Massacre de Suzano: em busca de motivos para estancar a dor

Psicólogas analisam motivações para o crime e chamam a atenção para importância de se diagnosticar e tratar transtornos mentais entre adolescentes e jovens

Rosayne Macedo

Era hora do recreio numa manhã comum de quarta-feira numa escola pública da Região Metropolitana de São Paulo. Em poucos minutos, o cenário ali era de terror. Cinco estudantes e dois funcionários foram cruelmente assassinados por dois jovens ex-alunos da escola: um de 17, outro de 25 anos, ambos fortemente armados. Para encerrar o ataque apocalíptico, um matou o outro e em seguida, se matou. Pouco antes, o mais jovem executou o tio, que descobrira todo o plano da dupla.

O que poderia parecer cenas de um violento filme policial estremeceu o Brasil inteiro. Não estamos “acostumados” aqui a crimes bárbaros como este, que vira e mexe se reproduzem nos Estados Unidos, o país mais armado do mundo. Mas quem estaria?

O massacre de Suzano, uma cidade de pouco mais de 200 mil habitantes, colocou em pauta nacional os debates em torno da liberação de armas da população – defendido pelo atual governo e rechaçado por boa parte das famílias brasileiras. A polícia investiga, inclusive, a hipótese de ‘terrorismo doméstico’, como são chamados os atentados terroristas cometidos por cidadãos contra o seu próprio povo ou governo, e já procura outros envolvidos.

Guilherme, de 17 anos, e Luiz Henrique, de 25: os assassinos de Suzano (Reprodução de internet)

O crime também trouxe à tona a superexposição dos jovens a violentos jogos eletrônicos – a dupla de atiradores era fã de um game que pregava uso de armas letais, máscaras e roupas camufladas, como as que usavam no momento do crime.

O vice-presidente da República, Hamilton Mourão, chegou a culpar o excesso de games na adolescência, sem a supervisão dos pais, por falta de ensino integral nas escolas. Os gamers se defenderam, garantindo que não são violentos. A hashtag #somosgamersnaoassassinos rapidamente se tornou o assunto mais comentado entre os internautas.

A culpa, então, seria unicamente dos próprios assassinos – e também vítimas de si próprios -, que seriam portadores de graves transtornos mentais, não diagnosticados? Ou eles sofreram bullying na escola e resolveram se vingar, sem dó nem piedade?

Afinal, o que teria motivado os rapazes a matar tanta gente a sangue frio na Escola Estadual Professor Raul Brasil e em seguida, dar cabo da própria vida?

Tragédias como a ocorrida em Suzano nos mobilizam de tal maneira que tentamos encontrar algum fator que explique as diversas motivações que levam jovens a proporcionar cenas de terror como nos jogos e filmes de violência. Assim, é recorrente encontrar nos jogos de videogames o principal desencadeador desses atos”, destaca a psicóloga Raquel Veloso.

Vídeos: ferramentas para refúgio da realidade

Porém, segundo ela, “ao nos limitarmos apenas nesse ponto, deixamos de lado fatores bem mais complexos e profundos com relação ao extremo sofrimento psíquico desses jovens no seu meio familiar e social”. Para a especialista, os videogames podem ser entendidos como “mais uma ferramenta para refúgio da realidade, sendo também um meio para amenizar as angústias e estresse vivenciadas no dia a dia”.

Tal relação pode ser construtiva ou destrutiva para o sujeito e para o meio em que vive. Em casos de jogos envolvendo cenas explicitas de violência, precisamos compreender melhor a intensidade da relação que o jovem faz com este jogo, isto é, quais as motivações ditas e não-ditas que levam aquele jovem a optar por aquele jogo como principal forma de entretenimento”, analisa Raquel.

