Má qualidade do sono pode causar hipertensão: como lidar?

Estudos apontam que tratamento para insônia pode melhorar os níveis da pressão arterial. Cardiologista e psicóloga explicam

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Durante o sono, o corpo passa por um período de repouso e de restauração e durante as fases mais profundas são produzidos hormônios que controlam a circulação. Quando se tem uma noite de sono ruim, o nível dessa produção e o fluxo de sangue são afetados. Desta forma, o corpo não “desliga” e o coração e cérebro não descansam, mantendo a frequência cardíaca e a pressão arterial elevadas.

A pressão alta, um dos principais fatores de risco para doenças cardíacas, pode ser causada pelo sono de má qualidade, já que dormir mal pode causar sonolência, dificuldade de concentração e irritabilidade, fatores que interferem na elevação da pressão arterial. Assim, o indivíduo que dorme mal produz menor quantidade de hormônios que controlam a circulação, podendo levar a problemas cardiovasculares como a hipertensão e doenças do coração, alertam especialistas da Associação Brasileira do Sono (ABS).

Pesquisas recentes sugerem que a insônia crônica (com destaque para aquela ligada à curta duração do sono) está associada com aumento no risco de hipertensão arterial sistêmica (HAS). Em artigo publicado sobre o impacto na insônia na hipertensão arterial, o médico Luciano Drager, presidente da ABS, afirma que o tratamento apropriado da insônia pode ter benefício na redução da PA, mas novos estudos são necessários nesta importante área.

“No âmbito da cardiologia, os dados são escassos. Em um dos únicos trabalhos na área, um grupo americano reportou que cerca de 1/3 dos pacientes com síndrome coronariana aguda apresentou queixas de insônia durante a hospitalização”, destaca o especialista, que é professor do Departamento de Clínica Médica da FMUSP e médico Assistente da Unidade de Hipertensão do Instituto do Coração (InCor).

Ainda segundo ele, nos últimos anos, os distúrbios de sono têm ganhado atenção na Cardiologia, decorrente de evidências crescentes, apontando um aumento no risco de ocorrência de diversas doenças cardiovasculares. Estas evidências foram recentemente reunidas e compiladas em um documento que resume de forma prática o impacto dos distúrbios de sono para o cardiologista brasileiro.

“De fato, há evidências associando a insônia com a HAS, doença coronariana, insuficiência cardíaca, fibrilação atrial, assim como aumento da mortalidade. Neste sentido, a interação do cardiologista com o médico com formação em Medicina do Sono pode ser útil para uma abordagem integrada do paciente”, “explica o médico.

Evidências recentes começaram a explorar se o tratamento da insônia pode promover melhora na pressão arterial. O estudo randomizado SLEPT (Sleep to Lower Elevated Blood Pressure), usando apenas intervenções não farmacológicas, observou que elas promoveram melhora na qualidade do sono, mas não reduziram de forma significante a pressão arterial (PA) em hipertensos estágio 1 com insônia não complicada.

Tratamento da insônia com terapia cognitivo-comportamental

Ainda de acordo com o presidente da ABS, o tratamento da insônia, usualmente, requer uma abordagem multidisciplinar, incluindo diversas intervenções psicológicas e comportamentais, tais como a terapia cognitivo-comportamental (TCC).

Segundo a psicóloga e especialista do sono, Laura Castro, sócia-fundadora da Vigilantes do Sono, programa digital de terapia cognitiva-comportamental para insônia (TCC-I), é primordial que o tratamento de distúrbios do sono receba a devida importância para prevenir quadros de hipertensão e outras doenças.

“Nosso corpo exige um período de descanso necessário para o bom funcionamento. É extremamente importante que respeitemos nossa necessidade de descanso, que é individual e pode variar de pessoa para pessoa, mas, essencialmente, não há descanso adequado sem boas noites de sono”, ressalta.

De acordo com a especialista, é possível adotar alguns hábitos para melhorar as noites de sono e evitar eventuais distúrbios e suas consequências. “Respeitar o horário de dormir é fundamental, o que envolve um ritual de preparo para o sono, pois o corpo leva algum tempo para começar a se “desligar”.

Por isso, é importante evitar telas antes de repousar, ter cuidado com a ingestão de substâncias cafeinadas (chocolate, café, chás, refrigerantes, etc), que excitam o cérebro , tanto quanto outros estimulantes, como o cigarro ou outras drogas, além da prática de exercícios físicos à noite, que pode interferir com a temperatura corporal e também atrasar o sono.

Também é recomendável não ficar muito tempo na cama, principalmente tentando dormir sem conseguir, pois trata-se de treinar o corpo para que associe a cama a um lugar de repouso e conforto, e não de luta contra a falta de sono”, destaca.

Quanto às consequências de noites mal dormidas, Laura ressalta que podem ser graves para o funcionamento mental e físico no restante do dia e, justamente por esse motivo, quando há um problema ou dificuldade com o sono, devem ser tratados antes de se tornarem recorrentes ou crônicos.

“A ausência do repouso ou de um sono que seja restaurador pode nos afetar muitas vezes de forma silenciosa e a hipertensão é um bom exemplo desse tipo de efeito, que é de médio e longo prazo. Somente quando surgem as crises de pressão alta que começa a conscientização para a importância do descanso e do sono, e é quando comumente vem o reconhecimento de algum distúrbio do sono de base que não havia sido diagnosticado. É o que frequentemente observamos no caso dos distúrbios respiratórios, como o ronco e a apneia”, afirma a psicóloga.

“Há os efeitos de médio e longo prazo, como a hipertensão, mas também no dia seguinte de uma noite mal dormida o corpo pode sentir muito a falta de descanso. Além da sensação de fadiga e sonolência, a redução ou fragmentação do sono acaba afetando o humor e a concentração, aumentando a reatividade ao estresse e provocando outras consequências que podem tornar o problema ainda mais grave, como no caso dos acidentes de trânsito ou de trabalho”, conclui.

Saiba mais sobre a insônia

De acordo com Luciano Drager, a insônia é definida como a dificuldade em iniciar o sono e/ou manter este estado e/ou acordar mais cedo do que o desejado, apesar de adequada oportunidade para dormir.

“Dizemos que a insônia é crônica quando ela ocorre pelo menos duas vezes por semana por, no mínimo, três meses, acompanhada de insatisfação com o sono e prejuízos de funcionamento durante o dia, como fadiga/ mal-estar; prejuízo na atenção, concentração ou memória; sonolência diurna, entre outros”, esclarece.

A insônia é o distúrbio do sono mais frequentemente encontrado nos Estados Unidos, com taxas de prevalência de 15%-24%. No Brasil, um estudo epidemiológico na cidade de São Paulo encontrou uma prevalência de 15% (critério DSM-IV), chegando a 32% quando foram feitas medidas objetivas de medir a insônia usando a polissonografia.

Quais medicamentos são mais indicados?

Segundo o especialista, uma proporção cada vez mais significante de pacientes necessita de tratamento farmacológico para a insônia. Este campo tem ganhado um enorme avanço nas últimas décadas com o desenvolvimento de novas medicações.

Os agentes disponíveis no Brasil e mais utilizados são os hipnóticos que se ligam aos receptores GABAA, como os hipnóticos benzodiazepínicos e não benzodiazepínicos (por exemplo, as chamadas “z-drugs”, tais como o zolpidem).

O zolpidem é hoje um dos agentes hipnóticos mais comumente prescritos para o tratamento da insônia. Este efeito sobre a estrutura do sono não é observado com o uso de benzodiazepínicos.

Com Assessorias

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