Abuso de álcool em lives: mistura perigosa em tempos de pandemia

Conar adverte cantor sertanejo por consumir álcool em live. Especialistas em dependência química elogiam iniciativa de órgão regulador e alertam sobre os perigos do álcool para jovens e adolescentes

Redação

A pandemia nos apresentou um mundo novo: os próprios artistas estão se adaptando para manter o contato com seu público fiel enquanto os shows foram suspensos. As lives na internet ganharam ainda mais popularidade e agora são protagonizadas com frequência por estrelas da música sertaneja, entre outros estilos musicais. E para manter os contratos publicitários com as indústrias de bebidas, muitos cantores estimulam o consumo do álcool nas apresentações nas plataformas online.

A preocupação dos especialistas agora é com esse tipo de propaganda, disseminada no que eles chamam de “botecos virtuais”. Com o isolamento social, cantores substituíram os shows ao vivo pelas lives e, nessas apresentações, usam e abusam da cerveja. Já houve casos de integrantes de duplas sertanejas se apresentarem completamento alcoolizados. Cantores que promovem marcas de cervejas nas lives chegam a ter 2,6 milhões de visualizações simultâneas.

Na última semana, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) instaurou representação ética contra ações publicitárias de bebida alcoólica especificamente nas redes sociais. Gustavo Lima a Ambev foram advertidos pelo órgão regulatório, que interpretou que o cantor e a empresa estão incentivando o consumo de álcool por parte dos jovens e adolescentes – grande parte do público das lives nos botecos virtuais. Além das propagandas, os deliverys de bebidas são mais um incentivo para as pessoas consumirem álcool na quarentena.

Presidente da Associação Brasileira de Estudos sobre o Álcool e Outras Drogas (Abead), Renata Brasil Araujo elogia a iniciativa do Conar e chama atenção para o novo fenômeno. Segundo ela, a indústria do álcool está aproveitando este momento de fragilidade emocional da população, causado pela necessidade do isolamento social, para aumentar a venda do produto. “As indústrias não estão levando em conta os cuidados preconizados pelo Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária para a publicidade de bebidas alcoólicas, colocando a saúde física e mental da nossa população em risco”, afirma.

Em países como os Estados Unidos, esse comportamento já está na mira das autoridades de saúde. O Center of Desease and Control (CDC), órgão do governo americano semelhante à Anvisa no Brasil, publicou um alerta quanto ao risco de aumento do consumo de álcool e outras drogas durante o isolamento social. Conforme o CDC, o aumento no consumo de bebidas alcoólicas surge em paralelo a outras alterações emocionais e de comportamento – dificuldade para dormir, ansiedade, medo de contrair a doença ou que pessoas amadas as contraiam – e essa pode ser uma maneira perigosa de lidar com o estresse.

Influência sobre os adolescentes e jovens

“Notamos no Brasil uma grande exposição de jovens e adultos a conteúdos publicitários relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas, que aparecem nos programas de televisão, filmes, videoclipes e redes sociais. Especialmente nas lives, os artistas fazem consumo excessivo de álcool, promovendo uma propaganda ostensiva deste tipo de produto. Vale lembrar que essas lives são acompanhadas por milhares de crianças e adolescentes”, alerta.

A psiquiatra Alessandra Diehl, especialista em dependência química e vice-presidente da Abead, chama atenção para a lucratividade de indústrias do álcool e do tabaco, cujas cifras são altíssimas. Elas destinam uma verba milionária para as propagandas que atingem em cheio os jovens, principalmente por meio da promoção de esportes e programas voltados para esse público. As próprias celebridades, que protagonizam as campanhas publicitária das marcas de cervejas, exercem forte influência entre jovens e adolescentes.

Esse tipo de veiculação das marcas de cervejas causa danos reais com a promoção da ingesta abusiva de álcool. A exposição precoce a estas propagandas reflete na formação de valores a nas intenções de consumo e compras. Infelizmente, a legislação no Brasil ainda não impede a publicidade de álcool direcionada a crianças e adolescentes”, ressalta Alessandra.

Ela lembra que a legislação, de 2015, permite a propaganda comercial por meio de pôsteres, painéis e cartazes, na parte interna dos locais de venda, mas não pode induzir as pessoas ao consumo. Na opinião dela, esse é um momento oportuno para apoiar o PLC 83/15 – projeto de lei com origem na Câmara de São Paulo, em tramitação no Senado – que altera a Lei n° 9.294, de 15 de julho de 1996, para vedar a propaganda comercial de bebidas alcoólicas nos meios de comunicação social.

