Novo ministro da Saúde diz que cumprirá o que Bolsonaro determinar

O médico Marcelo Queiroga, escolhido como novo ministro da Saúde, disse que dará continuidade à gestão de Eduardo Pazuello

Redação
Presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Marcelo Queiroga assume o Ministério da Saúde (Foto: Divulgação SBC)

Mais do mesmo? Foi esta a indagação de muitas pessoas que enxergam com desconfiança a escolha do médico cardiologista Marcelo Queiroga para o comando do Ministério da Saúde. O anúncio do seu nome, em substituição ao general Eduardo Pazuello, foi feito na segunda-feira (15/3) pelo presidente Jair Bolsonaro.

Na manhã desta terça (16), Queiroga esteve com o presidente em Brasília e suas primeiras palavras não agradaram boa parte dos especialistas e da imprensa. O quarto ministro a assumir a pasta durante a gestão de Bolsonaro disse que seu papel será dar continuidade ao trabalho iniciado por Pazuello e seguir a política traçada pelo presidente para a Saúde.

O governo está trabalhando. As políticas públicas estão sendo colocadas em prática. O ministro Pazuello anunciou todo o cronograma da vacinação. A política é do governo Bolsonaro. A política não é do ministro da Saúde. O ministro da Saúde executa a política do governo. O ministro Pazuello tem trabalhado arduamente para melhorar as condições sanitárias do Brasil e eu fui convocado pelo presidente Bolsonaro para dar continuidade a esse trabalho”, disse Queiroga.

Presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), Marcelo Queiroga assumirá nos próximos dias o cargo de ministro da Saúde no pior momento da pandemia no país, com 15 dias consecutivos de alta nos números de casos e óbitos. A troca ocorre também em meio a uma forte pressão pela vacinação em massa da população, bem como por lockdown – considerado o único meio para frear o avanço da pandemia hoje no país.

Hoje, o Brasil é líder global em número de mortes diárias em números absolutos e diversas capitais do país estão com a maioria dos hospitais com leitos de UTI esgotados. Considerando o tamanho da população, o país ocupa o 12º lugar entre os mais atingidos, com 132 mortes a cada 100 mil habitantes, segundo levantamento da Universidade Johns Hopkins (EUA).

Algumas cidades brasileiras, como Araraquara (SP), decretaram lockdown para conter o avanço da pandemia e outras reforçaram suas medidas restritivas com toques de recolher e mais fiscalização.

Notas da Sociedade Brasileira de Cardiologia e da Confederação Nacional de Municípios

Nesta terça, a SBC emitiu uma nota oficial parabenizando Marcelo Queiroga pelo novo cargo. A nota também destaca a importância de se observar a “vigilância permanente e obediência à ciência”. Com mais de 13 mil sócios, a SBC é a maior sociedade de cardiologia latino-americana, e a terceira maior sociedade do mundo. Foi fundada em 14 de agosto de 1943, na cidade de São Paulo, por um grupo de médicos destacados liderados por Dante Pazzanese, o primeiro presidente.

Também nesta terça, a Confederação Nacional de Municípios (CNM) emitiu uma nota oficial em que manifesta apoio ao novo ministro. No entanto, cobra do governo federal três importantes medidas que fazem parte do Pacto Nacional em Defesa da Vida e da Saúde.

São elas: a vacinação em massa da população pelo Programa Nacional de Imunização (PNI); o apoio a medidas preventivas para a contenção do vírus, como o distanciamento social e o uso de máscara; e o auxílio da União para a manutenção e a abertura de novos leitos para o tratamento da Covid-19, bem como a integração dos sistemas hospitalares.

Amigo de Flávio Bolsonaro e indicado para a ANS

Queiroga foi anunciado como ministro depois de se reunir com Bolsonaro em Brasília nesta segunda. Ao contrário de Ludhmila Hajjar – que foi cotada para a pasta e chegou a se encontrar com o presidente o presidente, mas descartou o convite -,**- Queiroga agrada a militância do presidente nas redes sociais, mesmo defendendo o isolamento social.

Em um canal no YouTube, o presidente elogiou seu novo eleito, uma indicação do seu “filho 01”, o senador Flávio Bolsonaro. “A conversa foi excelente, já o conhecia há alguns anos. Não é uma pessoa que tomei conhecimento há poucos dias. E tem tudo no meu entender para fazer um bom trabalho, dando prosseguimento em tudo que o Pazuello fez até hoje”, disse Bolsonaro.

Contra a cloroquina e a favor do isolamento

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo neste domingo (14/3), Marcelo Queiroga disse que não defende bandeiras bolsonaristas, como o uso da cloroquina. “A própria Sociedade Brasileira de Cardiologia não recomendou o uso dela nos pacientes (…) Nem eu sou favorável porque não há consenso na comunidade científica”, afirmou.

