Jornalista começa a se tratar de câncer na língua

Caso de Roberto Burnier, da Globo News, acende alerta sobre Julho Verde, mês da conscientização e prevenção do câncer de cabeça e pescoço, comemorado no próximo dia 27

Redação
O jornalista José Roberto Burnier foi afastado por três meses da Globo News para tratar um câncer na língua (Foto: Reprodução de internet)

O jornalista José Roberto Burnier, que apresenta o Em Ponto, na Globonews, descobriu um tumor na base da língua e se afastou por três meses da TV para o tratamento. No Brasil, dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca) revelam que o câncer bucal é responsável por cerca de 15 mil casos por ano, sendo 11,2 mil homens e 3,5 mil mulheres.

Os tumores de cabeça e pescoço são uma denominação genérica do câncer que se localiza em regiões como boca, língua, palato mole e duro, gengivas, bochechas, amígdalas, faringe, laringe, esôfago, tireoide e seios paranasais. Segundo o Inca, este é hoje o segundo mais frequente entre os homens, atrás somente do câncer de próstata. Nas mulheres, prepondera o câncer da tireoide, sendo o quinto mais comum entre elas.

No Brasil, são registrados cerca de 40 mil novos casos desses tumores malignos. Os números correspondem a 4% de todos os tipos de câncer. Esse tipo de tumor chega a ser o terceiro tipo mais frequente em algumas regiões do país, ocorrendo sete vezes mais em homens do que em mulheres.

A doença pode ser prevenida com hábitos saudáveis e simples, como não fumar, não consumir álcool (sobretudo em excesso) e uma boa e diária higiene bucal. No entanto, Ricardo Antunes, presidente da SBC- Sociedade Brasileira de Cancerologia, alerta que na maioria dos casos, o diagnóstico é tardio, o que dificulta o combate à doença e pode trazer sequelas ao paciente.

Fundamental para o tratamento é a prevenção e a detecção precoce da doença. Infelizmente, em 60% dos casos a doença está avançada quando detectada”, destaca.

Doença assintomática

Os tumores de cabeça e pescoço podem ser assintomáticos no princípio da doença. Por se tratar de uma doença que apresenta sintomas sutis, ela pode passar despercebida. O diagnóstico das lesões iniciais é fundamental para garantir que os índices de cura se aproximem de 100%.

Com o desenvolvimento da doença, alguns sinais e sintomas podem aparecer, como manchas brancas na boca, dor local, lesões com sangramento ou cicatrização demorada, nódulos no pescoço, mudança na voz e rouquidão, e dificuldade para engolir.

Por isso, é preciso fazer o autoexame para identificar sinais como feridas na boca que não cicatrizam há mais de duas semanas ou inchaços no pescoço.

Aftas insistentes, lesões que permaneçam por mais de 15 dias, manchas brancas ou vermelhas, nódulos na região, dor e dificuldade para mastigar ou engolir são sintomas que podem aparecer.

“O câncer de boca é silencioso e muitas vezes indolor, por isso, o autoexame é fundamental para evitar que a doença seja apenas detectada em estados mais avançados”, afirma Andrey Soares, oncologista do Centro Paulista de Oncologia (CPO).

O câncer de cavidade oral tem mais incidência em homens acima de 40 anos e costuma ocorrer não só na parte posterior da língua, mas também em outras regiões como o assoalho bucal, lábios,  bochechas, gengivas, glândulas salivares, amígdalas e o céu da boca.

Visita regular ao dentista ajuda no diagnóstico precoce

Juliana Ominelli, oncologista do Centro de Excelência Oncológica, salienta que a higiene oral adequada e consultas regulares ao dentista têm importância fundamental para o diagnóstico precoce. “Esses cuidados rotineiros têm importância fundamental para o diagnóstico precoce do câncer de boca, uma vez que esse tipo de tumor é, muitas vezes, indolor. Ao notar machucado ou afta que não melhore por mais de duas semanas, o recomendado é procurar auxílio médico”.

Ainda segundo ela, a visita ao dentista ajuda a detectar lesões pré-malignas e ao diagnostico precoce. Aliar o conhecimento dos sintomas à realização de cuidados com higiene da boca e consultas regulares ao dentista pode evitar que a doença seja apenas diagnosticada em estágios mais avançados, ajudando a salvar vidas”, diz.

