Margareth Dalcolmo: ‘Desfile na Sapucaí é inoportuno nesse momento’

Em entrevista exclusiva, pneumologista Margareth Dalcolmo analisa atual cenário da pandemia e prevê pico da ômicron em duas semanas

A explosão de casos de Covid-19 com o avanço da variante ômicron, potencializado pelas festas de fim de ano, pode ser o começo do fim da pandemia no Brasil? É possível, mas por enquanto, nada de se aglomerar no Carnaval. Em meio à nova onda de casos, que provoca uma corrida por testes e pela vacinação, Margareth Dalcolmo, médica pneumologista e pesquisadora da Fiocruz, faz um alerta: “‘Desfile na Sapucaí é inoportuno nesse momento”.  Uma das maiores autoridades do país no tema pandemia, ela falou com exclusividade ao canal da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) no Youtube.

Na edição especial do programa #ABISaúde, além de condenar o Carnaval em tempos de ômicron – não apenas no Rio, mas em sambódromos e outros desfiles em todo o país, principalmente em São Paulo -, Dalcolmo fala sobre o pedido de aprovação de autotestes para a Covid-19 – que a Anvisa deverá analisar esta semana;  o misterioso apagão de dados na Saúde; a chegada da vacinação infantil e novos estudos para a imunização em crianças de 6 meses a 5 anos e outros assuntos. A entrevista foi conduzida pelas jornalistas Rosayne Macedo, editora-chefe do Portal ViDA & Ação e diretora de Assistência Social da ABI, e Leda Beck, conselheira da ABI e vice-presidente da ApJor (Associação Profissão Jornalista).

Segundo Dalcolmo, deverá haver um pico da Covid-19 nas próximas duas semanas, quando, então, o número de casos pode começar a cair, se – e somente se – o Brasil continuar reproduzindo o comportamento do vírus na Europa. A previsão é que metade da população brasileira seja contaminada pela nova variante, que tem altíssima transmissibilidade (quase um para seis infectados). No entanto, a ômicron se apresenta até o momento com baixa letalidade – a maior parte dos casos tem se mostrado leve e a maioria dos que vão para as unidades de tratamento intensivo (UTI) é de não-vacinados.

A questão, porém, é a velocidade com que a nova onda vem se espalhando, em proporção ao tamanho da população. “Um porcento de 1.000 não é muito, mas um porcento de um milhão é muita gente”, compara, falando sobre os efeitos da sobrecarga no SUS.  Contrária à ideia de novos ‘lockdowns’, ela fala dos impactos do alto índice de absenteísmo causado pelo afastamento obrigatório de pessoas infectadas, especialmente nos serviços essenciais – muitos profissionais da saúde estão sendo afastados do trabalho porque estão infectados.

Na entrevista ao #ABISaúde, a futura presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia diz que o momento é de cautela e autoproteção. Evitar aglomerações, usar máscara e álcool em gel e, sobretudo, completar o esquema vacinal contra o coronavírus são as principais recomendações. Para os idosos, que podem sofrer mais com complicações decorrentes da doença, ela recomenda, além da dose de reforço, manter outras vacinas em dia.

Margareth Dalcolmo ainda destacou o importante papel da imprensa e dos jornalistas no combate às fake news e ao vírus do negacionismo. “A imprensa tem sido uma grande aliada da Ciência desde o início”, afirmou a médica. “Só não tomou consciência quem não quis”, completou.

Assista a live do #ABISaúde no Youtube:

Confira algumas questões e assista as respostas no Youtube

OMICRON – A variante ômicron, que começou duas semanas antes na Europa, já se tornou predominante no Brasil. Mais uma vez, não nos preparamos para esta nova EXPLOSÃO DE CASOS. Recentemente, a senhora questionou se a variante Ômicron pode representar o início do fim  da pandemia. Quando vamos finalmente nos livrar dessa pandemia? Ninguém vai escapar dessa variante, só que de forma mais leve e menos letal por causa das propriedades da variante, que é diferente da Delta, e da imunização da população?

NOVAS VARIANTES – Recentemente a Organização Mundial de Saúde rebateu uma declaração do presidente Jair Bolsonaro de que a variante ômicron era “bem-vinda”. A jornalista Mônica Coronel, que está com Covid, pergunta: “A OMS diz que haverá outras variantes mais letais que a Ômicrom.  Qual cenário os especialistas podem prever com a acelerada mutação do vírus da Covid?”

SOBRECARGA NO SUS – Muitos setores da economia estão sendo prejudicados pelo grande número de funcionários afastados por contaminação pela ômicron. Na área de saúde, não é diferente: muitos profissionais estão fora de combate., dificultando ainda mais a testagem, vacinação e assistência hospitalar. O SUS vem resistindo a tudo isso e provando sua força e sua importância para a saúde pública. Até quando o SUS vai suportar, doutora? Há risco de um novo colapso?

LOCKDOWN – Diante do risco de sobrecarga na rede hospitalar – quatro capitais já estão com leitos de UTI lotados (Forteleza, Recife, XXX ) – algumas cidades, como Curitiba, voltaram a adotar medidas restritivas, Pernambuco passa a exigir teste negativo em grandes eventos. Corremos o risco de novos lockdowns, como já vem ocorrendo em outros países? Como a população pode contribuir agora para reduzir mais impactos?

