MSF condena descaso à emergência sanitária que já matou 500 mil brasileiros

Em carta aberta no dia de atos contra Bolsonaro, organização humanitária Médicos Sem Fronteiras critica condução da emergência sanitária

Manifestação contra Bolsonaro, em memória das 500 mil vítimas da Covid e a favor da vacina no Centro do Rio (Foto: Reprodução de internet)

Por Renata Santos*

A todos que direta ou indiretamente sofrem conosco a dor de meio milhão de perdas. Viver a perda de quem se ama é devastador, e eu me identifico com a sua dor. Nada menos que 500 mil vidas foram interrompidas pela Covid-19 no Brasil. MEIO MILHÃO de pessoas! 

Pais, irmãos, filhos, amigos, amores da vida… perdas irreparáveis. Essa catástrofe vivenciada de maneira única por cada um de nós, é também coletiva. Fez com que passássemos a viver em um estado de luto permanente no país, com o sistema de saúde à beira do colapso e, por parte do poder público, ainda estamos distantes de ver uma resposta efetiva, centralizada e coordenada à doença.

Como organização humanitária, temos o dever de condenar com indignação o descaso à emergência sanitária que está causando a morte de centenas de milhares de brasileiros. Como organização médica, é nossa obrigação esclarecer que muitas dessas mortes poderiam ser evitáveis.

A insistente recusa em colocar em prática medidas de saúde pública baseadas em evidências científicas, como o distanciamento social e o uso de máscara, mesmo para quem já foi vacinado ou teve a doença, segue resultando na morte prematura de muitas pessoas e aumentando o risco do surgimento de novas variantes.

Onde pouco mais de 11% da população já tomou as duas doses da vacina, a Covid-19 segue infectando e matando milhares todos os dias no Brasil. E enquanto testemunhamos o sofrimento de brasileiros que perderam seus entes queridos e de profissionais da área de saúde exaustos, padecendo de graves impactos psicológicos e emocionais devido às condições de trabalho, assistimos também ao grande volume de informações falsas sobre a Covid-19 que circulam pelas comunidades do país, alimentando um ciclo de doença e morte.

É desolador perceber que essa desinformação muitas vezes é propagada por quem teria a responsabilidade de proteger a população. É inadmissível que, mesmo com 500 mil mortes, haja autoridades que defendam o uso de medicamentos sem eficácia comprovada, desprezando conhecimentos científicos e renegando medidas eficazes. Agir dessa maneira, neste momento, é nada menos que desumano. 

Pode ser óbvio, mas é necessário dizer que como o Brasil se encontra em uma situação de alta circulação e transmissão do vírus e ainda precisa avançar na vacinação, não usar máscaras neste momento contribui para manter alta a incidência da COVID-19. O resultado disso não é outro senão mais hospitalizações e mortes.

Esse impacto tem sido sentido com mais força entre os que estão mais expostos e vulneráveis e com menos acesso à saúde, mostrando outro efeito cruel da pandemia, o de ter escancarado nossas desigualdades históricas no acesso à saúde. Diversos estudos divulgados desde o início da epidemia de Covid-19 indicam que a própria doença, e também seus impactos sobre o sistema de saúde, afetaram de maneira mais cruel as populações negra e indígena, migrantes e refugiados.

Infelizmente, a Covid-19 ainda está longe de ser controlada. Enquanto houver pessoas desprotegidas, as vidas de nossos pais, filhos, irmãos, amigos, amores continuarão ameaçadas. Neste momento, mesmo com toda exaustão e ansiedade para que tudo acabe logo, temos de continuar juntos e firmes nessa batalha pela vida. Por favor, se proteja e cuide dos seus.

*Renata Santos é presidente do Conselho de Médicos Sem Fronteiras (MSF-Brasil)

Deixe um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.

In the news
Leia Mais