Médicos recomendam cautela na volta às aulas para a segurança de todos

Redação

Em todo o Estado de São Paulo, mais de 3,5 milhões de estudantes estão na expectativa de voltar às salas de aula nesta quarta-feira, dia 7 de outubro, e estabelecer contato presencial com colegas e professores, após sete meses de distanciamento. Para muitos, este pode ser o indício de um retorno à normalidade, mas ainda há quem esteja cauteloso e questionando se esta seria a opção mais adequada.

Consultado sobre o assunto, o médico Alex Galoro, gestor do Grupo Sabin Medicina Diagnóstica, explica que as escolas desempenham um papel importante no desempenho educacional, bem-estar e saúde dos alunos, mas agora é fundamental que as autoridades de cada município façam análises criteriosas do cenário atual para garantir a proteção de todos os envolvidos nesta retomada.

É um passo muito importante que estamos dando nesta retomada das atividades. Mas é fundamental que o trabalho seja conduzido de forma conjunta, planejada e estruturada, para evitar a disseminação do SARS-CoV-2. O mais importante é que todas as medidas protejam alunos, professores e funcionários e garantindo ambientes de aprendizagem saudáveis”, explica.

Segundo o especialista, à medida que as escolas começam a reabrir suas portas pais, responsáveis ​​e cuidadores vão precisar avaliar vários fatores para tomar a decisão de voltar às salas de aula. “Há diversos fatores a levar em consideração, que vão além do ensino. Como será o acesso à merenda escolar e ao transporte, por exemplo? Como será o apoio socioemocional de colegas e educadores? É um passo importante a ser dado, mas é preciso cautela”, pondera o especialista.

O médico reitera ainda que pais, responsáveis ​​e cuidadores devem pesar todos os riscos relativos à saúde nesta etapa. “É fato que além da casa da criança, nenhum outro ambiente exerce mais influência na saúde e qualidade de vida da criança do que a escola, que é onde ela tem acesso à educação, desenvolve suas habilidades sociais e emocionais, mas ainda é tudo muito novo. Ainda há muito o que se conhecer sobre esta doença. Então, o mais importante nesta tomada de decisão é que os gestores analisem muito cuidadosamente como desenrolar este processo da melhor forma possível, aliando segurança, prevenção e educação”, destaca.

Imunologista defende a volta às aulas de forma escalonada

A imunologista e PhD em doenças infecciosas, Lúcia Abel Awad, opinou a respeito da volta às aulas nas redes públicas e privadas de ensino. “Sou a favor da volta às aulas de forma escalonada e com protocolos bem definidos por gestores e profissionais da saúde, com obediência às diretrizes da OMS. Sem dúvida é um grande desafio, diante de tantas incertezas que temos neste momento, daí a importância da apresentação dos protocolos aos pais e alunos para que essa retomada ocorra com sucesso”, ponderou Dra Lúcia, que é professora da Unisa e pesquisadora ligada à USP.

De acordo com ela, o regime adotado em outros países consistiu no uso obrigatório de máscaras, divisão das turmas em grupos com rodízio dos dias das aulas presenciais (parte da turma vai para a escola e parte realiza as aulas em casa de forma remota), horários diferentes para entrada e saída, intervalos e refeições feitas, preferencialmente, em locais abertos e bem ventilados, evitando ao máximo as aglomerações.

A volta às aulas pelo país

O Governo de São Paulo autorizou as instituições de ensino do estado a retomar as aulas presenciais no último dia 7. Ainda assim, durante o anúncio, ficou estabelecido que caberá aos municípios a decisão de acompanhar o cronograma estadual. Na capital paulista, a Prefeitura confirmou o retorno também para o dia 7, com atividades extracurriculares, como atividades físicas, aulas de idiomas e música.

No Brasil, além de São Paulo, Espírito Santo, Pará, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Santa Catarina e Piauí, já decidiram retomar as aulas presenciais. Rio de Janeiro, Alagoas, Maranhão, Goiás, Paraná, Bahia, Rondônia, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Ceará, Sergipe, Paraíba, Roraima e Tocantins ainda não há definição. Já no Distrito Federal, Acre e Rio Grande do Norte não há retorno este ano.

No Piauí, a questão está no âmbito judicial. A justiça emitiu liminar favorável para a volta às aulas presenciais, para os estudantes do 3º ano do ensino médio a partir do próximo dia 19. Polêmica também no Amazonas, onde as aulas foram retomadas em agosto, mas novos casos da doença, provocaram a interrupção das atividades, que já foram retomadas em todo o estado.

Condições sanitárias das escolas preocupam professores

O Instituto Península, organização social que acredita no professor como principal agente transformador da educação brasileira, entende que o retorno às aulas deve acontecer desde que os contexto locais sejam analisados cuidadosamente, todos os protocolos de segurança contra a Covid-19 sejam garantidos aos educadores e estudantes, que haja um acolhimento adequado a eles e um fortalecimento da relação professor-aluno.

Por isso, elaborou um documento de apoio à ação de Secretarias de Educação e unidades escolares na retomada das aulas, dentro de uma perspectiva de uma educação integral que considera múltiplas perspectivas do ser humano e não apenas o seu cognitivo, e inspirado na Política de Humanização do SUS.

Intitulado “Orientações de acolhimento para professores” e disponível em http://www.institutopeninsula.org.br, o material leva em consideração o acompanhamento que o Instituto Península tem feito com educadores de todo o Brasil durante a pandemia por meio da pesquisa “Sentimento e percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios do Coronavírus no Brasil”.

Em sua mais recente fase, a pesquisa identificou que a questão que mais preocupa 86% dos docentes está relacionada às condições sanitárias adequadas nas escolas, o que mostra a importância dos protocolos de segurança levarem em consideração uma escuta ativa e serem comunicados com transparência.

Além disso, a pesquisa mostra que os professores se sentem preocupados com a saúde mental dos alunos, que também tiveram que se desdobrar para acompanhar as aulas online. Mas para que possam acolher os estudantes, os educadores também precisam se sentir acolhidos.

“Queremos colaborar com uma volta às aulas segura e acreditamos que o apoio emocional caminhará junto com a retomada do processo de ensino. É o momento de termos um olhar ainda mais humano para as relações”, afirma Mariana Breim, diretora de desenvolvimento integral do Instituto Península.

“Orientações de acolhimento para professores” indica que o passo inicial para a retomada das aulas presenciais é a distribuição de um questionário diagnóstico anônimo aos professores e equipes de apoio a fim de coletar informações sobre as diferentes esferas da vida destes educadores neste período de isolamento. Esta escuta é base para o mapeamento das ações necessárias para seguir com as estratégias de acolhimento e para adequações físicas e organizacionais.

A partir das informações levantadas com os dados dos questionários é possível pensar em um plano de ação que seja sensível às necessidades dos educadores de cada escola e dar início a rodas de acolhimento, um convite para compartilhar acontecimentos e sentimentos marcantes na vivência de cada um durante a pandemia. Também são indicados documentos que podem ajudar os gestores, como modelos de questionário e propostas para as rodas de acolhimento, colocando os educadores como protagonistas deste processo.

“Este documento é um apoio para as Secretarias de Educação e unidades escolares, mas compreendemos que as realidades e formas de gestão das escolas no país são muito diversas e que cada equipe gestora ajustará esta proposta para responder à sua realidade, respeitando e integrando os protocolos sanitários”, completa Mariana.

Com Assessorias