Efeito colateral pode agravar ansiedade e depressão

Apesar de trazer uma sensação de relaxamento, o consumo de bebidas alcoólicas possui um efeito colateral: pode agravar os quadros de depressão e ansiedade – principalmente em tempos de isolamento social.  Segundo ela, é importante prestar a atenção nessa duplicidade do álcool: a princípio, confere momentos de euforia, deixando a pessoa animada. Mas esse prazer tem curta duração: é quase imediato e, na sequência, piora os efeitos de ansiedade e depressão.

Buscar refúgio na bebida nessa quarentena está longe de ser uma solução para aliviar o sintoma de tristeza, provocada pelo confinamento”, afirma Alessandra.

Ela acrescenta que todo esse sentimento de incertezas e inseguranças inerentes á pandemia, além da solidão, causada pelo confinamento, são gatilhos para consumir bebidas alcoólicas. No entanto, todas essas emoções vão continuar existindo quando o efeito do álcool acabar. “Além disso, na memória das pessoas, o ato de beber está associado a momentos de lazer, como os encontros com os amigos no happy hour ou nos churrascos em família. As pessoas precisam ter noção de que, nessas ocasiões, a diversão está na confraternização, nas brincadeiras nas rodas de conversa, e que o álcool é apenas mais um ingrediente e não o único responsável pelo entretenimento.

Por isso, consumir bebidas alcoólicas (principalmente em excesso) para tentar resgatar e vivenciar momentos de prazer na quarentena não vai devolver essa a sensação de bem-estar que experimentamos quando estamos na companhia de quem a gente gosta. O álcool é apenas uma fuga da realidade, que traz consequências nocivas para nosso organismo e nossa saúde. O alcoolismo está associado a doenças do fígado e do aparelho digestivo, câncer, comportamento violento e depressão”, reflete Alessandra.

Vale lembrar que as pessoas lidam de formas diferentes com o estresse e possuem diferentes vulnerabilidades. O consumo de bebidas alcoólicas ou outras drogas, embora possa produzir um relaxamento inicial naquele que consome, provoca uma série de prejuízos à saúde física e mental. E não se pode atribuir um nível seguro de consumo quanto ao uso de substâncias. Álcool e drogas não combinam com vida saudável”, finaliza.

Alternativas para não ficar deprimido dentro de casa

Para não ficar deprimido dentro de casa, a recomendação da psiquiatra é encontrar alternativas para não perder o contato com o mundo fora dos muros de casa. Aproveite a tecnologia e abuse das chamadas de vídeo para se comunicar com os amigos e familiares. “Além disso, é importante que as pessoas continuem trabalhando em seus projetos pessoais e profissionais. Ocupar a mente com atividades de lazer e inclusive com o autocuidado, como a preocupação com a alimentação equilibrada e com novas propostas de atividades físicas são muito importantes nesse período.

Meditar, ler, cozinhar, assistir filmes e séries na tv e brincar com as crianças – no caso de quem tem filhos – ajudam a aliviar o estresse coletivo de medo, que podem resultar em diversos transtornos psicológicos. Definitivamente, beber não é uma solução viável. Ao contrário: é contraindicada para a saúde mental na quarentena”, avalia a vice-presidente da Abead.

Orientação gratuita durante a pandemia

A Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas  está prestando orientação gratuita para dependentes químicos e familiares durante a crise do novo coronavírus. A iniciativa conta com psiquiatras e psicólogos renomados, que compõe o corpo clínico da entidade, e que uniram forças para ajudar essa parcela da população num momento em que o mundo todo experimenta um cenário de tantas inseguranças e incertezas.

A ação solidária foi idealizada com o intuito de preencher uma lacuna: a dificuldade de acesso a serviços de saúde mental em tempos de isolamento social. “Compreendemos a importância dessa medida, mas não podemos fechar os olhos para as necessidades dos dependentes e dos seus familiares. A própria ansiedade, que é um sintoma crônico de toda a sociedade nesse tempo de pandemia, aumenta a fissura dos usuários de substâncias. Além disso, o confinamento é mais um fator que favorece o aparecimento de comorbidades psiquiátricas. Por isso, estamos oferecendo nosso apoio. É importante dizer que não se trata de um atendimento psiquiátrico com a prescrição de medicamentos. Nossa contribuição é no sentido de prestar orientações/ apoio online”, afirma Renata.

O serviço é oferecido todos os dias da semana, das 8 às 22 horas, de segunda a sábado, e das 8 às 21h, aos domingos. Os profissionais vinculados à Abead fizeram uma escala para atender às solicitações, que podem ser marcadas pelo telefone (51) 98503-6208. O atendimento dura 20 minutos e pode ser agendado até o dia 12 de abril.

Com Assessoria

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