Número de mortes por Covid-19 dobra a cada 5 dias no Brasil

Chegada da epidemia em cidades menores também preocupa. Dois meses após o primeiro registro de novo coronavírus, ainda não se tem um perfil definido das principais vítimas

Redação
Coronavirus

Relatório do sistema de monitoramento da Covid-19 criado pela Fiocruz  para avaliar o avanço da doença em todo o mundo aponta um dado alarmante: no Brasil a velocidade das mortes é mais acelerada  do que em outros países e tende a avançar. O país está em curva ascendente da pandemia, tanto de casos confirmados, quanto de óbitos.

O número de mortes dobra a cada cinco dias no Brasil, enquanto em países como Itália, Espanha  e França é de seis dias e no Irã, de oito. O ritmo de crescimento da infecção no Brasil é similar apenas ao registrado nos Estados Unidos, país com taxa alta de disseminação. Por aqui, foram 18 mortes na primeira semana (15 a 22 de março); 96 na segunda semana, 1.223 na semana passada e 4.205 novas mortes neste domingo (26) – outros 1.322 óbitos estão em investigação.

A nota técnica da Fiocruz, divulgada no último dia 20 de abril, também alerta para a interiorização da epidemia, que está chegando de forma acelerada aos municípios de menor porte do país. A curva de óbitos exponencial que começou em grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, já chega a todos os municípios com mais de 500 mil habitantes e em 66% daqueles com até 100 mil.

A situação piora em cidades menores, com 10 mil a 50 mil habitantes: 59,6% já têm casos. Já 25,8% dos municípios com população entre 20 mil e 50 mil, 11,1% daqueles com população entre 10 mil e 20 mil habitantes e 4,1% dos municípios com população até 10 mil habitantes apresentam casos de Covid-19. Isso tende a piorar com o relaxamento das recomendações de isolamento social, à medida em que a pandemia avança.

O epidemiologista Diego Xavier, pesquisador do Laboratório de Informação em Saúde do Icict/Fiocruz, diz que o que mais preocupa com relação à propagação da doença no país diz respeito a dois aspectos. Primeiramente, o tempo de recuperação lento associado à alta taxa de contaminação tem ocupado leitos das grandes cidades, e pode provocar colapso do sistema de saúde nessas cidades.

Em segundo lugar, à medida que a doença avança para o interior e atinge cidades menores, a demanda por serviços mais especializados de saúde, como UTI e respiradores, também cresce. “Só que esses municípios menores, em sua maioria, não detêm esses recursos de saúde, então terão que enviar seus pacientes a centros maiores, que já apresentam leitos, equipamentos e pessoal de saúde em situação difícil”, alerta Xavier.

Perfil ainda não é fechado

Exatamente dois meses após o registro do primeiro caso do novo coronavírus no Brasil, ainda não se tem um perfil exato das vítimas da doença por aqui. O que se sabe pelos dados até o momento é que 72% das mortes ocorreram com pessoas acima de 60 anos, que geralmente têm uma defesa do sistema imunológico mais debilitado. Os números apontam que 60% das vítimas são homens, que costumam ter mais problemas de hipertensão e obesidade, outros fatores de risco.

Pessoas que sofrem de problemas cardiovasculares também estão mais propensos a contrair o vírus, que agride o coração, provocando sua inflamação. Já 70% dos óbitos apresentavam algum fator de risco, como o diabetes, que torna os pacientes mais suscetíveis a infecções, mais sujeitos à inflamação sistêmica. Para especialistas, não se pode desenhar este perfil porque faltam informações. Já em 40% dos casos a vítima tem alguma cardiopatia.

Apenas 350 dos 2 mil leitos de UTI anunciados pelo Ministério da Saúde no início de março, foram entregues, o que significa só 17,5%, e 15 estados não receberam nenhum leito. A escassez de respiradores é o motivo para a demora, segundo a pasta. No Rio de Janeiro há vagas de UTI somente no Hospital Zilda Arns, em Volta Redonda. A taxa de ocupação de leitos de UTI no estado é de 95%.

