Fome x obesidade: uma conta que não fecha

A quantidade de obesos ultrapassou a de famintos no mundo. No Brasil, excesso de peso já virou epidemia: um em cada cinco brasileiros está acima do peso

Redação

Faz algum tempo a obesidade se tornou um dos maiores problemas de saúde pública no mundo. Mas a questão alcança números ainda mais alarmantes A quantidade de obesos no mundo já ultrapassou a de famintos. Enquanto cerca de 820 milhões de pessoas sofreram de fome em 2018, o número de pessoas acima do peso chegou a 830 milhões. De acordo com a ONU – Organização para as Nações Unidas,obesidade está contribuindo para quatro milhões de mortes todos os anos.

Os dados globais foram apresentados esta semana pela FAO e outras quatro agências da ONU (FIDA, PMA, OMS e Unicef). O relatório monitora não apenas a fome, mas também outras formas de malnutrição com informações sobre o número de pessoas que enfrentam incertezas sobre sua capacidade de obter alimentos nutritivos e suficientes ao longo do ano.

Para o cirurgião bariátrico Thales Delmondes Galvão, é simples entender a relação entre a insegurança alimentar e a obesidade: “Quando não há recursos, as pessoas acabam optando por ingerir alimentos mais em conta, no entanto que são menos nutritivos e mais calóricos”. Segundo ele, além do sedentarismo, um dos hábitos causadores da doença é o grande consumo de alimentos industrializados e com baixo valor nutricional.
Alimentos ultra-processados como embutidos, refrigerantes, macarrões instantâneos, salgadinhos entre outros, têm grandes quantidade de sal, açúcar, produtos realçadores de sabor, entre outros ingredientes industrializados. Possuem pouco benefício nutricional e são uma das principais causas da obesidade que estamos observando globalmente”, ressalta o médico.
Neste dia 11 de outubro, celebra-se o Dia Nacional de Prevenção da Obesidade, instituído pelo governo federal para chamar a atenção da população para o problema que vem adquirindo proporções epidêmicas no Brasil. Um em cada cinco brasileiros está obeso, conforme dados do Ministério da Saúde. Pesquisas da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) apontam que os casos de obesidade no país passaram de 11,8% em 2006 para 19,8% da população brasileira em 2018. O aumento de 67,8% é o maior dos últimos 13 anos.
Segundo especialistas, o aumento da incidência da doença no Brasil está diretamente relacionado com as questões socioeconômicas. Quando os recursos financeiros são escassos para o consumo de alimentos, os cidadãos optam por produtos ultraprocessados que são mais acessíveis e fáceis de serem consumidos do que os alimentos mais nutritivos. Por isso, é fundamental que a indústria de alimentos participe do combate à obesidade que, além de um tema de saúde pública, é um tema que diz respeito à cidadania da população.

OBESIDADE EM NÚMEROS

  • Para o diagnóstico da obesidade, o parâmetro mais comumente utilizado é o índice de massa corporal (IMC) com valor igual ou maior que 30 kg/m2. Para encontrar esse valor, o cálculo é a divisão do peso pela altura ao quadrado. Pessoas com IMC igual ou acima de 25 já são consideradas com sobrepeso.
  • Essa condição não afeta apenas os adultos, mas acomete inclusive crianças. Atualmente existem cerca de 672 milhões de adultos obesos mundialmente, enquanto que crianças e adolescentes em idade escolar com a enfermidade chegaram a 338 milhões, estatística que deve permanecer pelos próximos seis anos e ser reduzida apenas em 2030, segundo a Unicef.
  • No Brasil, o número de pessoas com obesidade ou sobrepeso chegou a 58% da população geral, sendo 33,5% em crianças de 5 a 9 anos e 17,1% em adolescentes. Muitos adultos estão obesos atualmente por consequências da infância. De acordo com o Ministério da Saúde, 13% dos meninos e 10% das meninas entre 5 e 19 anos sofrem com obesidade ou sobrepeso.
  • A frequência de adultos com excesso de peso corporal no Brasil apresentou uma média de 55,7% da população. O aumento foi de 30,8% quando comparado com percentual de 42,6% no ano de 2006. Os adultos de 25 a 34 anos e 35 a 44 anos tiveram o maior crescimento da obesidade, com 84,2% e 81,1%. Em 2016, 23% dos brasileiros estavam obesos.
  • Hoje, mais de 50% da população do sul e sudeste do País já está obesa. O excesso de peso atingiu 57,7% da população do Estado do Rio. Quando verificado o sexo, as mulheres apresentaram o maior crescimento com 40%, já os homens 21,7%.
  • A OCDE divulgou esta semana um relatório que mostra que o Brasil está acima da média de 36 países quando o assunto é a redução de vida em decorrência do sobrepeso. Ele aparece como o quinto país onde a obesidade mais afeta a qualidade de vida. Aqui, a obesidade reduz a expectativa de vida da população em pouco mais de 3 anos.
  • Se as pessoas puderem reduzir sua ingestão de calorias em 20%, segundo a OCDE, mais de 1 milhão de doenças crônicas relacionadas à obesidade seriam evitadas por ano. Em especial, os problemas cardíacos.

