Mulher morre intoxicada após progressiva com formol

Dermatologistas explicam os riscos à saúde causados pela alta concentração do produto em tratamentos para cabelos e dão dicas de como evitar

Redação
A morte de Lidiane Ferreira dos Santos, de 31 anos, no último dia 16, acendeu o alerta para um problema que aflige boa parte das brasileiras, que se submetem ao tratamento para alisar os cabelos. Lidiane morreu 10 dias depois de realizar uma escova progressiva em um salão de beleza da cidade de Ilha Solteira, no interior de São Paulo.
De acordo com a família, logo que voltou para casa, ela começou a sentir reações como queimação pelo corpo, irritação da pele e falta de ar. No dia 12 foi encaminhada para o Hospital Regional da cidade, onde ficou internada na Unidade de Terapia Semi-intensiva.

Segundo o atestado de óbito divulgado pelo hospital, a morte de Lidiane ocorreu por conta de uma parada cardiorrespiratória, alergia a produtos químicos, crise convulsiva e hipotensão. Segundo relato da família ao portal G1, os médicos disseram que Lidiane estava com muito formol no corpo.

Crime hediondo – A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informa que o uso de formol em produtos estéticos só é permitido com a finalidade de conservar produtos e para endurecedor de unhas. “Qualquer outro uso acarreta sérios riscos à saúde da população. Adicionar formol é infração sanitária (adulteração ou falsificação) e crime hediondo, de acordo com o art. 273 do Código Penal”, explica o órgão em comunicado. 

Mas como identificar que os produtos químicos usados na escova progressiva não têm formol? ViDA & Ação ouviu dois dermatologistas para tirar todas as dúvidas. Rodrigo Pirmez, coordenador do Departamento de Cabelos da Sociedade Brasileira de Dermatologia RJ, explica que a recomendação atual é procurar o registro/número do processo do produto no rótulo e entrar no site da Anvisa para verificar se o produto está listado como alisamento.

“Vale lembrar que a adulteração de um produto (adição de formol) pelo profissional é uma infração sanitária”, ressalta o vice-presidente da International Trichoscopy Society e autor do livro Hair and Scalp Treatments.
É importante salientar que a Anvisa proibiu desde 2009 o formol como agente alisante. Este produto é um conservante e deve ser usado como tal em concentrações máximas de 0,2%. Quando utilizado como alisante traz sérios riscos à saúde de quem aplica e de quem recebe”, ressalta o dermatologista Felipe Chediek, de Balneário Camboriú (SC).
Rodrigo explica o que é o formol, os problemas causados pelo seu uso e quais sintomas de que o produto está agredindo a saúde. Já Felipe mostra como o produto age nos fios, explica que a aplicação caseira é ainda mais perigosa e ensina como é possível recuperar os cabelos após o tratamento.

– O que é o formol? 

O formol tornou-se popular como produto de alisamento dos cabelos no início dos anos 2000. O fato de ele ser compatível com cabelo descolorido, poder ser feito em cabelos que já receberam outros tipos de alisamento e conferir brilho aos fios, fez sua popularidade crescer rapidamente. No entanto, devido às evidências de malefícios à saúde ele foi proibido para esse fim e atualmente só é liberado na concentração de 0,2% como conservante em cosméticos ou até 5% como endurecedor de unhas em esmaltes.

– Por que ele é prejudicial para a saúde? 

O formol em altas concentrações pode causar irritação da pele, olhos e vias respiratórias. Dependendo do grau de exposição, pode ocorrer intoxicação do organismo e pode ser fatal. A exposição prolongada à substância já foi relacionada a maior risco de câncer de vias respiratórias e hematológico.

– Quais são as alternativas para fazer progressiva sem formol?

Existem outros produtos que também podem alisar, sem contar o formol. Produtos conhecidos são o tioglicolato e os hidróxidos de sódio e guanidina, por exemplo. A recomendação atual é procurar no site da Anvisa e o produto a ser utilizado possui registro que o libere para alisamento (basta procurar pelo número do processo na embalagem e digitá-lo no site da Anvisa).

– Quais são os sintomas de uma intoxicação pelo formol?

  • Por contato com a pele: queimadura, irritação e alergia com sensação de coceira, descamação e vermelhidão do couro cabeludo e queda de cabelo
  • Por contato com os olhos: Ardência e lacrimejamento
  • Por inalação: ardência, coriza, coceira, falta de ar, tosse, dor de cabeça
  • A longo prazo: sensação de boca amarga, dores de barriga, enjôo, vômitos, feridas na boca, nariz e olhos.
  • Importante: O uso indevido do formol já foi relacionado a diferentes tipos de câncer (boca, narinas, pulmão, traqueia…)

– Como a progressiva atua nos fios do cabelo?