Para ela, eliminar de maneira retaliativa os jogos na vida dos adolescentes poderá ser uma medida limitada para prevenção de possíveis atos de violência, sobretudo, na adolescência, onde testar os limites das leis são necessárias para a construção e compreensão de sua identidade como sujeito. Na sua opinião, somente o diálogo sensível e atento para com o jovem, tanto em seu seio familiar quanto na escola, poderá ser o principal meio para a prevenção de situações tão graves como da escola em Suzano.

É fundamental que possamos entender que o ambiente familiar, seguidamente do ambiente escolar, são locais de extrema importância para a constituição do individuo na civilização. Assim, faz-se necessário investimento nos profissionais das escolas, capacitando o olhar e a escuta de professores para sinais que denotam grave sofrimento psíquico de crianças e adolescentes, considerando também o encaminhamento para tratamento dos jovens e suas famílias que apresentarem maior complexidade e gravidade em suas relações”, destaca.

‘O amor é um excelente remédio’

O Brasil inteiro também se colocou no lugar das famílias dessas vítimas e dos sobreviventes da terrível chacina. Afinal, não é difícil supor que em tragédias como essa, pais e filhos estão fragilizados.

Os dois vivenciaram esta tragédia agressiva e desmedida e estão sofrendo e com medo. Como pais e adultos, podemos ter acesso a recursos psicológicos e afetivos que podem nos auxiliar a acolher a dor dos filhos. Porém, ressalto que ambos, pais e filho estão fragilizados e necessitados de apoio social, psicológico e espiritual”, afirma a psicóloga Márcia Velasco (foto), especialista em Comportamento Humano.

Ela chama  atenção para a necessidade urgente de se voltar a atenção para a saúde mental. “A assistência psicológica é importantíssima no movimento de mudanças de vida que estamos atravessando na contemporaneidade. A velocidade da informação, o tempo escasso de contato com a família e amigos está nos distanciando do que nos é primordial enquanto humanos – a relação afetiva e o contato pessoal. O progresso, o avanço tecnológico e a civilização não se equivalem, pode haver um progresso bárbaro. É isso que estamos assistindo e sentindo em nosso mundo atual”, analisa.

A psicóloga cita Kevin Kelly em ‘The Inevitable‘: “Nós estamos nos metamorfoseando tão rápido, que nossa habilidade de inventar novas coisas, ultrapassa nossa capacidade de civilizá-las”. E, como diz um ditado: ‘o tempo é um excelente remédio’. “As coisas precisarão se assentar para que possam ter condições de raciocínio e forças para agir em prol dos filhos. O mais importante agora é o acolhimento e muito amor. Parafraseando ‘O amor é um excelente e importante remédio'”.

Enquanto especialistas em saúde mental se debruçam sobre o “caso clínico” de Suzano e tentam traçar o perfil psicológico dos jovens atiradores, integrantes da chamada “bancada da bala” voltaram a defender a liberação da posse de armas como uma solução contra episódios como o de Suzano. O senador Major Olímpio (PSL-SP) ), chegou a afirmar que se na escola houvesse um cidadão com uma arma regular “ele poderia ter minimizado o tamanho da tragédia”.

Então perguntamos: quem está doente? Nossos jovens ou nossos governantes e representantes do povo?

SOBRE O CRIME

De acordo com os policiais, Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, 25, planejaram o crime ao longo de um ano e pretendiam matar mais pessoas do que as 13 vítimas do massacre de Columbine, ocorrido em abril de 1999 nos Estados Unidos.

Na ocasião, Eric Harris, de 18, e Dylan Klebold, 17, mataram a tiros 12 colegas e um professora antes de se suicidarem na escola. No massacre de Suzano, além dos 10 mortos, incluindo os autores, 11 pessoas ficaram feridas, uma delas em estado grave.

Além de revólveres calibre 38 e farta munição, os assassinos usavam uma marreta para atacar as vítimas, arco e flecha, coquetel molotov e uma arma medieval conhecida como besta, para lançamento de flechas.

Com Assessorias e agências

 

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