Metas irreais para 2021 podem gerar ansiedade, frustração e culpa

“Seria o início de ciclos uma das maiores causas da angústia humana moderna e adoecimento da mente?”, questiona Isabel Marçal

Redação

Por Isabel Marçal*

O que diferencia os seres humanos dos outros animais é a consciência, a capacidade de raciocínio e compreensão de si e do ambiente. É a partir desta qualidade exclusiva que desenvolvemos a noção de tempo, de finitude, ou seja, de começo, meio e fim.

Na modernidade, o conceito de tempo se transformou: o que antes era circular – uma reprodutibilidade da vida –, passa a ser propriedade do homem, no qual é possível ter a liberdade para criar, desenhar o próprio destino, passando o plano de vida a ser de sua responsabilidade e trazendo o dever de fazer algo com a existência.

Isso, por sua vez, gera uma extrema angústia. Seria ousadia dizer que essa é a maior angústia moderna, uma das causas mais frequentes do sofrimento psíquico e do adoecimento da mente?

Sendo assim, foi preciso desenvolver ferramentas para auxiliar nesta árdua tarefa de desenhar a vida. Uma das primeiras ferramentas que utilizamos foi o ano solar, essa uma volta – 365 dias que levam para completar um ciclo de estações na Terra – é um ciclo estável da natureza e passou a ser a maior referência do homem. Um período de começo, meio e fim para que haja a possibilidade de estabelecer planos e projetos.

Recorremos, também, aos rituais para estabelecer conexões com o tempo e, um dos maiores rituais da humanidade, no qual todas as “raças” e “credos” estão unidos, é a celebração do Ano Novo, do próximo ciclo que está por vir, da página em branco que apazigua a alma e traz a ideia de que podemos fazer diferente, melhor! Pode parecer meramente simbólico, mas a grande valia do simbolismo é não ser nem verdadeiro, nem falso, mas uma ferramenta de ancoragem, de ordenação e no caso do “Réveillon” de esperança.

O ritual nos ajuda a elaborar e nos fortalece para seguirmos em frente. A renovação do calendário mexe com o nosso psiquismo e somos encorajados a projetar mudanças que vínhamos adiando, ou que não priorizávamos na rotina – pois, a prática do dia a dia é a de obedecer ao desejo do outro, a vontade da sociedade. É como se recebêssemos a chance de melhorar o entrosamento conosco mesmo, de entrar em contato com seu eu interno e suas necessidades e vontades reais; e, assim, fazer uma reorganização para alcançá-las.

Porém, na maioria das vezes, essa ritualização é realizada de uma maneira hiperidealizada, acreditando que a “magia do ano novo” torne o 1º de janeiro algo bem diferente do que foi o dia 31 de dezembro. Quando isso acontece, ao invés de fortalecimento após o período de euforia da celebração, aparece a ansiedade ou o aumento dela, a desilusão, entre outras sentimentos que podem levar ao aparecimento ou agravamento de doenças psíquicas.

A “magia” de 2020 para 2021 materializa-se na vacina, afinal o mundo parou por causa de um vírus. Cidades fecharam, ruas ficaram vazias, famílias tiveram que se isolar, pais, avós, amigos só pela tela. Nossa realidade foi abruptamente modificada, perdemos mais seres humanos que na Segunda Guerra Mundial e a sociedade, que já apresentava altíssimos índices de sofrimento psíquico, passa a enfrentar uma crise global de saúde mental (como foi denominada pela Organização das Nações unidas em seu alerta em maio de 2020).

Um ano que provocou mais medo, aumentou a preocupação excessiva e a falta de concentração, como pudemos notar na primeira etapa da pesquisa “Sociedade de Vidro na Pandemia” conduzida por nós, do Instituto Bem do Estar – em parceria com a NOZ Pesquisa e Inteligência –, não poderia deixar de despertar esse sonho mágico. Mas, infelizmente, as vacinas não são milagrosas e apesar da aprovação ainda não sabemos quando uma outra “nova realidade” irá chegar. Sabemos que, por enquanto, vamos continuar mantendo todos os cuidados, ou seja, usar máscaras, “tomar banho” de álcool em gel, manter o distanciamento social e, acima de tudo, cuidar da saúde da mente. Pois, sem esse cuidado, não é possível sonhar, planejar e realizar.

O primeiro passo para cuidar da saúde da mente e conseguir controlar a ansiedade, o estresse e os sentimentos que levam a depressão é ter a coragem de olhar para dentro. O autoconhecimento é a chave mais poderosa para transformar a realidade dolorida. Assim como muitos brasileiros tiveram a oportunidade de olhar um pouco mais para seus sentimentos e emoções com a pesquisa* – que acaba de encerrar a segunda etapa, que teve como foco a nova realidade que se instaurou após oito meses de pandemia – você também pode parar, desconectar do externo e conectar-se com você mesmo, notando quais sentimentos passam por você.

Esse olhar é muito semelhante àquele encontro com seu eu interno de Ano Novo, mas, lembre-se, sem julgamento, sem ser um acerto de contas consigo onde são traçadas metas irreais e/ou esperado por acontecimentos hiperidealizados – os quais somente irão desencadear mais ansiedade, frustração e culpa.

*Os dados colhidos serão apresentados no book “Sociedade de Vidro na Pandemia” que contará com a comparação dos dados levantados e uma análise propositiva do impacto da pandemia na saúde da mente da população brasileira, realizada por especialistas convidados. O book será público e está previsto para o início do segundo trimestre deste ano.

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Isabel Marçal é especialista em gestão de projetos sociais, com 15 anos de experiência no setor de Impacto Social, à frente da gestão de organizações. Atualmente cursa Psicanálise e é presidente e cofundadora do www.bemdoestar.org. Apaixonada pela vida, seres humanos e suas relações. Sonha com uma sociedade mais saudável e justa, por isso, acredita que o primeiro passo esteja na consciência individual de cada ser humano

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