Em maio de 2020, a Sociedade Brasileira de Cardiologia recomendou que a cloroquina, a hidroxicloroquina e azitromicina não fossem usados contra o novo coronavírus. Os medicamentos são defendidos até hoje por Bolsonaro mesmo sem ter efeito contra a Covid-19. 

Depois da repercussão do posicionamento, a entidade recuou e divulgou nova nota, em parceria com o Ministério da Saúde. O novo texto abria a possibilidade de pacientes receberem cloroquina e hidroxicloroquina após assinarem termo de consentimento.

Defensor da vacinação contra a Covid-19

Até receber o convite para assumir o Ministério da Saúde, Queiroga sempre se posicionou a favor da vacinação contra Covid. Em um vídeo na página da Sociedade Brasileira de Cardiologia, ele fala da importância da imunização para combater a pandemia. Em 20 de janeiro, aparece em outro vídeo tomando a vacina.

A SBC também emitiu nota em que “reforça sua posição perante à sociedade, apoiando a importância da ampla vacinação da população contra a COVID-19. A vacina é segura, eficaz e traz esperança a todos os brasileiros! Juntos vamos vencer o novo coronavírus!’.

Queremos reforçar como é fundamental a população em geral seguir o isolamento social, para evitar o contágio, e tomar todas as precauções indicadas”, disse Marcelo Queiroga em um texto publicado no site da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

Em abril de 2020, em entrevista à GloboNews, confirmou sua opinião. “O isolamento social visa a reduzir aquele pico de pessoas que precisam de internação hospitalar. É uma medida recomendada pelas autoridades sanitárias de uma maneira homogênea”. E também defendeu o Sistema Único de Saúde: “Fortalecimento do SUS – esse é o recado que essa pandemia traz para todos nós brasileiros”.

Quem é Marcelo Queiroga, novo ministro da Saúde

Com perfil técnico, Queiroga fez parte da equipe de transição do governo na área da saúde. Em dezembro de 2020, foi indicado por Bolsonaro para assumir um cargo na direção da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). A indicação ainda não foi votada pelo Senado Federal.

Natural de João Pessoa e formado em Medicina pela Universidade Federal da Paraíba, Queiroga tem mais de 30 anos de experiência como médico. Fez residência em Cardiologia no Hospital Adventista Silvestre, no Rio de Janeiro. Tem especialização em Cardiologia, com área de atuação em Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista.

Atualmente, ocupa o cargo de diretor do Departamento de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista (Cardiocenter) do Hospital Alberto Urquiza Wanderley, em João Pessoa, e cardiologista do Hospital Metropolitano Dom José Maria Pires, em Santa Rita (PB).

Também cursa doutorado em Bioética na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, em Portugal. Ele fez parte da primeira etapa do projeto de imunização nacional, no estado da Paraíba, como um dos profissionais de saúde que atuam na linha de frente combatendo a pandemia.

Troca de ministros na Saúde movimenta Twitter

A troca de nomes no Ministério da Saúde tem sido um dos temas mais comentados no Twitter nos últimos dias. Para entender o sentimento dos brasileiros na rede social sobre a saída do general Eduardo Pazuello e a chegada de Marcelo Queiroga para assumir a pasta, a Knewin, maior PRTech da América Latina, analisou 91.197 tuítes entre 14 e 16 de fevereiro.

A ferramenta utilizada para o estudo foi a Knewin Social, que indicou um pico de menções no dia 15/03, data da definição de Queiroga como novo Ministro da Saúde, com mais de 63 mil tuítes. Pazuello foi mencionado mais de 25 mil vezes, enquanto o Ministério da Saúde foi citado em mais de 19 mil tuítes entre domingo (14) e terça (16).

Quanto às hashtags mais utilizadas sobre o assunto, aparecem: #bolsonarogenocida (2.850 tuítes), #patriotasnasruas (2.767 tuítes) e #forabolsonaro (1185 tuítes). Entre as contas mais mencionadas aparecem o jornalista da CBN @leandrogouveia (4.317 tuítes), @jairbolsonaro (2.091 tuítes) e @globonews (1.776 tuítes).

Os assuntos com mais destaque foram a pressão do chamado “centrão” – bloco de parlamentares da Câmara formado por partidos de centro e centro-direita – para terem prioridade na indicação do novo nome para ocupar a gestão do Ministério da Saúde.

Também foram feitas críticas ao trabalho feito por Pazuello, citando a postura negacionista diante da situação da pandemia no país. Outro assunto comentado envolveu aos candidatos ao cargo, em especial a recusa da médica Ludhmilla Hajjar em aceitar o convite para ser a nova ministra da Saúde.

Em relação ao novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, os assuntos com mais destaque foram: críticas à aproximação do político com a família Bolsonaro, o fato de Queiroga defender a vacinação em massa e menções sobre a posição do ministro de descartar o lockdown como medida de combate à pandemia. Além disso, os brasileiros também comentaram sobre o cenário que o novo ministro pode enfrentar em razão do negacionismo da ciência na gestão da pandemia no país.

Com G1 e BBC Brasil

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