Morte de idosa no RJ acende alerta: o que fazer quando um parente desaparece?

Após 4 dias desaparecida, Marilza, de 79 anos, é encontrada morta por asfixia. Saiba o que fazer quando um familiar desaparece

Dona Marilza, de 79 anos, tinha uma vida ativa e saudável e costumava fazer compras sozinha (Foto: Acervo de família)

Na última quarta-feira (9), Marilza Marins de Almeida, de 79 anos, saiu de casa sozinha para ir ao mercado, como fazia tantas vezes. Lúcida, ativa e saudável, ela chegou a ser vista carregando seu carrinho de compras, como mostram imagens de câmeras de TV instaladas em uma galeria comercial de Bacaxá, Saquarema, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, onde mora. Marilza, no entanto, não voltou mais para casa, para desespero de sua família, que passou a procurá-la em todos os lugares: hospitais, asilos e até no Instituto Médico Legal (IML).

Na manhã deste domingo (13), veio a notícia que ninguém queria receber. Seu corpo foi encontrado em uma área pertencente à Igreja Adventista do Sétimo Dia, bem distante da rota que Marilza costumava fazer sempre e onde ela não frequentava. Segundo a família, acionada no dia seguinte, a polícia nada fez em quatro dias para investigar o caso. O corpo foi levado para o IML de São Gonçalo já que o mais próximo (de Cabo Frio) está fechado. O laudo da necropsia saiu somente na terça-feira (15): Marilza morreu por asfixia e esganadura. Ou seja, foi cruelmente assassinada e ainda teve seus pertences roubados.

Imagens de câmeras em galeria de Bacaxá (RJ) mostram Marilza com seu carrinho de compras dia 9/6 (Reprodução de internet)

Nada foi informado (pela polícia) sobre quais ações foram realizadas para apurar seu desaparecimento, bem como a causa da sua morte. Por fim, a autoridade continua se negando a apurar os fatos e investigar se houve sequestro, violência sexual ou latrocínio, chegando ao disparate de dizer que se o falecimento dela não configurar crime, irão encerrar o processo“, escreveu a jornalista Tatiane Sandes, sobrinha de Marilza.

Marilza foi enterrada na terça-feira, em cerimônia reservada a poucos parentes e amigos. Sua morte deixou na família um misto de dor e revolta e abalou toda a comunidade de Saquarema. Familiares – e também os moradores da pacata Bacaxá – cobram esclarecimentos da polícia sobre o caso. “Não há como viver o luto sem essas respostas. Marilza e sua família merecem respeito. A sociedade precisa saber da verdade. Os moradores de Saquarema e Adjacências necessitam de segurança. A autoridade policial e os órgãos competentes devem ser transparentes e têm obrigação de prestar atendimento à sociedade e dar as devidas explicações”, completou Tatiane.

Dona Marilza, de 79 anos, foi morta por esganadura e encontrada em terreno de igreja (Foto: Acervo de família)

Polícia Civil diz que investiga o caso

Procurada por ViDA & Ação, a Secretaria de Estado de Polícia Civil negou as informações da família de que nada foi feito no caso. “De acordo com a 124ª DP (Saquarema), tão logo o desaparecimento foi comunicado pela família, o protocolo investigativo foi implementado. Diligências foram realizadas a fim de localizar a idosa. Neste domingo (13/06), o corpo da vítima foi encontrado no bairro do Rio de Areia e encaminhado ao IML. A unidade aguarda o laudo do exame de necropsia. A investigação está em andamento para elucidar o caso”.

Com relação à necessidade de realizar a necropsia em São Gonçalo, município a 93,7 km de Saquarema, a Secretaria de Polícia Civil informou que “o Posto Regional de Polícia Técnica e Científica (PRPTC) de Cabo Frio está em vias de retomar as atividades de necropsia do Serviço Médico Legal. As obras de reforma, realizadas em parceria com a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação, estão em fase de conclusão”.

Estado do Rio tem quase 5 mil desaparecimentos por ano

O caso de Marilza é mais um a terminar em tragédia no Estado do Rio de Janeiro, que registra cerca de 5 mil desaparecimentos por ano – média de 400 pessoas todo mês. Diariamente, ao menos 10 pessoas desaparecem na capital e 14 na Baixada Fluminense, segundo dados da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos. 

