido na maioria dos estados, mantendo por algumas semanas a diminuição de novos registros. Também vê uma tendência de queda nos números nacionais em longo prazo (seis semanas).

Esse quadro atual foi influenciado pelas medidas de distanciamento social implementadas em todo o país, como afirmou o responsável pelo InfoGripe, Marcelo Gomes. Os pesquisadores da Fiocruz avaliam que uma eventual redução das restrições de circulação pode gerar um cenário de estabilização dos números em valores muito distantes de um cenário de segurança.

Para o pesquisador, se tal situação ocorrer, não apenas manterá o número de hospitalizações e óbitos em patamares elevados, como também vai conservar a taxa de ocupação hospitalar em níveis preocupantes. “Isso impacta todos os atendimentos, não apenas aqueles relacionadas às síndromes respiratórias e à Covid-19”, destacou

Distorções onde há superlotação da rede hospitalar

A Fiocruz também alerta para possíveis distorções nos dados em locais que venham a registrar superlotação da rede hospitalar. A formação de fila de espera por disponibilização de leitos pode resultar em subnotificação da SRAG. Isso porque as ocorrências são registradas pelos profissionais das unidades de saúde no Sivep-gripe, sistema de informação mantido pelo Ministério de Saúde.

Assim, se o caso não é diagnosticado, não é contabilizado. Locais com índice de ocupação de leitos elevado não devem deixar os indicadores de SRAG em segundo plano em relação à tomada de decisão até que a ocupação volte a diminuir”, orienta o boletim.

“Os valores atingidos na fase de crescimento este ano foram extremamente elevados, sendo o pico do número de casos de 2021 superior, em diversos estados, aos picos observados em 2020”, explica Gomes.

Sinal vermelho no Maranhão e no Espírito Santo

O novo Boletim InfoGripe da Fiocruz indica ainda a interrupção da queda no número de casos e de óbitos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) que vinha sendo observada nos estados do Maranhão e do Espírito Santo nas últimas semanas. Em ambos os estados, os números se estabilizaram em um nível alto. “Essa interrupção da queda em patamar elevado é similar a momentos críticos observados em 2020 nesses mesmos estados”, comparou o pesquisador.

Marcelo Gomes ressalta ainda a importância de avaliar estes dados junto à taxa de ocupação hospitalar. Essa análise pode ajudar a entender se existe de fato uma redução na ocorrência de casos de SRAG/Covid-19 ou se a queda é aparente, sendo um reflexo do limite de novas internações pela falta de leitos.

O pesquisador alerta que a superlotação da rede hospitalar, com formação de lista de espera para disponibilização de leitos, pode gerar subnotificação. Diante disso, é possível que os dados de SRAG notificados no Sivep-Gripe subestimem o total de casos em locais com índice de ocupação de leitos elevado. “Esses locais com índice de ocupação de leitos elevado devem deixar os indicadores de SRAG em segundo plano em relação à tomada de decisão até que a ocupação volte a diminuir”, destacou.

Por que estados interrompem tendência de queda

Amazonas, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Roraima e Santa Catarina ainda registram movimento de diminuição nos casos, como na última edição do boletim. No entanto, os dados revelam indícios de que essa tendência de queda também deverá se interromper nesses cinco estados. O cenário amazonense é dos mais preocupantes: caso a estabilização se confirme, ela se dará em valores acima do pico observado em outubro do ano passado.

No Rio Grande do Norte, a estimativa atual está em valores similares ao primeiro (e mais agudo) pico de 2020, enquanto em Roraima a estimativa atual indica apenas pequena redução em relação ao pico de fevereiro de 2021, e acima do pico de final de outubro de 2020”, informa o pesquisador.

Segundo ele, em Santa Catarina, a estimativa aponta para a possibilidade de uma estabilização em valores similares aos dois picos registrados em 2020. Por fim, no estado do Rio Grande do Sul, o intervalo de credibilidade da estimativa atual é superior aos dois picos registrados em 2020”.

Estabilidade no número de casos nas capitais

Nenhuma das 27 capitais brasileiras apresenta sinal de crescimento na tendência de longo prazo (últimas seis semanas) até a SE 14. Em 20 capitais, foi verificado sinal de queda na tendência nesse mesmo período. As cidades do Rio de Janeiro (RJ), São Luís (MA) e Vitória (ES) mantêm o sinal de estabilidade nas tendências de longo e curto prazo.

Assim como alertado para alguns estados, a análise observou que algumas capitais podem apresentar interrupção da tendência de queda de número de casos e óbitos. Boa Vista (RR), Florianópolis (SC), Fortaleza (CE), Porto Alegre (RS), Macapá (AP), Manaus (AM), Natal (RN), e Teresina (PI) encontram-se nessa situação. Nos casos de Porto Alegre e Natal, a tendência de curto prazo apresenta também sinal moderado de crescimento, não apenas de estabilidade.

Manaus, embora tenha reduzido significativamente o número de casos e óbitos em relação ao pico observado em janeiro de 2021, apresenta estabilização em valores semanais similares ao pico registrado em outubro de 2020. Em Boa Vista, Fortaleza, Natal e Teresina, a queda está com sinais de interrupção em valores muito acima daqueles observados no platô formado nos últimos meses de 2020, após breve retomada do crescimento em outubro/novembro. 

Em Florianópolis, a estimativa atual sugere possível estabilização em valores que podem estar ligeiramente inferiores ao segundo pico de 2020, porém similar ao que se observou no primeiro pico de 2020. Essa situação é similar ao que se observa para Macapá e Porto Alegre, apenas invertendo a relação com os picos de 2020, uma vez que nessas capitais o pico mais alto em 2020 foi o primeiro, não o segundo.

Alerta para aumento de casos de VSR

Foi observado um aumento no número de casos confirmados de Vírus Sincicial Respiratório (VSR), embora, em valores relativos, esses casos representem muito pouco nos totais semanais de casos de SRAG. Foram registrados cerca de 200 novos casos semanais de VSR entre as SE 7 a 12 de 2021 (14 de fevereiro a 27 de março), com um pico de 300 casos confirmados na SE 9. A análise do Boletim também constatou a presença de novos casos confirmados para rinovírus, com uma média de aproximadamente 40 casos semanais em 2021.

Da Agência Fiocruz de Notícias e Agência Brasil

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