Subnotificação é o maior problema

A defasagem nos dados oficiais pode explicar outro dado: a maioria das mortes (56%) registradas pelo Ministério da Saúde é entre pessoas de cor branca e 34% em pardos. Apenas 5% das vítimas fatais são negras, enquanto quase 60% da população são de pardas ou negras. Isso pode revelar uma defasagem de testes, já que a cada três óbitos, apenas um tem informação sobre a raça do paciente.

A subnotificação é outra preocupação. Outro estudo mostra que apenas 8,9% das infecções por novo coronavírus são identificadas no sistema de saúde, o que significa que para cada caso confirmado, há pelo menos outros dez doentes ou infectadas sem diagnóstico. Em boa parte dos casos suspeitos, a pessoa é enterrada sem realizar o teste. No Brasil, uma taxa de letalidade de quase 7%, enquanto em países que realizam mais testes, a taxa é de 1,3%.

De acordo com o Ministério da Saúde, apenas 250 mil testes foram realizados até hoje, sem contar os testes rápidos, que não são precisos. O número de internações de pacientes com doenças respiratórias graves registrados em março é 10 vezes e meia mais que em março do ano passado. O problema é dificultado porque em muitos municípios e estados as fichas são preenchidas a mão, o que faz as estimativas sobre mortes triplicarem.

Um estudo realizado em parceria com a Universidade de Pelotas vai testar 100 mil pessoas para identificar se foram infectadas e são assintomáticas. O estudo será realizado em três fases e já é considerado o maior no mundo. Outro estudo mostrou que no Rio Grande do Sul, uma em cada duas pessoas tinham o vírus. Com isso, a estimativa é que no feriado da Páscoa haveria mais de 5 mil casos da doença, mas os dados confirmados só apontavam 700. Isso confirma a teoria do iceberg: a ponta visível representa uma parte pequena do tamanho da pedra.

Em apenas 24 horas, mais 3.379 casos e 189 mortes

O Ministério da Saúde informou, neste domingo (26), que o Brasil tem 61.888 casos confirmados do novo coronavírus. Nas últimas 24 horas, foram registrados 3.379 novos casos, o que representa incremento de 5,8% em relação aos dados de sábado (25) e 189 mortes, alta de 4,7% em relação à atualização anterior.

O estado com maior número de casos e óbitos é São Paulo: 20.715 e 1,7 mil, respectivamente. Em seguida, vem o Rio de Janeiro, com 7.111 casos, e 645 mortes. Em terceiro lugar, está o Ceará com 5.833 casos e 327, mortes. O estado com o menor número de casos é Tocantins, com 58 casos confirmados, e duas mortes.

Ao todo, 30.152 pessoas infectadas estão recuperadas (49%), o que coloca o Brasil em oitavo lugar no ranking dos países que têm mais recuperados – Espanha, Alemanha, Estados Unidos, China e França estão à frente..

Nas últimas 24 horas no Rio, foram 283 casos confirmados e 30 óbitos, segundo dados divulgados pela secretaria estadual de Saúde. Outros 278 óbitos seguem em investigação. A capital registra o maior número de casos confirmados: 4.498. Seguido dos municípios de Nova Iguaçu (310), Duque de Caxias (300), Niterói (260) e Volta Redonda (189). Setenta e seis dos 92 municípios do estado apresentaram casos do novo coronavírus.

Em relação aos óbitos, 41 municípios já registraram mortes em decorrência da doença. A cidade do Rio de Janeiro segue com o maior número de óbitos (383). Em seguida, está o município de Duque de Caxias, um dos últimos a fazer o isolamento social, com 63 mortes. Nova Iguaçu (24), Niterói (19) e São Gonçalo (19) completam a lista dos cinco municípios com mais óbitos no estado.

O Estado de São Paulo registrou nas últimas 24 horas mais 33 óbitos decorrentes da covid-19. Na capital foram registrados 66% dos óbitos, enquanto no interior, litoral e cidades da Grande São Paulo, 34%. A mesma proporção ocorre em relação aos casos confirmados da doença, que somam hoje (26) 20.715.