O tratamento será determinado de acordo com a localização e o estágio da doença. “Para cada caso desenvolvemos um tratamento específico que pode combinar a cirurgia para a retirada do tumor, quimioterapia e a radioterapia. Quando a doença é diagnosticada ainda no início, as chances de sucesso podem chegar a 90% quando o paciente realiza um tratamento adequado”, comenta Andrey.

Tabagismo responde pela maioria do câncer de cabeça

Os especialistas ressaltam que o desenvolvimento do câncer de boca está muito relacionado ao estilo de vida.  Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), 90% dos casos da doença estão ligados ao fumo e o álcool. O tabagismo está relacionado a 97% dos diagnósticos de câncer de laringe. O álcool associado ao fumo aumenta o risco em 10 vezes para tumores nessa região.

A infecção pelo HPV (papilomavírus humano) também tem contribuído com o aumento na incidência da doença em jovens, nos últimos anos, em virtude da falta de uso de preservativos na prática do sexo oral. Esta é uma tendência mundial, já identificada também no Brasil.

“Apesar do número de fumantes ter diminuído, em apenas 20 anos esse tipo de câncer aumentou cerca de 225%. O principal fator pode ser o papiloma vírus, que é capaz de acelerar o desenvolvimento desse tumor”, ressalta dra. Juliana.

Além da higiene oral feita de forma precária e inadequada, uma dieta pobre em minerais e vitaminas e a exposição aos raios UVA e UVB sem proteção nos lábios também podem contribuir para o aparecimento do câncer de boca.

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7% podem ter infecção pelo HPV detectada pela boca

Tradicionalmente, os principais agentes relacionados a este tipo de câncer são tabagismo e ingestão de bebidas alcoólicas, que correspondem pela maior parte dos novos casos do câncer de cabeça e pescoço diagnosticados no Brasil. Nos últimos anos, o papilomavírus humano (HPV) também tem sido um fator preocupante relacionado ao aumento dos casos da doença entre jovens.

De acordo com o oncologista do Grupo SOnHe, David Pinheiro Cunha, cerca de 7% da população podem ter infecção pelo HPV detectada na boca. Sendo o sexo oral sem proteção como a principal forma de contaminação, especialistas reforçam que o uso de preservativo é uma eficaz arma de prevenção, portanto, tanto as medidas preventivas como o diagnóstico precoce têm papéis fundamentais no controle e no desfecho desta doença, que vem se tornando cada vez mais comum.

“É cada vez mais frequente o diagnóstico da doença em indivíduos de até 45 anos, com tumores originados pelo vírus. O tumor, que também atinge fumantes e pessoas que fazem uso frequente de bebidas alcoólicas, é hoje o segundo câncer mais frequente entre os homens, atrás somente do câncer de próstata”, alerta o especialista.

Segundo a SBCCP, são cerca de 41 mil novos casos anualmente, de acordo com estimativas do Inca. Em geral, a idade média ao diagnóstico de câncer de cabeça e pescoço é entre 60 e 65 anos. Porém, é cada vez mais frequente o diagnóstico em indivíduos jovens (menores que 45 anos) com tumores originados pelo HPV. A  transmissão deste vírus se dá principalmente pela via sexual.

“No caso dos tumores de cabeça e pescoço, através do sexo oral. A melhor maneira de se prevenir é pela utilização de preservativo durante relação”, reforça o especialista que lembra que existe vacina contra HPV. “Embora tenha sido inicialmente direcionada para prevenção do câncer de colo de útero, por prevenir a infecção pelo HPV, a vacina também tem um potencial de prevenir contra câncer de cabeça e pescoço”, informa.

No Brasil, a vacina está disponível pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para meninas de 9 a 14 anos e para meninos de 11 a 14 anos. Além do HPV, vírus como EBV e o HIV também estão associados ao câncer de cabeça e pescoço. “A exposição excessiva à radiação solar ultravioleta também pode representar fator de risco para câncer de lábio”, aponta o especialista.