Obesidade CAUSA UMA COLEÇÃO DE DOENÇAS

obesidade é caracterizada pelo consumo excessivo de calorias na alimentação, que gera um grande acúmulo de gordura corporal do indivíduo. Além de ser uma preocupação estética, o sobrepeso é um grande fator de risco para o desenvolvimento de outras doenças, como a diabetes Melittus tipo 2, dificuldades respiratórias, osteoartrite, apneia do sono, colesterol alto, hipertensão arterial e até mesmo o câncer.

As pessoas acima do peso também têm maior disposição de desenvolver varizes por conta da quantidade de gordura e volume sanguíneo dentro das veias, o que aumenta a pressão entre os vasos favorecendo sua dilatação, impedindo assim, a circulação de sangue entre as artérias. Também está cientificamente comprovado que a doença desencadeia problemas vasculares.

De acordo com Thales Galvão, o excesso de peso na infância e adolescência acarreta doenças crônicas precoces, como diabetes tipo II, hipertensão e apneia do sono. Por conta disso, esses jovens são mais propensos a desenvolverem doenças cardíacas, pulmonares, psicológicas e endócrinas que os acompanharão durante a vida adulta”, explica o especialista.

A obesidade é considerada um grande fator de risco para várias doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), que são responsáveis por 71% dos 57 milhões de óbitos ocorridos no mundo em 2016. E, no Brasil, elas são igualmente relevantes, sendo responsáveis por 74% do total de óbitos, com destaque para doenças cardiovasculares (28%), as neoplasias (18%), as doenças respiratórias (6%) e o diabetes (5%).

Fatores de risco e formas de tratamento

Fatores genéticos e comportamentais, como sedentarismo, tabagismo e hábitos alimentares, são algumas das causas para o desenvolvimento da doença, que, uma vez identificada, exige um tratamento multidisciplinar ao longo de toda a vida. Se não houver acompanhamento e tratamento contínuos, complicações como hipertensão, aumento do colesterol, diabetes e problemas cardiovasculares podem ser desencadeadas.
“O estímulo à mudança de estilo de vida e a troca de medicamentos que possam estar ligados diretamente à obesidade são formas de controlar a doença. Ainda assim, se avaliada isoladamente com acompanhamento psicológico, a Terapia Cognitiva Comportamental (TCC) é de extrema importância e pode ser ainda mais eficaz que os próprios medicamentos”, explica Carolina Amorim, endocrinologista do Seconci-SP (Serviço Social da Construção).
Tal abordagem terapêutica identifica e trabalha problemas psicológicos e emocionais diversos, como depressão, ansiedade, transtorno alimentares, traumas e fobias — fatores que podem estar ligados com o desenvolvimento da patologia.

A médica alerta ainda que, por ser uma doença crônica, deve ser bem monitorada, especialmente em pacientes que optam pela cirurgia bariátrica, que tem como objetivo reduzir o peso de pessoas com o IMC muito elevado. “O acompanhamento é para toda a vida pois é uma doença sem cura. Mesmo para aqueles que realizaram a cirurgia, se não houver uma mudança de estilo de vida, hábitos alimentares e atividade física, não há resultados”, completa.

