Novembro Azul e a construção social sobre a masculinidade

Psicólogo avalia que homens negligenciam no autoconhecimento e autocuidado e têm se dedicado a alimentar um estereótipo, não uma pessoa real

Por Manuel Araya*

Quando se fala em “mente” é comum se referir a uma construção complexa e influenciada por diferentes elementos, como genética, sexo, época e contexto social. Em relação ao sexo, existe a dicotomia entre os estereótipos de masculino e o feminino, o que vem sendo questionado atualmente de forma positiva. As visões absolutamente binárias têm invisibilizado as construções mentais reais e cotidianas ao longo do tempo e tem determinado o que é “correto” e aceito perante a sociedade, o que não necessariamente é real. 

Em relação aos estereótipos sobre masculinidade, são tidas como aceitáveis características como força e resistência física, baixa expressão de dor, escassa manifestação emocional e pouca bagagem afetiva, além de alto nível de racionalidade e de competitividade entre os pares. Crescer acreditando que características assim tornam os indivíduos “homens de verdade” acaba os deixando pouco conectados com suas vulnerabilidades, gerando insegurança e sensação de incapacidade de cumprir o que a sociedade exige. Assim, a masculinidade esperada tem criado uma questão psicológica de resistência e defesa contra ela mesma.

Os homens, na busca de manter estas estruturas solidificadas, negligenciaram-se no autoconhecimento e no autocuidado e têm se dedicado a alimentar um estereótipo, não uma pessoa real. Nesse sentido, a mente masculina se tornou um tanto impenetrável, com escassas ferramentas básicas socioemocionais, o que prejudica o primeiro passo na relação de ajuda: compreender que há um problema e que estamos sujeitos a dificuldades.

Uma dessas vulnerabilidades com as que o homem tem se confrontado é a doença, que aparece para questionar as questões psicológicas masculinas em relação à fragilidade, trazendo à tona a possibilidade de morte, como acontece quando se é diagnosticado um câncer.

A campanha Novembro Azul, criada para conscientizar os homens sobre a importância do diagnóstico precoce do câncer de próstata, traz o tema à mesa da sociedade, pois esse tipo de câncer é o mais prevalente na população masculina, representando 29% dos diagnósticos da doença no país. O Instituto Nacional do Câncer (Inca) aponta que a estimativa é que haja 65.840 novos casos por ano entre 2020 e 2022. 

‘Nenhum homem está imune a padecer de câncer de próstata’

O ponto chave é que nenhum homem está imune a padecer de câncer de próstata, sobretudo aqueles que possuem mais fatores de risco tais como o consumo de álcool e o tabaco. Um diagnóstico de câncer coloca o indivíduo em um grau de mais alta vulnerabilidade a que uma pessoa pode ser submetida e a questão psicológica é uma das mais afetadas. Quando nossa sociedade não prepara esses homens para lidar com suas vulnerabilidades, esse cenário é ainda mais difícil.

A saúde mental masculina, ante um diagnóstico de câncer, pode se desmoronar com facilidade, porém, há fatores protetores que devem ser destacados e cultivados: a vida familiar, a expressão dos sentimentos sem julgamento, busca e cultivo de figuras de confiança e cuidado, a psicoterapia, e, por último, não esconder a dor, seja física ou mental. 

Os dados de saúde mental, em nível internacional, põem a mulher como sujeito de maior prevalência em patologias psicológicas, tais como os transtornos de ânimo ou outras associadas à ansiedade, que é duas vezes mais comum em mulheres, segundo um estudo da Universidade de Cambridge. Apesar disso, nota-se que a saúde mental do homem também é frágil, porém pouco estudada.

Basta dar uma olhada nas taxas de alcoolismo, dependência de drogas e até mesmo suicídios, os quais os homens representam os números mais altos. Para se ter uma ideia, em São Paulo, cerca de 89% dos internados por transtornos mentais e comportamentais devido ao alcoolismo são homens, segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde (SES).

É evidente que a atenção à saúde mental do homem é urgente e ela começa com a própria mudança do estereótipo do papel do homem na sociedade. Estamos avançando, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido.

Manuel Araya é psicólogo e diretor técnico Latam da Psicologia Viva (Foto: Divulgação)

*Manuel Araya, psicólogo e diretor técnico Latam da Psicologia Viva, maior empresa de saúde mental da América Latina.

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