Em todo o Brasil, 200 mil pessoas desaparecem em média por ano, sendo 40 mil crianças e adolescentes, conforme estimativas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Dados no Ministério Público estadual, divulgados em 2020, apontavam o perfil dos desaparecidos no estado: 52% de negros e pardos, 38,53% entre 18 e 29 anos, 13,62% entre 12 e 17 anos, baixa renda.  

Não precisa esperar 24 horas: registro imediato é garantido por lei

De acordo com o Ministério Público, uma pessoa é considerada desaparecida quando seu paradeiro é desconhecido por familiares e amigos ou quando sua localização é considerada inviável após a busca desses entes. A tipificação de desaparecimento não leva em conta os prováveis motivos ou causas e o tempo de decorrência.

Muitas pessoas ainda desconhecem, mas o registro imediato de um desaparecido é uma garantia legal (Lei n. 11.259/05), não é preciso aguardar 24 horas após a notificação do ato. A nova lei reforçou a prioridade imediata nas buscas pelos órgãos investigativos especializados, o que deve ajudar a romper com a falácia de ter que esperar 24 horas para fazer o registro do desaparecimento.

Isso está no imaginário do brasileiro, e precisa ser superado. Quanto mais cedo as buscas começam maiores são as pistas disponíveis”, afirma Jovita Belfort, superintendente de Enfrentamento à Pessoa Desaparecida do Estado do Rio, em recente entrevista à Carta Capital.

O que fazer em caso de desaparecimento

O Governo do Estado lançou em 2020 um material informativo para orientar a população sobre como proceder em casos de desaparecimento de parentes. Denúncias também podem ser feitas pelo Disque Cidadania e Direitos Humanos (0800 0234567), que funciona todos os dias, 24 horas por dia.

 – Registre o fato na delegacia de polícia mais próxima;
– Procure em hospitais, prontos-socorros e abrigos públicos;
– Descarte a possibilidade de falecimento junto à delegacia ou indo diretamente ao Instituto Médico Legal (IML); 
– Divulgue o desaparecimento para amigos, familiares e redes sociais;   
– Entre em contato com os seguintes serviços, que funcionam 24 horas por dia: 

Polícia Militar – emergência 190
Delegacia de Descobertas de Paradeiros (2202-0338 / 98322-0228)
Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense (2779-6622)
Divisão de Homicídios de Niterói e São Gonçalo (2717-2838 / 98322-0228)

A Prefeitura de São Paulo também criou uma cartilha para enfrentamento de desaparecimentos em 2016 (veja aqui).

Quando o desaparecido é criança ou adolescente

A programa S.O.S. Crianças Desaparecidas, coordenado pela Fundação para Criança e Adolescência (FIA), já localizou 3.267 crianças e adolescentes ao longo dos seus 25 anos de atuação. Se tiver informações sobre algum jovem desaparecido ou queira divulgar um novo caso, entre em contato pelos telefones (21) 2286-8337 ou (21) 98596-5296 ou pelo site.

Dicas para prevenir desaparecimento de crianças e adolescentes:

  1.  Tirar o RG da criança o mais cedo possível
  2.  Estar sempre alerta em locais públicos
  3.  Orientar a criança pra não dar atenção a desconhecidos  
  4.  Manter diálogo para evitar conflitos familiares
  5.  Colocar identificação com telefone na criança antes de sair de casa.
  6.  Ensiná-la a falar o nome dos pais e um telefone para contato.

Perguntas e respostas sobre idosos desaparecidos

Desde o primeiro momento, a família de Marilza se mobilizou para encontrar pistas da aposentada, na esperança de encontrá-la viva. Tatiane Sandes chegou a criar um perfil no Instagram para reunir todas as informações recebidas e ajudar a divulgar dados que pudessem ajudar a localizar sua tia.

Ela também compartilhou algumas das perguntas que mais receberam sobre o caso por parte de pessoas interessadas em ajudar. Reproduzimos abaixo na quinta o questionário por entender que pode ajudar em outros casos de desaparecidos, especialmente quando a vítima é idosa (veja abaixo).