Os fios de cabelo como sabemos é composto de proteínas, basicamente de queratina. Para que ocorra uma mudança na estrutura das fibras, ou seja, para que haja transformação de um cabelo crespo ou ondulado em um liso é necessário o rompimento de certas ligações (chamadas de dissulfeto). Para isso podem ser utilizados diversos tipos de produtos como tioglicolato ou mesmo o formol que agem quebrando as ligações de enxofre. Assim, o formato espiralado desaparece e se forma o liso. 

– Por que a progressiva é prejudicial para os fios?

​Depende muito da substância que será utilizada para tal. Alisantes proibidos como o formol ou o ácido fórmico, o glutaraldeído, o ácido glioxílico, levam a situações incontroláveis e imprevisíveis, uma vez que com o passar do tempo e sessões os cabelos vão se degradando, pela acidificação capilar. Sem contar os perigos à saúde, podem causar, em raros casos, até a morte. Grande parte das vezes vamos ter uma quebra por volta da terceira ou quarta sessão, quando a formação de pontes metilênicas – no caso do formol – e de pontes etilênicas – no caso do ácido glioxílico – estimulam a formação de ácido cistêico, que gera um desequilíbrio físico-químico à fibra, diminuindo sua resistência mecânica a outros processos químicos, como colorações e clareamentos. Fique sempre atenta aos sintomas de uma possível alergia: como coceira, ardência, aparecimento de manchas vermelhas no couro cabeludo e procure um médico. Procure usar apenas produtos que tenham o aval da Anvisa. 

– Fazer a progressiva em casa pode ser mais perigoso pro cabelo? 

​Não é aconselhado fazer esse tipo de procedimento sozinha em casa. Tenha cuidado com produtos que você compra no mercado, muitos vendedores dizem não ter formol mas “por trás das câmeras” acabam acrescentando essa substância proibida, muitas vezes disfarçada com outros nomes menos conhecidos. Procure sempre por profissionais capacitados, que trabalhem com produtos sérios de empresas corretas. Sempre pesquise antes, exija o teste da mecha nos seus cabelos. Só assim é possível saber se eles resistirão ao procedimento que você pretende fazer. O risco do formol em sua aplicação indevida é tanto maior quanto maior a concentração e a frequência do uso, e se dá pela inalação dos gases e pelo contato com a pele, sendo perigoso para profissionais que aplicam o produto e para usuários.

– Existe alguma forma de alisar o cabelo que possa agredir menos os fios?

​Existem no mercado produtos justamente com essa proposta, de alisar sem causar os danos que observamos com a utilização do formol. Produtos estes dimensionados para atuar como um modelador de formas e texturas, tanto para a formação de cachos, quanto para a realização de um alisamento. São fórmulas, por exemplo, à base de Cisteamina de Sódio, que associa componentes que reagem de diferentes formas, dentro da mesma emulsão, promovendo aumento do nível de tolerância com cabelos crespos já processados por outros produtos químicos, como colorações clareadoras e outros componentes alcalinos de alisamentos.

O resultado é um produto com pH praticamente neutro, agindo de maneira não agressiva à fibra capilar, sem causar mudanças bruscas na abertura das cutículas capilares e sem acidificar a fibra de forma irresponsável. Isso permite uma condição mais saudável aos fios com possibilidade de serem tratados, posteriormente, de forma mais eficiente. 

– Como recuperar a saúde dos fios em casa depois da progressiva

​Isso vai depender muito do que foi utilizado para se fazer a progressiva, qual produto trabalhado. Dependendo do dano a fibra, pode ser irreversível, tendo que a pessoa cortar o cabelo mais curto e esperar o crescimento de novos fios. Pense bem ao fazer um procedimento de alteração do formato dos fios. Se decidir por fazê-lo, peça ao seu cabeleireiro que lhe diga qual foi o produto que usou para tal e ANOTE. 

Importante ressaltar a necessidade de manter os fios hidratados após o procedimento da Escova Progressiva. Como o produto sela a cutícula, fica mais difícil colocar nutrientes e emolientes na estrutura do cabelo. Continuar o cronograma de hidratações contínuas , com uma frequência de 2 a 3 vezes por semana, fará com que esse processo não se torne uma carência para o fio.

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