Nada de depressão: ‘carteiro’ digital leva alegria a idosos em asilos

Atores levam arte da palhaçaria a idosos institucionalizados no Rio. Grupo teatral cria montagem com temas ligados ao envelhecimento

Um olhar, um sorriso, um aperto de mão. Pequenos gestos e grandes transformações na vida de alguém. Este é o objetivo de O Presente Encontro, um projeto de visitas continuadas por palhaços especializados no trabalho com idosos. A iniciativa é levada a Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI´s) do Rio de Janeiro, por meio da palhaçaria, atenção, conexão e empatia para um público, por vezes debilitado física e cognitivamente e muitos, em estado de depressão.

Inspirado no lúdico e com base em seus resultados práticos, o trabalho sofreu mudanças desde o começo da pandemia, mas sem perder o foco. Hoje, o grupo realiza visitas “virtuais” em instituições de longa permanência e monta um espetáculo online para contar um pouco de suas vivências. As primeiras apresentações acontecerão neste mês de março.

Para não interromper o trabalho que vinha sendo realizado com sucesso nos asilos, o projeto ganhou Novas Presenças e foi criada a ação Ó, o Correio!  Um ator vestido de carteiro, devidamente paramentado com máscara descartável, face shield, spray de álcool 70 e figurino higienizado, chega à instituição levando um tablet como correspondência e faz uma chamada de vídeo para o idoso.

Do outro lado da linha, uma palhaça ou um palhaço fazem a conexão e estão preparados para jogos relacionais que buscam trabalhar o riso, a leveza, a presença, as memórias, os pequenos prazeres.  O resultado dos encontros online está surpreendendo a equipe, que já constata um retorno positivo dos internos.

Resultados com idosos que sofrem de depressão

O Presente Encontro surgiu depois de três anos de parceria (2016 a 2019) dos artistas Martha Paiva e Gabriel Sant´Anna, da Cia do Solo RJ,  com o grupo Teatro do Sopro, formado por Flávia Marco e Olivier Terreault, no projeto “Uma Bela Visita”. Eles usam uma metodologia importada da maior organização de palhaços terapêuticos profissionais do Canadá, a Fundação Dr Clown, onde Olivier foi cofundador e atuou por 12 anos.

A coordenadora Martha Paiva chama atenção para os estudos que apontam que idosos que residem em ILPIs têm alto índice de depressão. “Projetos como este trabalham justamente com essa parcela da população, utilizando a linguagem da palhaçaria e suas bases, que fundamentam e potencializam o trabalho relacional, artístico e terapêutico visando o protagonismo do idoso” explica.

Os avanços podem ser comprovados através do relatório de desempenho elaborado em 2017 pelos psicólogos Morgana Masetti e Daniel Brandão, sobre o impacto das visitas dos palhaços, respondido pelos profissionais de saúde de uma das instituições visitadas.

  • 72% afirmam que os idosos passam a se movimentar mais;
  • 77,8% percebem que os idosos ficam mais colaborativos com os profissionais de saúde e
  • 88,9% defendem que os residentes pedem a volta dos palhaços.

Segundo o integrante Gabriel Sant´Anna, o projeto vinha realizando visitas presenciais toda semana em ILPIs em vários bairros do Rio.  A equipe atende prioritariamente ao público demenciado, portadores de quadros como Alzheimer e outras doenças que geram imobilidade ou prejuízos na sociabilidade.

O trabalho busca fortalecer a autoestima e o sistema imunológico dos idosos.  Diante da impossibilidade da visitação semanal por conta da pandemia, a equipe usou a criatividade e a tecnologia ao seu favor e vem dando certo!”, explica Gabriel.

 Espetáculo Meu Mundo É

Para que todos sejam conscientes da importância do trabalho com o idoso, o grupo realiza dentro do projeto O Presente Encontro – Novas Presenças o espetáculo Meu mundo é.  A montagem,  aberta ao público, acontece de 13 a 28 de março no Youtube e aborda temas ligados ao envelhecimento, como a solidão, a sexualidade, a demência e a morte.

Também colabora para a ampla divulgação do Estatuto do Idoso, que dispõe no Art. 3o sobre “a obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, alimentação, cultura, esporte, lazer, trabalho, à cidadania, liberdade, dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária”.

A montagem é inspirada nas visitas presenciais e virtuais realizadas em asilos de 2016 a 2020, baseando sua dramaturgia na experiência do convívio com os idosos registrados nos relatórios produzidos semanalmente pelos palhaços do projeto.

Também são levados em conta memórias pessoais dos intérpretes, além de contos, poemas e músicas da era de ouro do rádio, compondo uma colcha de retalhos que reúne as linguagens do teatro, da palhaçaria, da contação de histórias, da música e do audiovisual.

A temporada online será de três semanas, aos sábados e domingos, totalizando seis apresentações nos dias 13 e 14, 20 e 21 e 27 e 28 de março. A peça conta com recursos de legendas e de áudio-descrição. O projeto foi selecionado pelo Prêmio Projeto de Fomento a Todas as Artes, por meio dos recursos e fundamentado na Lei Emergencial nº 14.017, de 29 de junho de 2020.

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