Juntos, confinados e cada vez mais fortalecidos

Para maioria dos casais ouvidos em pesquisa, isolamento social tem reforçado a relação a dois. Psicóloga aponta motivos para esse fenômeno

Redação

Quando a quarentena para o enfrentamento da pandemia do coronavírus na China começou a terminar, no final de março, os chineses deram início ao seu ‘novo normal’. Foi o primeiro país do mundo a passar por isso, pois foi lá que tudo começou. Nesse novo cenário, a imprensa local logo identificou, em diversas regiões, uma procura muito acima do comum por divórcios – em alguns distritos não havia nem horário disponível para tratar do assunto nos cartórios.

Essa tendência vem ficando cada vez mais clara em diversos países pelo mundo, inclusive no Brasil. Por aqui, várias separações de casais famosos, anunciadas durante este período de quarentena, reforçaram essa imagem. Mas, afinal, o confinamento, que obriga casais a uma convivência muito mais intensa do que eles estavam acostumados anteriormente, é mesmo um risco para os relacionamentos amorosos?

Para a psicóloga Regina Tavares, pós-graduada em Psicologia Positiva e fundadora do Instituto Aum – Centro de Desenvolvimento da Psique, este cenário atual não cria problemas ou diferenças que já não existiam no casal, apenas acelera situações que, mais cedo ou mais tarde, se manifestariam da mesma forma.

A grande maioria das pessoas tinha menos tempo para se relacionar de forma profunda e, por isso, boa parte das situações negativas era deixada de lado assim que elas saiam de casa ou encontravam outras pessoas. Agora, sem essa ‘válvula de escape’, ambos têm mais tempo para avaliarem seus pontos de divergência ou semelhanças”, explica.

É certo que o isolamento social devido ao novo coronavírus vem provocando mudanças visíveis na saúde dos casamentos e uniões. Mas nem sempre essa relação mais próxima e intensa não é necessariamente um risco para a vida a dois.

Essa quarentena é uma oportunidade única para conhecer muito melhor o seu parceiro e se conhecer também. Existem muitos casais que estão começando a reconstruir o seu relacionamento a partir dessa quarentena. Eles estão se descobrindo novamente”, afirma Regina.

Para 51,3% relacionamento até melhorou

Esta percepção é confirmada em uma pesquisa quantitativa online, realizada entre os dias 15 e 17 de maio pela psicóloga Ana Carolina Lynch, mestre em Teoria Psicanalítica. O dado mais surpreendente e positivo foi o de que para 63% dos entrevistados a relação sairá fortalecida após a quarentena.

Mesmo com o cenário econômico e a inundação de notícias catastróficas que afetam a saúde mental das pessoas, 85% dos entrevistados afirmam que o relacionamento não piorou durante a quarentena e desses, 51,5% afirmaram que o relacionamento inclusive melhorou.

Dos respondentes da pesquisa 75% são casados e têm filho(s). Desses, 40% estão casados entre 10 e 20 anos. A maior parte da pesquisa foi respondida por mulheres, somando 70% e foram entrevistadas 170 pessoas.

Relacionamento com filhos melhorou para 31% dos casais

A convivência com filhos, somada a atividades escolares, recreativas e outros cuidados, surpreende por não ter provocado tantas turbulências entre os casais. A pesquisa aponta positivamente que o relacionamento dos casais com filhos melhorou para 31% dos participantes, para 52% não houve melhora, mas também não houve piora. A maioria dos entrevistados acredita que o relacionamento melhorou pela presença mais próxima na vida dos filhos e em família.

Para os participantes com renda familiar abaixo de R$ 1.300 mensais, o relacionamento melhorou para 25% e não houve mudança para 50%. E 35% dos respondentes com renda familiar acima de 15 mil reais por mês disseram que o relacionamento melhorou e 47% disseram não haver mudança.

Para 15% dos entrevistados o relacionamento amoroso piorou após o início da quarentena e dentre eles, o principal motivo da piora (48%) é o desequilíbrio na distribuição das tarefas domésticas.

Resultados reforçam ‘capacidade de resiliência e reinvenção’

A psicóloga lembra que de uma hora para a outra, as relações saíram de uma vida em que se tinha muito pouco tempo para conviver com o outro, para um momento em que se vive 24 horas juntos. “Essa pesquisa trouxe pontos que evidenciaram a capacidade de resiliência e reinvenção humana”, diz Ana Carolina.