APAGÃO DE DADOS – Os veículos de comunicação saíram na frente ao formar um consórcio para informar à população sobre os dados reais em torno dos casos e óbitos por Covid-19 no país. Estima-se (Miguel Nicolelis e Pedro Hallal, por exemplo) que haja atualmente mais de 1 milhão de casos de Covid-19 no Brasil. Como a imprensa pode auxiliar no apagão de dados nos sistemas de informação do Ministério da Saúde, que é tratado como uma invasão de hackers, até o momento sem uma solução definitiva? 

INFLUENZA – Paralelamente, temos ainda uma epidemia de Influenza, causada por uma nova cepa do subtipo A (H3N2), agravada ainda pela baixa cobertura vacinal na última campanha. Os sintomas se confundem. Como diferenciar? Quem não vacinou contra a gripe deve se vacinar neste momento ou priorizar a dose de reforço e aguardar a nova campanha de vacinação, já voltada para a nova cepa.

TESTAGEM – No começo da pandemia, a OMS recomendou testagem maciça na população, o que nunca ocorreu no Brasil, por falta de uma política pública neste sentido. Agora, após as festas de fim de ano, a nova variante tem provocado uma corrida às unidades de saúde para testagem pelo SUS em diversas cidades. A Abramed (Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica) já fala em escassez de testes. Pergunto: todo mundo deve ser testado neste momento, mesmo quem é assintomático ou contactante? 

VACINAÇÃO INFANTIL – Finalmente, a partir de segunda-feira (17), as crianças de 5 a 11 anos poderão ser imunizadas com doses da Pfizer. A polêmica em torno da consulta pública e uma audiência para decidir sobre o tema, que foi inédita no contexto das vacinas disponíveis pelo PNI, provocou ainda mais desconfiança por parte de muitos pais e responsáveis. O que a senhora diria para essas pessoas hoje? Essa demora na liberação pode comprometer a contenção do avanço da ômicron no Brasil? E os bebês de 6 meses a 5 anos, serão os próximos a ser vacinados? 

VACINAÇÃO INFANTIL 2 – A funcionária da ABI, Queli Delgado, que tem uma menininha linda, pergunta: “Os pais que infelizmente pensam em não vacinar seus filhos, as crianças não vacinadas vão conviver no mesmo ambiente com as vacinadas vão conviver na escola com as vacinadas. Como será isso? Porque o impasse já existe, em as escolares exigirem ou não o comprovante de vacinação”. 

PASSAPORTE VACINAL – Há também muita polêmica em torno da exigência do passaporte vacinal para entrada em locais fechados e eventos com grande presença de público, assim como a exigência do passaporte vacinal para quem chega ao Brasil. Essa medida hoje é tão importante quanto a manutenção do distanciamento social, o uso de máscaras, a higienização das mãos etc?  

IDOSOS VULNERÁVEIS – Desde o começo da pandemia, a população 60 + foi considerada o principal grupo de risco para os casos graves de Covid-19. Hoje, a maioria está vacinada com as três doses contra o coronavírus. Em uma pesquisa feita pela nossa Diretoria de Assistência Social, observamos que a maior parte dos associados da ABI (mais de 70%) possui mais de 70 anos, usa os serviços do Sistema Único de Saúde e transportes públicos, o que os torna ainda mais vulneráveis. O que a senhora diria hoje para os nossos associados?

APROVAÇÃO DE AUTOTESTES – Sabemos que a pandemia da Covid acentuou as desigualdades sociais no Brasil. Agora, o governo federal acaba de pedir à Anvisa a aprovação de auto-testes para venda em farmácias e drogarias. A senhora acha que essa medida mais uma vez enfraquece o SUS e deixa a população mais vulnerável desprotegida? 

FAKE NEWS E NEGACIONISMO – A senhora acredita que a imprensa pode colaborar mais para a contenção da onda de fake news no país? Como ‘isolar” o vírus do negacionismo, que vem de cima, incentivado pelo próprio presidente da República e o chamado gabinete do ódio e grupos de apoiadores do presidente que agem nas redes sociais?

O perfil da entrevistada

Margareth Dalcolmo, MD , PhD é pneumologista e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, e foi eleita presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisologia para o biênio 2023-2024. Docente da oós-graduação da PUC-RJ, é membro e ex-coordenadora da Câmara Técnica de Pneumologia e Cirurgia Torácica do Cremerj e colunista semanal do jornal O Globo

Com experiência na condução e participação de protocolos de pesquisa clínica para tratamento da tuberculose e outras micobacterioses, Covid-19 e demais pneumopatias. Coordena, no Rio de Janeiro, os estudos de fase 3 para avaliar a eficácia da vacina BGC na prevenção da Covid-19 (Brace Trial Brasil) e o estudo com o medicamento molnupiravir para verificar sua eficiência na redução da propagação e transmissão da Covid-19 entre pessoas expostas ao vírus Sars-CoV-2.

É membro do Comitê Assessor em Tuberculose do Ministério da Saúde e das comissões científicas das Sociedades Brasileiras de Pneumologia e Tisiologia e de Infectologia, da REDE TB de Pesquisa em Tuberculose e membro do Steering Committee do Grupo denominado RESIST TB, da Boston Medical School.

Integra também o Expert Group for Essential Medicines List da OMS e o Regional Advisory Committee do Banco Mundial para projetos de saúde na Africa Subsaariana em Tuberculose e doenças respiratórias ocupacionais. É Investigadora principal do ensaio clínico SimplicTB da Global Alliance for Tb Research. 

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