🤔 Ela era doente? Tinha problema de memória ou tinha Alzheimer?

  • Não! Ela estava lúcida, mas não descartamos a possibilidade dela ter tido algum lapso/surto.

🤔 Ela costuma sair sozinha?

  • Sim. Ela era lúcida. Costumava sair sozinha, às vezes, para resolver suas coisas, como banco, mercado, comércio, etc.

🤔 Estava devendo alguém, com dúvidas, que pudesse ser uma cobrança?

  • Não, nada que pudesse justificar alguma ação de vingança.

🤔 Sacou dinheiro no banco?

  • Sim, alguns dias antes. Estamos tentando ter acesso à conta. Mas, infelizmente, só com ordem policial/judicial.

🤔 Morava sozinha? Tinha algum problema familiar?

  • Ela mora com a família, composta de filha, genro e 3 netos. Ainda que em casa separadas em alguns momentos, mas sempre no mesmo terreno/lado a lado.

🤔 Ela estava bem? Teria algum motivo para fugir?

  • Aparentemente sim. Não percebemos nenhuma insatisfação nesse sentido. Ela costumava falar quando estava aborrecida, a expor seus sentimentos, não somente com quem morava com ela, mas também com os seus demais parentes e amigos.

🤔 Ela tinha intenção de alugar algum imóvel e morar longe da família?

  • Ela nunca expressou essa vontade. Marilza sempre viveu muito próxima da filha e dos netos, mesmo quando o seu esposo ainda era vivo, ajudando a criá-los. Eles dormiam com ela. Então, não que demonstrasse esse desejo.

🤔 Vocês avisaram à polícia sobre o desaparecimento dela? Fizeram registro?

  • Claro! O boletim foi registrado no dia 10/06.

🤔 Procuraram nos hospitais? IML? Asilo?

  • Sim, procuramos em todos esses locais da cidade. No caso dos hospitais, foi feito um alerta para os demais das proximidades, caso entre alguém com as características dela. O mesmo também com o IML.

Entenda o caso Marilza

Por Tatiane Sandes*

Marilza foi encontrada no sítio dos desbravadores, que fica em Rio da Areia (distrito de Saquarema). Um local distante de onde morava e do mercado/comércio local, onde foi vista no dia do seu desaparecimento (conforme os vídeos já divulgados).

O corpo foi encontrado próximo a um lago, sem a roupa de baixo. Ela estava com blusa, mas o sutiã estava fora do lugar (como se tivesse sido mexido). Ela estava sem carteira, cartão, dinheiro, documentos e sandálias. Sua única filha foi quem a encontrou no local, após ter sido avisada por populares. Para constatar a situação, fez registros do corpo e do local.

Infelizmente, desde o início, a família não tem tido apoio dos órgãos competentes. Seu desaparecimento foi registrado no dia 10/6 e todas as imagens e informações foram conseguidas através do trabalho de familiares e amigos, com ajuda de populares. A comoção nas redes sociais locais foi tão forte, que gerou uma grande repercussão e mobilização para encontrá-la.

Até o momento, a polícia não se manifestou. Nada foi informado sobre quais ações foram realizadas para apurar seu desaparecimento, bem como a causa da sua morte. Por fim, a autoridade continua se negando a apurar os fatos e investigar se houve sequestro, violência sexual e latrocínio, chegando ao disparate de dizer que se o falecimento dela não configurar crime, irão encerrar o processo.

Relato da filha de Marilza: suspeita de violência sexual

Não há como viver o luto sem essas respostas. Marilza e sua família merecem respeito. A sociedade precisa saber da verdade. Os moradores de Saquarema e adjacências necessitam de segurança. A autoridade policial e os órgãos competentes devem ser transparentes e têm obrigação de prestar atendimento à sociedade e dar as devidas explicações.

Uma pergunta fica no ar é: “Até quando as mulheres sofrerão violência, de um modo geral?”. Queremos respostas!! #marilzamarinsmerecerespeito #somostodosmarilza #queremosrespostas

Com Carta Capital e GovRJ (atualizado em 15/6/21, às 13h)

Deixe um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.

In the news
Leia Mais