Ela começou a pesquisa ao perceber como o assunto ganhou força nas sessões, que passaram a ser realizadas virtualmente. Ainda que para a maioria dos casais o isolamento esteja sendo positivo para a vida a dois ou em família, há uma polarização a ser destacada. “De um lado relações sairão muito fortalecidas dessa crise. Outras estão se enfraquecendo e vão precisar de muita conversa e trabalho para se recuperarem”, diz Lynch.

Relacionamento amoroso exige esforço, trabalho, respeito e muito diálogo. Quem estiver disposto a realmente cultivar seu relacionamento nesse momento, sairá vitorioso e com a relação ainda mais fortalecida”, ressalta

Prática do Ho’oponopono pode ajudar

Regina é uma das principais especialistas no Brasil no processo de cura mental havaiano Ho’oponopono e uma das responsáveis pela sua aplicação por aqui, num movimento iniciado por volta de 2008. Ela destaca a importância e a eficácia dessa terapia integrativa criada cerca de 6 mil anos atrás, na Polinésia, mas que começou a ser difundida globalmente em meados da década de 1970.

O Ho’oponopono é uma das melhores terapias existentes no mundo para dissolver conflitos e resolver os mais diferentes problemas emocionais. Com a sua prática regular, a pessoa consegue aceitar e perdoar os próprios erros e também os do seu parceiro. Muitos dos casais que estão conseguindo melhorar o seu relacionamento agora é porque estão aprendendo a se perdoar e perdoar o outro”, afirma.

À medida que cada um pratica o Ho’oponopono para se perdoar e perdoar o seu parceiro, buscando reconstruir seu relacionamento, é importante também entender como essa prática afeta a outra pessoa. “Primeiro, precisamos compreender que quando pedimos perdão a alguém, a resposta daquela pessoa não tem importância para o nosso objetivo, que é limpar em nós os laços negativos com o outro. Para isso, o pedido de perdão deve ser sincero e verdadeiro. E a limpeza de memórias não é boa apenas para quem pratica o Ho’oponopono, ela também ajuda a melhorar o outro com uma energia mais positiva”, diz ela.

A prática simplificada do Ho’oponopono consiste em repetir, muitas vezes por dia, as quatro frases “Sinto muito”, “Me perdoe”, “Te amo” e “Sou grato”. “A limpeza mental e emocional contínua ajuda a limpar as memórias e a obter uma paz mental, emocional e física, além de todo o entendimento do intelecto. E esse local de paz interior é onde reside a divindade dentro de cada um de nós e onde se encontram todas as verdadeiras soluções para a nossa vida e o mundo”, explica a psicóloga.

Em resumo, nós estamos em busca de algo que nos ajude a limpar dentro de nós as memórias que não estão permitindo aquilo que a gente deseja, neste caso um bom relacionamento amoroso”, explica. Segundo ela, esta fase é perfeita para isso, pois muitas pessoas estão com mais tempo para se voltarem para dentro de si mesmo. “Mas é preciso limpar as memórias e, ao mesmo tempo, começar a adotar novas atitudes para alcançar uma vida diferente”, complementa Regina.

Atendimentos online para recuperar casais

Em sua rotina de trabalho, Regina realiza cursos, palestras, seminários, atendimentos de coaching e psicoterapêuticos e produção de conteúdos relacionados ao seu trabalho. Só no YouTube, ela soma quase meio milhão de seguidores, que acompanham seus vídeos semanais – um desses vídeos, por exemplo, já atingiu mais de 20 milhões de visualizações.

Com a quarentena, os atendimentos psicoterapêuticos passaram a ser realizados online. Isso significa que Regina continua em contato com seus clientes e seu público da Internet durante esse isolamento social, e vem observando que muitas pessoas estão aprendendo a valorizar mais o seu relacionamento por causa do medo que todos vivem atualmente.

As pessoas têm medo de se contaminar e ficar doentes, de perder seus parceiros por causa da Covid-19, de ficar sem emprego e faltar dinheiro para pagar as contas. O medo é um agente externo que hoje atua diretamente em boa parte dos relacionamentos. Com isso, eu mesma conheço casos de pessoas casadas que estão se esforçando, mais do que antes, no sentido de melhorarem o seu relacionamento porque estão dando mais valor ao que já possuem”, ressalta.

No caso dos casais que estão se separando ou planejando fazer isso tão logo a quarentena acabe, a psicóloga reforça que a responsabilidade disso não é desse relacionamento mais próximo, mas sim das diferenças e divergências entre os parceiros. “Essas questões foram amplificadas neste momento, mas já existiam. Já os casais que estão se recuperando estão sabendo lidar com estes desafios de outra forma. O autoperdão e o perdão ao seu companheiro são pontos fundamentais para reconstruir um relacionamento amoroso”, ressalta.

Com Assessorias