Leandro Figueredo, médico Nutrólogo do HSANP, um estilo de vida sedentário, refeições com poucos vegetais e frutas e o excesso de alimentos com fritura e açúcar se refletem no aumento de pessoas obesas, em todas as faixas etárias.

Os fatores que causam a doença podem ser múltiplos: nutrição, fisiologia, genética e questões psiquiátricas e psicológicas, comportamentais e ambientais. A repetição de refeições com pouca variedade nutricional é um dos principais fatores para o excesso de peso na população atual, que foi detectado, principalmente, entre pessoas com 55 e 64 anos com menos escolaridade”, destaca.

Fator genético também conta

De acordo com a nutricionista do Hapvida, Viviany Sá, existem pessoas mais suscetíveis à doença. “Os grupos que apresentam mais riscos são pessoas que têm genética familiar para obesidade, sedentárias, que têm um estilo de vida mais estressante, com hábitos alimentares inadequados, com alto consumo de alimentos calóricos e industrializados, que têm poucas horas de sono, que apresentam problemas hormonais e doenças autoimunes, como hipotireoidismo, ovários policísticos, fibromialgia, entre outros, além de doenças psiquiátricas”, afirma.

obesidade também contribui para doenças que estão relacionadas à deficiência do sono, sobrecarga do metabolismo, dificuldade para praticar atividades físicas e a questão do isolamento social. A obesidade é fator de risco para o surgimento de uma série de doenças. Segundo a nutricionista, o obeso tem mais propensão a desenvolver problemas como hipertensão, doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, problemas articulares, câncer, apneia do sono, esteatose hepática e doenças cerebrais e psicológicas.

Por ser considerada uma doença crônica, não existe cura, mas tem tratamento e prevenção. A obesidade pode ser controlada com uma alimentação adequada e prática de exercícios físicos. “A prevenção passa pela conscientização da importância de aderir a um estilo de vida saudável, colocando em seu dia a dia uma alimentação mais natural e menos industrializada, além de deixar de lado o sedentarismo. Também é importante a ingestão adequada de água e estar bem psicologicamente”, conclui Viviany Sá.

AGENDA POSITIVA

Evento no Rio discute sobrepeso e doenças

Referência em tratamento da obesidade Iedes, que realiza um evento, nesta quinta-feira (10/10), para discutir o sobrepeso e suas complicações para a saúde – como diabetes, hipertensão e câncer. A atividade faz parte do Dia Nacional de Prevenção da Obesidade, celebrado no dia 11 de outubro.

Estandes serão montados no estacionamento do IEDE, onde profissionais de saúde, nutricionistas e educadores físicos estarão à disposição do público para falar sobre alimentação saudável e atividades físicas. Os participantes também poderão mensurar a composição corporal por meio de balanças de bioimpedância, que medem a gordura corporal a e massa muscular. O objetivo é alertar e conscientizar a população sobre os riscos da obesidade, que é uma doença.

“As consequências da obesidade são graves e provocam distúrbios metabólicos e cardiovasculares, além de alterações nos níveis de colesterol – os mais comuns nessa população”, afirma a coordenadora do Serviço de Obesidade, Transtornos Alimentares e Metabologia do IEDE, Lívia Correa. “Além de ter que lidar com questões relacionadas à saúde, quem sofre de obesidade também enfrenta desafios relacionados à ‘gordofobia’ de boa parte da sociedade e, muitas vezes, existem dificuldades dentro da própria família”, explica.

Por isso, o tratamento no IEDE é multidisciplinar, sendo a primeira consulta com endocrinologista. A avaliação é feita com base no Índice de Massa Corporal (IMC), que é a divisão do peso pela altura ao quadrado: de 18,5 a 24,9 Kg/m² é considerado normal; de 25 a 29,9 Kg/m² já existe um sobrepeso; e igual ou maior que 30 Kg/m² entra no grupo dos obesos que pode variar em três graus (1, 2, e 3). Depois dessa avaliação, o paciente passa por um acompanhamento multidisciplinar.

Com Assessorias