Prevenção com hábitos saudáveis

A prevenção – de acordo com o cirurgião oncológico Ricardo Antunes – inclui evitar o tabagismo e o consumo abusivo de bebidas alcoólicas, vacinar-se contra o HPV, usar preservativos, manter higiene bucal adequada, consultar regularmente o dentista e ter uma alimentação equilibrada.

“No entanto, precisamos agilizar o acesso ao diagnóstico e tratamento do câncer pelo SUS para que os casos de câncer possam ser rapidamente atendidos e muitas vidas salvas. Hoje o acesso é lento e burocrático. Precisamos rever urgentemente essa questão”, alerta.

Recentemente, David Pinheiro Cunha participou de um  congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), em Chicago, nos EUA, onde muitas novidades foram apresentadas para tratamentos de tumores de cabeça e pescoço. Segundo David, um dado muito importante foi apresentado: a mudança no estilo de vida é fundamental para o sucesso do tratamento deste tipo de tumor.

“Pacientes que conseguem parar de fumar antes de iniciar o tratamento com radioterapia apresentam menores taxas de recidiva, metástase a distância ou segundo tumor primário, quando comparados aos que mantém tabagismo. Isso demonstra que o sucesso do tratamento não exige apenas novas terapias ou medicamentos caros, mas também é fundamental uma mudança de hábitos dos pacientes”, afirma.

Confira o vídeo gravado pelo médico sobre as novidades no tratamento desse tipo de tumor: https://drive.google.com/open?id=1hksHcJl5qfWsPVec1P6cd9Xwsj2JlnE6

Campanha Julho Verde

No dia 27 de julho, comemora-se o Dia Mundial de Conscientização e Enfrentamento ao Câncer de Cabeça e Pescoço. Por isso, a Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço (SBCCP) promove o #JulhoVerde, campanha de prevenção do câncer de cabeça e pescoço, com o objetivo de conscientizar e alertar a população sobre os sintomas da doença e a importância da detecção precoce.

Segundo Lucas Sant’Ana, médico oncologista que integra o corpo clínico do Hospital Dona Helena, de Joinville (SC), nas fases iniciais, os tumores de cabeça e pescoço podem ser assintomáticos. “À medida que progridem, podem levar a alguns sintomas que devem servir de alerta: manchas na boca, dor em região oral ou para deglutir, feridas com cicatrização demorada, mudança na voz como rouquidão persistente e dificuldade para engolir. Nas fases mais avançadas da doença, podem ainda surgir nódulos na região cervical”, detalha.

Quanto antes detectado, maior chance de cura

O diagnóstico precoce e o rápido início do tratamento são fundamentais para a cura do câncer de cabeça e pescoço. O diagnóstico tardio, que ocorre em 60% dos casos, deixa sequelas no paciente. “Não existem exames de rotina para identificação deste tipo de tumor como ocorre, por exemplo, com a mamografia para câncer de mama ou colonoscopia para câncer de cólon. Profissionais de saúde da família, assim como dentistas, são fundamentais para o diagnóstico das lesões iniciais, fase em que os índices de cura são mais elevados”, informa o médico.

Para realizar o diagnóstico, inicialmente é feito um exame para detecção da lesão através da inspeção da cavidade oral. “Para tumores mais profundos é necessário o emprego do nasofibrolaringoscópio. Após a visualização da lesão, realiza-se a biópsia da mesma”, informa Sant’Anna. O tipo do tratamento e as chances de cura dependem do estágio em que a doença se encontra. “Para tumores em fases mais iniciais, a cirurgia isolada pode ser curativa em grande parte dos casos. Para estágios mais avançados, outras abordagens terapêuticas podem ser necessárias, como quimioterapia e radioterapia, e as possibilidades de cura diminuem.”

Além das complicações inerentes à doença em si, o tratamento do câncer de cabeça e pescoço também pode levar à grande morbidade. “Dependendo do tipo de tratamento realizado, certas complicações podem ocorrer. Cirurgia pode levar a alterações estéticas, dificuldade de fonação, dificuldade de deglutição e necessidade de traqueostomia. Radioterapia pode levar a xerostomia (boca seca) e queimaduras na região oral. Quimioterapia pode causar queda da imunidade, problemas renais, náuseas e vômitos”, relata o oncologista.

 

Da Redação, com Assessorias

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