De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde, permanece em 128 o número de cidades paulistas que já registraram ao menos uma morte decorrente de covid-19. O número de municípios com, no mínimo, um caso confirmado da doença continua 284, ou 44% das cidades do estado.

Em relação a internações, a rede pública de saúde em São Paulo funciona com ocupação de 58,9% dos leitos de unidade de terapia intensiva (UTI) reservados para o tratamento de covid-19. Na Grande São Paulo, esse número é de 77,3%. Também não houve variação desses números em relação aos dados de ontem.

Neste domingo, há 7,5 mil pacientes com suspeita ou com a doença confirmada internados em hospitais da rede pública paulista: 2.908 em UTIs e 4.619 em enfermarias. Ontem, esses números eram 2.906 e 4.546, respectivamente.

Isolamento social cai para 52% em São Paulo

Dados do Sistema de Monitoramento Inteligente (Simi-SP) do governo paulista mostram que o percentual de isolamento social no estado foi de 52% neste sábado (25). Nos sábados anteriores, 18 de abril, 11 de abril, 4 de abril e 28 de março, os índices registrados foram, respectivamente, de 54%, 55%, 57% e 56%.

A informação é baseada em dados de telefonia móvel dos cidadãos, analisados pela Simi. O sistema abrange informações dos celulares de cidadãos de 104 cidades com mais de 70 mil habitantes.

Segundo o governo estadual, a partir do monitoramento é possível apontar em quais regiões a adesão à quarentena é maior e em quais, as campanhas de conscientização precisam ser intensificadas, inclusive com o apoio das prefeituras.

O sistema conta com informações agregadas das operadoras de telefonia Vivo, Claro, Oi e TIM sobre o deslocamento das pessoas no estado. Segundo o governo, as informações são “aglutinadas e anonimizadas sem desrespeitar a privacidade de cada usuário”.

Os dados, atualizados diariamente, podem ser consultados por município e estão também disponíveis em gráficos no site do estado sobre a doença.

Em 11 de março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou situação de pandemia em decorrência da Covid-19. O termo é usado quando uma epidemia – grande surto que afeta uma região – se espalha por diferentes continentes com transmissão sustentada de pessoa para pessoa

Ministério da Saúde

Mais sobre o estudo da Fiocruz

nota técnica do MonitoraCovid-19, sistema que agrupa e integra dados sobre a pandemia do novo coronavírus no Brasil, observou o crescimento diário dos casos de Covid-19 nas semanas de 29 de março a 4 de abril; 5 a 11 de abril; e 12 a 16 de abril. Os cientistas apontam que a pandemia segue com alto crescimento no número de casos na região Norte, marcadamente no estado de Rondônia, e no Nordeste, onde se destacam os estados do Piauí, Alagoas e Ceará. Também é preocupante a situação dos estados do Pará, Amapá, Maranhão e Pernambuco, que seguem com tendência de crescimento acelerado no número de casos.

Por outro lado, houve uma aparente tendência à desaceleração do crescimento no número de casos em boa parte das unidades federativas do país, principalmente nas regiões Sudeste e Sul. Esse decréscimo tem relação com as medidas de isolamento social, “dado que a comparação com outros países torna evidente comportamento similar em várias partes do mundo”. No entanto, o número de casos seria um dado mais impreciso do que o de óbitos. Epidemiologistas, geógrafos e estatísticos do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict/Fiocruz) têm se debruçado sobre a ferramenta para elaborar análises sobre o avanço da doença.

Os dados de óbitos são mais confiáveis do que os dados de casos para medir o avanço da epidemia. Isso porque, no caso do óbito, mesmo o diagnóstico que não foi feito durante a evolução clínica do paciente pode ser investigado. Além disso, a situação clínica do paciente que vem a óbito é mais evidente, quando comparada aos casos que podem ser assintomáticos e leves”,  esclarece o epidemiologista Diego Xavier, pesquisador do Laboratório de Informação em Saúde do Icict/Fiocruz.

Acesse a nota técnica.

Com Assessorias